sábado, 21 de janeiro de 2012

Crepúsculo dos Deuses

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Crepúsculo dos Deuses (Sunset Blvd., 1950)

Estreia oficial: 10 de agosto de 1950
IMDb



"Crepúsculo dos Deuses" foi a última parceria entre Billy Wilder e Charles Brackett. E que ocaso!!! A dupla que rendeu roteiros como "Ninotchka", e outros filmes dirigidos por Wilder como "Cinco Covas no Egito" e "Farrapo Humano", chegaria ao fim com sua maior obra. Uma espetacular obra-prima não só do Cinema, mas que também fala criticamente sobre o cinema, mais especificamente sobre Hollywood.

O roteiro de Brackett, Wilder e D. M. Marshman já começa de forma surpreendente. Não me recordo de um filme anterior a este que tenha uma narração em off do personagem já morto (bom, Machado de Assis já o fizera, mas na literatura, em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"). Joe Gillis (William Holden) é um roteirista falido, que passa por uma crise de criatividade e está prestes a perder o seu carro. Tentando fugir de seus credores, ele acaba escondendo-se na garagem de uma antiga mansão no tal Sunset Boulevard (do título original). Ao contrário do que imaginara a princípio, a casa não estava abandonada, mas habitada por duas curiosas criaturas: uma antiga estrela do cinema mudo, Norma Desmond (Gloria Swanson); e seu mordomo Max (Erich von Stroheim), que acabará mostrando-se ser bem mais do que um simples serviçal. A partir daí, cria-se uma ligação entre Norma e Joe, já que esta o contrata para lapidar um roteiro que ela escrevera, baseado em "Salomé", e que, acredita, vai lhe proporcionar seu retorno às telas. Precisando de dinheiro, Joe aceita a proposta, indo também morar na casa de Norma. E é a partir daí que um estranho relacionamento se estabelecerá entre os dois. Enquanto escreve para Norma, porém, Joe começará a se envolver com a aspirante a roteirista Betty Schaefer (Nancy Olson).

Através da narração póstuma, "Crepúsculo dos Deuses" revela o seu final logo na primeira cena, ao mostrar um homem morto (que até então não sabemos quem é) boiando em uma piscina, em um belíssimo plano minuciosamente planejado por Billy Wilder, que jamais revela inteiramente o rosto do morto, mas nos deixa curiosos. Porém, logo em seguida, quando vemos Joe Gillis datilografando em sua máquina de escrever, nos atinamos que se trata da mesma pessoa. Mas como ele, o protagonista da história, foi parar ali? E por quê? São essas respostas que o roteiro responde de forma brilhante, voltando no tempo para, então, desacortinar todos os acontecimentos que levaram à morte de Joe.

A grande sacada de Wilder, na minha opinião, foi traçar uma linha muito tênue entre a ficção e a realidade de Hollywood e, para tanto, escalou nomes cujas trajetórias pessoais muito bem poderiam se confundir com seus próprios personagens. Gloria Swanson foi realmente uma grande estrela do cinema mudo. Erich von Stroheim também foi um diretor conhecido desta época (e que, inclusive, dirigiu Gloria Swanson). Há ainda Cecil B. DeMille interpretando ele mesmo. E, para complementar, o cineasta ainda chamou nomes como Buster Keaton, Hedda Hopper, Anna Q. Nilsson e H. B. Warner para interpretar a eles mesmos: assim como Norma, ex-atores do cinema mudo, que juntam-se a ela peridocamente para jogarem bridge. Além, é claro, de utilizar os estúdios e instalações da Paramount como cenário do filme.

Mas, seja pela proximidade com o tema - Swanson voltou a atuar justamente com "Crepúsculo dos Deuses", depois de nove anos longe do cinema - seja pelo seu talento nato, a atriz compõe uma personagem que exala superioridade e auto-confiança, uma verdadeira 'diva'. Porém essas características apenas servem para camuflar uma personalidade depressiva e repleta de amarguras. À primeira vista, Norma parece um estereótipo, uma caricatura de mulher; porém, aos poucos, vai revelando-se uma pessoa de fato. Uma atriz que não faz mais parte de seu tempo, estancada em sua própria realidade. Ela diz, muito apropriadamente: "Eu sou grande! Foram os filmes que se tornaram pequenos", num belíssimo, mas triste, reflexo que faz de si mesma.

E, se Gloria Swanson personifica a crítica do roteiro sobre Hollywood, o personagem de William Holden, Joe, é a crítica falada em alto e bom som. Suas falas, seja na narração em off ou em seus diálogos, são repletas de cinismos e alfinetadas à indústria cinematográfia estadunidense. Holden é sempre ambíguo - se, por um lado nos identificamos com sua vontade de vencer dentro de um meio profissional traiçoeiro, e perdoamos a exploração que faz de Norma; fica difícil também não odiá-lo ou repudiá-lo justamente pelos mesmos motivos - e são nesses momentos de paradoxo que o personagem cresce.

Há ainda Erich von Stroheim (que já havia trabalhado com Wilder em "Cinco Covas no Egito"), e dá o tom certo de rispidez e mistério ao mordomo Max. Complementando o elenco principal há Nancy Olson, que empresta vivacidade e ternura à sua Betty, dando frescor à narrativa e servindo de contraponto a tantos personagens conturbados. Ela seria a representação daqueles novos profissionais de Hollywood, que ainda não se corromperam pela indústria e seu manipulador sistema.

Tecnicamente "Crepúsculo dos Deuses" também é impecável. A fotografia de John F. Seitz mergulha os ambientes em sombras, num clima que remete ao noir, e dá o tom ambíguo que a trama sugere. A trilha musical de Franz Waxman emprega certos acordes dissonantes para pontuar o crescente tom incômodo da narrativa. E a minuciosa direção de arte de Hans Dreier e John Meehan recria com perfeição os diversos ambientes de uma antiga mansão, que já fora luxuosa, mas que, no tempo diegético (ou em que se passa a narrativa), mostra-se repleta de rachaduras, pinturas descascadas, e cuja suntuosidade deu lugar à decadência. O mesmo cuidado é tido com os figurinos de Norma e de Max. Uma impecável construção, cujos objetos de cena complementam a narrativa.

Há ainda a direção irretocável de Billy Wilder, orquestrando tudo isso, e que mescla momentos mais intimistas, dando tempo e espaço para valorizar seus atores e seus diálogos cuidadosamente escritos; com outros de extremo apuro técnico (sem jamais menosprezar o trabalho de seus atores), como a já citada cena da piscina; a cena em que Norma e Joe dançam em um salão vazio; ou o seu incrível final, quando Norma Desmod, do alto da escadaria de sua mansão, prestes a ser presa e totalmente alucinada por suas fantasias, desfila entre jornalistas e policiais estupefatos. "Estou pronta para o meu close-up, Sr. DeMille", ela diz. E Wilder termina sua obra-prima com o seu rosto enlouquecido e aterrorizante, deixando o espectador num misto de pavor e piedade.

Enfim, "Crepúsculo dos Deuses" pode até não ser o 'Wilder' favorito de muita gente (eu, particularmente, nunca consegui definir o meu), mas seu valor é incontestável. É a obra cinematográfica metalinguística máxima que já foi realizada. E as 5 estrelas lá de cima são poucas para classificá-lo!

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


2 comentários:

Danilo Craveiro disse...

Esse é um dos filmes que já há algum tempo tá na minha lista de clássicos pra assistir. Me parece realmente incrível... Parabéns pelo post! Alias, esse título, Crepúsculo dos Deuses, é um dos que eu mais gosto.

Hugo disse...

É um filmaço, como quase todas as obras de Wilder.

Como curiosidade, Eric Von Stroheim também era diretor.

Até mais