sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Pacto de Sangue

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Pacto de Sangue (Double Indemnity, 1944)

Estreia oficial: 24 de abril de 1944
IMDb



Ao dirigir seu terceiro filme nos Estados Unidos, Billy Wilder já cria uma obra-prima não só do gênero noir, mas do cinema como um todo. Este "Pacto de Sangue" representa um dos primeiros filmes a adotar o estilo visual que, posteriormente, caracterizaria os famosos filmes noir, com sua fotografia preta-e-branca bem contrastada e bastante uso de sombras (numa nítida influência dos filmes expressioanistas alemães), além da trama ambientar-se quase que exclusivamente à noite e tratar de personagens de moral um tanto quanto duvidosa.

O roteiro, escrito pelo próprio Wilder em parceria com Raymond Chandler, baseado no romance de James M. Cain, narra a história de um corretor de seguros, Walter Neff (Fred MacMurray), que acaba envolvendo-se com a esposa de um cliente, a sedutora e misteriosa Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck). Logo ela convence-o a participar de um plano para assassinar seu marido. Utilizando-se dos seus conhecimentos acerca das apólices de seguros e das investigações futuras, Neff acredita ter bolado o crime perfeito afim de que tudo pareça um acidente e Phyllis receba a tal indenização dobrada do título original. Porém, para isso, eles terão que enganar o colega de trabalho de Neff, o desconfiado e extremamente inteligente, Barton Keyes (Edward G. Robinson).

Possuindo uma das características marcantes do cinema noir, "Pacto de Sangue" inicia com uma narração em off do próprio Neff, que, já de cara, admite ter matado o Sr. Dietrichson. Devo confessar que nou sou das mais fãs de narração em off, porém, aqui, ela funciona como fio condutor da história. Nada daqueles comentários que apenas reiteram o que as imagens já estão dizendo. O texto de Wilder e Chandler serve não apenas para ambientar a ação, mas também para complementar a personalidade do protagonista. Ao narrar sua história, Neff também vai, aos poucos, revelando seu caráter e seus sentimentos.

Aliás, a composicão dos personagens talvez seja o ponto alto do roteiro, criando indivíduos tridimensionais e, acima de tudo, extremamente complexos e enigmáticos. E, se ao longo do filme vamos descobrindo quem é Walter Neff, sua fascinação por aquela mulher sedutora, sua frieza, e seu posterior arrependimento; ao mesmo tempo em que somos brindados com o raciocínio sempre rápido e sagaz de Keyes, juntamente com sua inquestionável moral; o mesmo não se pode dizer de Phyllis. Desde o momento em que aparece pela primeira vez na tela, sabemos que aquela mulher não é quem aparenta. Sempre dissimulada e manipuladora, ela nunca revela seus verdadeiros sentimentos e pensamentos. Até no clímax do filme, quando ela e Neff confrontam-se e ela lhe diz: "Não, eu nunca te amei, Walter - nem você, nem ninguém. Eu te usei, assim como você acabou de dizer. Foi tudo o que você significou pra mim. Até há um minuto, quando eu não consegui disparar o segundo tiro", ao que ele responde: "Desculpe, querida, não estou acreditando". Nem ele, nem nós, espectadores. E acho que nem mesmo a própria Phyllis acredita no que acabou de dizer. E é essa femme fatale traiçoeira que é a força motriz do longa de Wilder.

Claro que muito da força destes personagens deve-se à brilhante atuação de seus atores. Edward G. Robinson, com seu jeito bonachão, dá o tom certo de moralidade a uma história repleta de personagens amorais; Fred MacMurray esbanja virilidade e um jeito 'durão'; mas é mesmo Barbara Stanwyck que cria a personagem mais fascinante do longa, e quiçá, da história do cinema. Não há como descrever Phyllis em palavras, só vendo-a para ter completa noção do que essa mulher seria capaz de fazer.

Como não poderia deixar de ser em um filme de Wilder, sua direção é sempre segura e imprime um ótimo ritmo à narrativa, além de manter, constantemente o clima de urgência e suspense que a história pede. Os diálogos, é claro, são sempre rápidos e repletos de insinuações e duplos sentidos, bem ao estilo do cineasta; além de, vez ou outra, conterem um quê de humor e sarcasmo, mesmo num contexto tão tenso e denso.

Para finalizar, há ainda a excelente fotografia de John F. Steitz, com alto contraste e sombras bem demarcadas, como falei, bem ao estilo noir. E a ótima trilha musical de Miklós Rózsa, que intensifica o clima de suspense e desconfiança de toda a narrativa.

Enfim, acho bastante difícil escolher 'o' melhor filme de Billy Wilder, mas "Pacto de Sangue" certamente entrará no 'top 5' da lista de qualquer espectador. Mais do que isso, é um dos melhores filmes do gênero noir já realizados.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Cinco Covas no Egito

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Cinco Covas no Egito (Five Graves to Cairo, 1943)

Estreia oficial: 4 de maio de 1943
IMDb



Segundo filme dirigido por Billy Wilder em sua fase estadunidense, este "Cinco Covas no Egito" conta com roteiro do próprio Wilder em parceria com Charles Bracket (inspirado em uma peça de Lajos Biró), e conta como um oficial inglês (Franchot Tone), disfarçado de um mordomo, Paul Davos, de um hotel localizado em um pequeno oásis em Sidi Halfaya, no norte da África, consegue descobrir os segredos do temível major alemão Erwin Rommel (Erich von Stroheim) e suas tropas.

Rommel é uma figura lendária da Segunda Guerra Mundial e, sob seu comando, os Afrika Korps (Corpo Expedicionário Alemão na África) venceram várias batalhas na região norte da África. Até que em 1942 foram derrotados por falta de provisões pelo exército britânico. A partir destes fatos, então, o roteiro cria a trama de como o segredo do aparentemente invencível Major Rommel, após suas diversas vitórias na região, foi descoberto. Há ainda o mérito de ter sido escrito e produzido poucos meses após a tal derrota dos alemães, e mais de dois anos antes do término da guerra.

O roteiro, inteligentemente, concentra sua trama quase que exclusivamente no interior do hotel. Assim, Wilder consegue manter o clima de tensão e urgência apropriados à história, auxiliados por uma precisa edição.

As atuações também são boas, ainda que von Stroheim soe um pouco caricato, seu Major Rommel transmite, de forma inquestionável, um ar de temeridade e respeito àqueles que o cercam. Sua postura realmente intimida. E, se Franchot Tone está correto; Anne Baxter dá vivacidade à camareira francesa Mouche que não mede esforços para libertar o irmão, prisioneiro de guerra. Mas é Akim Tamiroff, como o gerente do hotel, Farid, quem se destaca, quebrando o tom de seriedade imposto pela narrativa, e dando-lhe sutis toques de humor que ajudam, inclusive, no ritmo do longa.

Toda a trama é extremamente bem construída, há um determinado momento, inclusive, no qual Rommel oferece um jantar para oficiais britânicos prisioneiros, e que, em mãos não tão meticulosas como a de Wilder, poderia muito bem cair no caricato ou no inverossímel. Porém, auxiliado pela composição de Erich von Stroheim, soa perfeitamente natural que o Major ofereça a seus 'convidados' uma mostra de sua 'inteligência superior'.

Além disso, há ainda a bela fotografia de John F. Steiz, que mergulha o hotel em sombras nos momentos mais tensos da narrativa.

Enfim, "Cinco Covas no Egito" foi o filme que garantiu que as portas de Hollywood abrissem-se ainda mais a Billy Wilder depois de um bom começo com "A Incrível Suzana".

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A Incrível Suzana

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Incrível Suzana, A (The Major and the Minor, 1942)

Estreia oficial: 16 de setembro de 1942

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Quando chegou aos Estados Unidos, em 1933, fugindo do nazismo que já se consolidava na Alemanha, Billy Wilder mal falava inglês, mas com a ajuda de seu compatriota Peter Lorre, logo conseguiu um emprego como roteirista em Hollywood. Wilder, que já havia co-dirigido seu primeiro longa na França "
Semente do Mal" (1934), já em sua fase estadunidense, escreveu vários roteiros, a maioria em parceria com Charles Brackett, dentre os quais "Ninotchka" (de 1939, de Ernst Lubitsch) e "Bola de Fogo" (de 1941, de Howard Hawks). Em 1942, no entanto, lutando por mais controle sobre seus roteiros, Wilder conseguiu dirigir seu primeiro filme solo, este "A Incrível Suzana", também escrito com Brackett, numa parceria que ainda duraria mais cinco filmes, dentre eles o incrível "Crepúsculo dos Deuses" (de 1950, justamente o último da dupla).

Neste "A Incrível Suzana", Ginger Rogers é Susan Applegate, uma esteticista que, cansada de penar em Nova York, decide voltar para sua cidade natal no Iowa. Porém, ela não tem o dinheiro necessário para a passagem de trem e resolve se travestir de uma menina de 11 anos para pagar apenas meia. Claro que as coisas não darão muito certo e, descoberta pelos condutores, Susan acaba conhecendo o major Phillip Kirby (Ray Milland) que, acreditando na sua história, ajudará a 'pequena' Susu. Mas devido a um problema no trem, ela precisará esperar 3 dias na Escola do Exército onde ele trabalha e, claro, os dois acabarão se apaixonando, para o desgosto da noiva do major (Rita Johnson).

Claro que, sob a ótica atual, o roteiro parece bastante inocente. Mas, mesmo assim, traz questões bastante ousadas. E, se pensamos que hoje em dia não temos tantos tabus quanto no passado, alguém pode me apontar um filme atual onde um adulto se apaixona por uma menina de 11 anos? Claro que essa questão é tratada com o humor e a leveza habituais das comédias de Billy Wilder, que ameniza o assunto travestindo Rogers, mesmo colocando-a em um bocado de situações insunantes e de duplo sentido com Ray Milland; porém, olhando superficialmente, é apenas um adulto protegendo uma garotinha, mas a malícia está ali, implícita, pero no mucho.

E é justamente nas situações de duplo sentido, que o roteiro de Wilder-Brackett sobressai-se. O próprio título origiinal já é um trocadilho, afinal poderia ser traduzido como 'o major e a menor', ou também, 'o maior e a menor (de idade)'. Além, é claro, dos diálogos rápidos e inteligentes, que ganham vivacidade quando ditos por uma ótima Ginger Rogers.

Rogers, obviamente, não parece uma garota de 11 anos, mas toda sua postura muda quando Susan traveste-se. Seus gestos tornam-se menos comedidos, sua voz mais estridente, e sua ironia e esperteza (para uma pré-adolescente) cativa não só o major Kirby, mas também o espectador.

O final, é claro, é óbvio e previsível; mas é o percurso até chegarmos lá que vale a pena. Na cena do baile, em particular, há um momento hilário, onde todas as meninas sofrem do 'mal Veronica Lake'.

Com perdão do trocadilho, é um Wilder 'menor' que vale pela sua 'menor', afinal como diz o major em certo momento: "Sabe, Susu, você é uma garota muito especial"; ao que ela responde: "Pode apostar que sim!". E ela realmente é, pode apostar!


por Melissa Lipinski



   

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O Guarda

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Guarda, O (The Guard, 2011)

Estreia oficial: 7 de julho de 2011
Estreia no Brasil: 11 de novembro de 2011
IMDb



Em "A Marca da Maldade" (de Orson Welles, 1958), a personagem de Marlene Dietrich diz que Hank Quinlan (o próprio Welles) é "um ótimo detetive mas um policial desprezível". Tal julgamento muito bem poderia aplicar-se ao protagonista de "O Guarda", o sargento Gerry Boyle, interpretado pelo (sempre) ótimo Brendan Gleeson.

Escrita e dirigida por John Michael McDonagh, a história não poderia ser mais simples. Gerry é um policial nada ortodoxo de uma pacata cidadezinha irlandesa, que não vê problemas em se envolver com prostitutas ou pegar ecstasy de um rapaz que acabou de sofrer um grave acidente de carro. Mas é quando o tráfico internacional de drogas chega à sua cidade, e seu companheiro, o novato oficial McBride (Rory Keenan), é morto, é que o FBI entra em cena, na pessoa do agente Wendell Everett (Don Cheadle). Assim, o politicamento correto estadunidense confronta-se com o nada correto policial irlandês, e os dois terão que trabalhar juntos na captura dos bandidos.

É justamente no humor politicamente nada correto tipicamente britânico (do mesmo estilo daquele visto em "Na Mira do Chefe, de 2008; e "Chumbo Grosso", de 2007) que mora o ponto alto e o diferencial deste longa. Repleto de piadas preconceituosas, cínicas e irônicas, que tiram sarro dos próprios irlandeses, além de britânicos e estadunidenses; com traficantes de drogas que discutem filósofos como Schopenhauer e Nietzsche, o longa não poupa das piadas nem Barack Obama.

Mas, a grande atração é mesmo a atuação de Brendan Gleeson. Seu Gerry Boyle é preguiçoso, mal educado, e sua noção do que é correto parece meio deturpada. Porém, suas táticas de ação sempre o levam a fazer o que é certo. É como diz o personagem de Don Cheadle a certa altura: "não sei se você é extremamente burro, ou extremamente esperto". E, para compor o lado mais humano de Boyle, o roteiro lança mão de seu relacionamento com sua mãe doente (Fionnula Flanagan), mostrando que cinismo e ironia vêm de berço, em momentos que não só tornam o longa mais engraçado, mas também dão-lhe um toque que sensibilidade.

Claro que a trama em si, é uma sucessão de clichês de filmes policiais, mas como disse, os diálogos espirituosos e cínicos ao extremo fazem a diferença e auxiliam, inclusive, no ritmo do longa, tornando-o mais ágil.

Quando a ação chega ao seu ápice, o diretor ainda faz uma homenagem ao antigos filmes western-spaghetti, com espingardas e revólveres sendo substituídos por metralhadoras; mas os enquadramentos e a trilha musical lembram muito o gênero imortalizado pelas imagens de Sergio Leone e músicas de Ennio Morricone.

Enfim, é mais uma vez o humor britânico ensinando como inovar dentro de um tema e gênero já batidos. Talvez Hollywood devesse aprender um pouquinho de como a criatividade, ousadia, inteligência, e excelentes atuações (é claro) podem fazer a diferença.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Cavalo de Guerra

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Cavalo de Guerra (War Horse, 2011)

Estreia oficial: 25 de dezembro de 2011
Estreia no Brasil: 6 de janeiro de 2011
IMDb



E ainda não foi desta vez que Steven Spielberg voltou à sua velha e boa forma, já que seu último filme memorável data de 2005 ("Munique"). Neste "Cavalo de Guerra" o cineasta manipula todas as vertentes do longa num único propósito: fazer o espectador chorar.
O roteiro, escrito por Lee Hall e Richard Curtis, e baseado no romance homônimo de Michael Morpurgo, nos apresenta desde sua nascença, um belo cavalo que, desde seus primeiros instantes de vida, já é observado pelo jovem Albert (Jeremy Irvine). Quando seu pai, Ted Narracott (Peter Mullan), contrariando qualquer noção do bom senso, compra o animal - quando na realidade precisaria, desesperadamente, de outro tipo de cavalo - Albert passa a treiná-lo e o chamar de Joey. Porém, quando a Primeira Guerra Mundial chega, Ted se vê obrigado a vender o cavalo para o Capitão Nichols (Tom Hiddleston). A partir de então, Joey passará por vários donos e de um lado a outro do campo de batalha, enquanto Albert tenta manter viva sua promessa de reencontrar o seu tão amado animal.

Recorrendo a diálogos expositivos e que se encarregam de repetir o que estamos vendo com as imagens, o roteiro sempre gira em torno das ações de Joey (sim, o cavalo); e as pessoas vistas no longa parecem mesmo dispostas a parar suas vidas para observar os feitos deste, como diz o longa, 'miraculoso' animal, como uma vila inteira que para afim de ver se ele é capaz de arar um campo; ou, o que é pior, um hospital improvisado da guerra que, negligenciando todo e qualquer outro ferido (sim, humanos), dedica-se a tratar do cavalo machucado.

E, mesmo que o elenco conte com nomes de peso como Emily Watson, David Thewlis, Niels Arestrup e Eddie Marsan, seus personagens não conseguem ser mais do que estereótipos definíveis com uma ou, no máximo, duas características, e que agem de acordo com a conveniência do roteiro (ou alguém realmente acredita que um senhor viajaria dois dias apenas porque ouviu um boato de um tal 'cavalo miraculoso'?). Isso sem contar com o protagonista humano do filme, Jeremy Irvine, que carece de qualquer traço de carisma.

Há ainda a irritante trilha musical de John Williams, que martela em nossos ouvidos as óbvias mudanças de tom que o roteiro sofre. Em especial nos primeiros 30 minutos de filme, que não me recordo de uma cena em que não se ouça algum tipo de melodia.

Ainda preciso deixar registrada minha indignação por Spielberg tentar humanizar as reações dos animais. Ainda que possam ser engraçadas (esporadicamente) ou comoventes, os animais interagindo com humanos ou entre eles mesmos acaba tirando a credibilidade do roteiro. E a insistência do cineasta em colocar closes dos rostos dos cavalos como se estivessem transmitindo alguma emoção, é digno daqueles filmes de 'bichinhos falantes' da Sessão da Tarde. E o que dizer da amizade que se estabelece entre dois animais na guerra? Ou do arco dramático semelhante de Joey e Albert, que sofrem a perda de seus melhores amigos no mesmo instante? Forçar a barra? Não… Imagina!

Porém, se há méritos em "Cavalo de Guerra" é sua irrepreensível técnica. Desde a fotografia do habitual colaborador de Spielberg, o talentoso fotógrafo polonês Janusz Kaminski, que cria planos tão elegantes (um ato cruel visto através da rotação das pás de um moinho) quanto grandiosos e que evocam o tom épico da narrativa (a cavalaria que ruma à guerra num contra-luz belíssimo). Entretanto, por mais que mereça todos os créditos da bela fotografia, Kaminski ainda sucumbe ao propósito de Spielberg em levar o público às lágrimas forçadas, e cria uma cena final que, colocando seus personagens contra um céu cuidadosamente pintado, parece ter sido extraída diretamente de "… E o Vento Levou" (e não me surpreenderia se Emily Watson abaixasse-se, pegasse um punhado de terra e declamasse: "Jamais sentirei fome novamente").

Contando ainda com ótimas tomadas de batalha (sim, o cineasta é perito nisso), o longa impressiona pela cena-ápice, onde Joey corre por entre as trincheiras, fugindo de tiros e disparos de canhões (e, se a sequência foi feita toda digitalmente, impressiona ainda mais pela sua verossimilhança). E que desencadeia a melhor cena do longa, onde uma breve trégua é estipulada para ajudar um animal sofrido, num momento que mistura o horror e o tocante - mas mesmo assim Spielberg consegue forçar a mão, transformando uma cumplicidade silenciosa entre dois inimigos de guerra, e que tem nos gestos de seus compatriotas o tom mais leve para quebrar a tensão imposta, em um momento de piadinhas desnecessárias e que culmina na anunciação do nome de seu filme. Se o cineasta se limitasse ao momento por si só, e à emoção que este acarretaria, deixando o próprio público tirar suas conclusões, e não forçá-lo a tê-las (como o faz), certamente seria muito melhor sucedido em seu propósito.

Há também a belíssima montagem de Michael Kahn (outro antigo colaborador do cineasta), que cria passagens belíssimas, como a que sobrepõe um tricô a um campo de plantação, ou a sequência que mostra (na rima visual mais elegante e simbólica do longa, demonstrando que Spielberg ainda pode voltar a ser o grande cineasta que já se mostrou no passado) o embate suicida da cavalaria inglesa e alterna planos de seus oficiais montados com espadas em punho, e planos de seus cavalos passando sozinhos pela artilharia alemã. Porém, Kahn e Spielberg não conseguem fugir do tom episódico do longa, que mesmo se esforçando para tornar-se fluido (até trazendo, ao final, personagens que muito ficaram para trás), apenas consegue soar forçado demais (novamente).

Enfim, só me lembro de ter saído tão frustrada assim após um filme de Steven Spielberg ao assistir a "A.I. - Inteligência Artificial". Acho que já está na hora do cineasta reviver seus grandes momentos de outrora… Ou aposentar-se de vez.


por Melissa Lipinski


domingo, 8 de janeiro de 2012

Semente do Mal

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Semente do Mal (Mauvaise Graine, 1934)

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Estreia do brilhante diretor Billy Wilder na direção, aqui em parceria com Alexander Esway, "Semente do Mal" é um filme que o cineasta realizou na França, em 1934, enquanto rumava para os Estados Unidos, fugido da Alemanha, que já se encontrava sob a sombra do nazismo.

Escrito por Wilder em parceria com Max Koplé e Jan Lustig, o roteiro mostra como Henri Pasquier (Pierre Mingand) passa de playboy, filhinho de papai, a integrante de uma quadrilha especializada em roubar e revender carros. É dentro do bando, que Henri vai fazer amizade com Jean (Raymond Galle), e se interessar por sua irmã, Jeannette (Danielle Darrieux). Depois de um tempo, cansados da vida fora da lei, Henri e Jeannette resolvem fugir, mas para isso terão que convencer Jean a ir embora com eles, e enfrentar o chefe da gangue (Michel Duran).

Apesar da trama inocente (ainda mais vista sob a ótica atual), já se observa indícios da mão de Wilder na direção, como numa sequência noturna de perseguição de carros, ou nas cenas que mostram o modus operandi da quadrilha, e que já trazem as gags visuais irônicas e bem humoradas que marcariam a posterior cinematografia do cineasta.

E, ainda que a trama evolua rápido e supeficial demais, e não dê tempo para que seus personagens se desenvolvam, fazendo com que seus envolvimentos, sejam de amizade ou amorosos, soem forçados demais, o bom ritmo da narrativa e as sequências de roubos dão o tom certo de urgência e humor ao longa.

E mesmo que o filme tenha altos e baixos que se equivalam, vale a pena conferir como curiosidade histórica, afinal é o 'primeiro Wilder', e para tentar encontrar as características do diretor, ainda que de forma intermitente.

Não é um filme imperdível, mas diverte.


por Melissa Lipinski


sábado, 7 de janeiro de 2012

30 Minutos ou Menos

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

30 Minutos ou Menos (30 Minutes or Less, 2011)

Estreia oficial: 12 de agosto de 2011
Estreia no Brasil: lançado diretamente em DVD
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Depois do sucesso do engraçado "Zumbilândia" (de 2009), o diretor Ruben Fleischer e o ator Jesse Eisenberg voltam a se reunir em mais uma comédia. Só que desta vez não deu certo.

O roteiro escrito por Michael Diliberti fica sempre no meio termo, e assim, falta-lhe audácia em levar as situações ao extremo para que fiquem realmente cômicas. Não que não hajam situações engraçadas, mas elas são esporádicas. E, em um filme de comédia, isso é o fracasso.

A história é sobre Nick (Eisenberg) que, mesmo após formado, ainda trabalha como entregador em uma pizzaria que promete todas suas entregas nos tais 30 minutos ou menos do título. Depois de verem o seu comercial na TV, Dwayne (Danny McBride) e Travis (Nick Swardson) resolvem sequestrar Nick e lhe amarrar uma bomba caso este não faça o que eles querem. A tarefa: roubar um banco para que eles tenham o dinheiro para poderem pagar um matador de aluguel cujo trabalho renderá a Dwayne e Travis uma bela de uma herança. Para realizar o que lhe pedem, Nick acaba pedindo ajuda para Chet (Aziz Ansari), seu melhor amigo.

Sim, a trama é absurda. Porém, Fleischer parece querer levá-la a sério, e como falei, não consegue forçar as situações para que estas cheguem ao limite do tolerável, ao absurdo, e assim, tornem-se engraçadas. O resultado é uma sucessão de piadas sem graça e situações igualmente cansativas, além de personagens unidimensionais, estereotipados e mal desenvolvidos.

Quanto às atuações basta dizer que Jesse Eisenberg não chega nem aos pés da sua genial inspiração de "A Rede Social", ou de sua veia cômica de "Zumbilândia". Quanto aos outros, não surpreendem, não se destacam… Ou seja, o stauts quo de mediocridade mantém-se.

O ritmo do longa também não ajuda, já que lá pela metade você não aguenta mais toda aquela gritaria e corre-corre sem sentido. Um desatre!


por Melissa Lipinski


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Albert Nobbs

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Albert Nobbs (2011)

Estreia oficial: 21 de dezembro de 2011
Estreia no Brasil: ainda sem data prevista
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Fazia tempo que Glenn Close não se envolvia em um filme live action. Desde 2007 encarnando com perfeição a advogada Patty Hewes da série "Damages" e emprestando sua voz à animações, Close parece ter se dedicado muito a este seu novo projeto, já que, além de atuar, também é produtora e co-roteirista junto com John Banville.

O roteiro, baseado em um conto de George Moore, fala do persongem-título, mordomo do Morrison's Hotel (nenhuma relação com o disco do The Doors; aliás, ainda hoje existe um Morrison Hotel na capital irlandesa), e que esconde um segredo: traveste-se de homem há mais de 30 anos para sobreviver. O hotel, comandado pela entusiasmada Sra. Baker (Pauline Collins), conta ainda com um pequeno número de serviçais, dentre os quais a camareira Helen Dawes (Mia Wasikowska), e o recém contratado Joe Macken (Aaron Johnson); e como um dos hóspedes fixos do local, o Dr. Holloran (Brendan Gleeson). Porém, absolutamente ninguém desconfia de Albert Nobbs. Até que um dia, Hubert Page (Janet McTeer), pintor que está trabalhando provisoriamente no Hotel, é obrigado a dividir o quarto com Albert e acaba descobrindo o seu segredo (em uma cena um tanto quanto forçada e inverossímel). Acontece que o próprio Sr. Page também possui fatos a esconder, e acaba se transformando em amigo e confidente de Albert.

O grande mérito do longa são as atuações de Glenn Close e Janet McTeer que, mais do que homossexuais ou cross-dressings, transformam seus personagens em pessoas sofridas que, devido à necessidade viram-se obrigadas a se transformar em outras pessoas. Glenn Close, principalmente, faz de Albert Nobbs um ser quase que assexuado, cujo interesse pela companheira de trabalho Helen dá-se mais por conveniência e interesse em montar, no futuro, seu próprio negócio, do que por uma paixão arrebatadora. E são nas sutilezas e pequenos atos que a atriz cria um personagem interessante, fruto de quem demonstra extrema cumplicidade com seu objeto de estudo (vale lembrar que Close já havia vivido o mesmo personagem em peça de teatro no anos 1980).

Porém, infelizmente, o roteiro não colabora. Todos os demais personagens vistos no longa não passam de seres unidimensionais e estereotipados que não têm tempo suficiente em tela para serem melhor desenvolvidos. E, se Pauline Collins e Brendan Gleeson conseguem extrair alguma coisa de seus personagens e se destacarem dos demais, é mais por mérito de suas composições do que pelo roteiro. E se Aaron Johnson nada pode fazer com um personagem que, desde sua primeira cena, já mostra qual será seu arco dramático na história; Mia Wasikowska consegue transformar sua Helen em uma personagem chata, irritante e desinteressante, e que, em nenhum momento justifica a atenção que recebe nem do protagonista, nem do Sr. Page.

Mas o pior de tudo é que, aparentemente com medo de que os espectadores não entendessem suas motivações, os roteiristas fazem Albert Nobbs falar sozinho em vários momentos, narrando o que está fazendo, ou declamando seus pensamentos, em monólogos que parecem extraídos diretamente das novelas da Globo.

Contando com um ritmo irregular e um desenvolvimento da narrativa que se prende em supérfluos (por que, por exemplo, perder tempo com tantos hóspedes do hotel se esses não têm a mínima importância para o arco dramático e desenvolvimento da trama central?), "Albert Nobbs" traz ainda um desfecho bastante desinteressante e decepcionante para seu protagonista.

Por outro lado, a produção dirigida pelo cineasta colombiano Rodrigo García (que é filho do escritor Gabriel García Márquez) esmera-se na parte técnica. Desde a fotografia cuidadosa de Michael McDonough, até o seu design de produção e direção de arte, que recriam com perfeição uma Dublin do século XIX, além dos figurinos ricos em detalhes, que evidenciam as diferenças entre os trajes dos ricos e daqueles com um menor poder aquisitivo.

Enfim, contando com duas atuações que 'seguram' o longa, "Albert Nobbs" é um filme com erros e acertos que se equivalem, mas que teve a sorte de ter a talentosa Glenn Close como sua idealizadora.


por Melissa Lipinski


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A Separação

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Separação, A (Jodaeiye Nader az Simin, 2011)

Estreia oficial: 16 de março de 2011
Estreia no Brasil: sem data prevista
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"A Separação" é um drama que se baseia inteiramente sobre seus cinco personagens centrais e pelas interações entre eles. O que mais interessa ao diretor e roteirista Asghar Farhadi não é a história em si, mas o desenvolvimento de seus protagonistas, principalmente os dois casais envolvidos.

A partir de uma trama relativamente simples, Farhadi consegue criar personagens tridimensionais e extremamente realistas, onde ninguém é inteiramente bom ou ruim, todos são capazes de cometer atos cruéis e benevolentes ao mesmo tempo, movidos por interesses pessoais, por vezes egoístas, por outras, altruístas. Ou seja, seres humanos 'normais', independente da nacionalidade ou crença religiosa.

Assim, logo de cara ficamos sabendo que Simin (Leila Hatami) quer se separar de Nader (Peyman Maadi) por que este desisitiu de ir embora do Irã com ela e a filha deles, Termeh (Sarina Farhadi). O motivo é porque Nader não quer abandonar seu pai, que encontra-se em um estágio já avançado do Mal de Alzheimer. Assim, Simin vai morar com sua mãe e Nader contrata uma diarista, Razieh (Sareh Bayat) para passar o dia cuidando de seu pai enquanto ele está no trabalho. Razieh, porém, está grávida e trabalha contra a vontade do marido, Hodjat (Shahab Hosseini). Quando, um dia, Razieh sente-se mal e se vê obrigada a deixar o pai de Nader preso em seu quarto para ir ao médico, os mal entendidos começam e dão início a uma sucessão de processos judiciais e ações movidas por ambos os lados.

Mantendo a sua câmera sempre na mão, em movimento, o cineasta iraniano faz com que a narrativa se aproxime muito do documental, aproximando ainda mais aquelas pessoas do espectador. Sem contar que, ao escancarar aos nossos olhos os processos judiciais, torna a história ainda mais realista.

Mas o grade destaque desta história são mesmo os persoonagens e seus intérpretes. Sem reduzir suas ações em nenhum momentos a estereótipos, Farhadi torna-os tão realistas quanto imprevisíveis e capazes de atos contraditórios (afinal, são humanos). (E não leia o restante do parágrafo se não quiser saber spoilers!). Hodjat mostra-se extremamente descontrolado diante da situação, o que é totalmente compreensível já que sua esposa perdeu o bebê. Razieh pode até ter prendido um idoso doente à sua cama - o que à primeira vista parece crueldade, mas que ganha outra conotação diante do contexto em que ela se encontrava, já que seu bebê (dentro da barriga) não estava mais se mexendo. Já Simin, pode até parecer, em princípio, egoísta por querer ir para o exterior deixando seu sogro enfermo para trás, ou ao sair de casa e deixar a filha com o marido; mas num olhar mais acurado, vê-se que ela apenas quer o que acha melhor para o futuro de sua família. E o contraste entre Simin, uma mulher liberal em um país extremamente conservador e machista como o Irã, e Razieh, que é extremamente submissa e devota ao islamismo, é construído paulatina e sutilmente. E, se todas as atuações são igualmente excelentes, Peyman Maadi ainda consegue se destacar, compondo seu personagem, Nader, como um homem - da mesma forma que sua esposa - liberal, e extremamente carinhoso e atencioso à educação e criação da filha. Ao mesmo tempo em que se preocupa em passar à Termeh valores e ensinamentos que a levarão à independência de pensamentos; parece não enxergar o sofrimento que causa à adolescente ao colocá-la em situações cuja responsabilidade parece um tanto quanto pesada a uma garota de 11 anos, levando-a, inclusive, a mentir sob juízo para protegê-lo.

Contando ainda com um plano final que fecha com chave de ouro a narrativa e que mostra, literalmente, 'a separação' do casal protagonista, física e psicologicamente, Asghar Farhadi cria uma história aparentemente simples, mas que diz muito nas entrelinhas, sobre o próprio Irã, e sobre o comportamento humano.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Compramos um Zoológico

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Compramos um Zoológico (We Bought a Zoo, 2011)

Estreia oficial: 22 de dezembro de 2011
Estreia no Brasil: 23 de dezembro de 2011
IMDb



"Compramos um Zoológico" é um daqueles filme-família, repleto de lições de moral e situações construídas com o intuito de levar os mais sensíveis às lágrimas. O que o difere, no entanto, de tantos outros, é a mão de seu diretor e co-roteirista, Cameron Crowe, que recheia o longa de diálogos espirituosos e engraçados que quebram o melodrama, e ainda escala um elenco competente.

O roteiro, também co-escrito por Aline Brosh McKenna e baseado no livro homônimo do jornalista Benjamin Mee, conta como o próprio Mee (interpretado por Matt Damon), após a morte da esposa, vê sua vida e a de seus dois filhos entrar em um período muito difícil. A pequena Rosie (Maggie Elizabeth Jones), de 7 anos, parece encarar melhor perda da mãe; mas o adolescente Dylan (Colin Ford) começa a ir mal na escola, desenhar cenas macabras e, a toda hora, confrontar o pai. Para tentar um recomeço, Benjamin resolve comprar um zoológico abandonado no interior, contrariando os conselhos de seu irmão Duncan (Thomas Haden Church), e para a alegria de Rosie e desespero de Dylan. Lá, a família Mee, além de conviver com os animais selvagens, terá que dividir as tarefas com os antigos funcionários do zoo, que contam com o envocado MacCready (Angus Macfadyen), o colaborador Robin (Patrick Fugit, o garotinho de "Quase Famosos", de 2000), a jovem Lily (Elle Fanning), e a tratadora-chefe, Kelly (Scarlett Johansson).

Claro que o zoológico é o pano de fundo para que os conflitos e suas resoluções entre os personagens principais, principalmente entre pai e filho, desenvolvam-se. Há também, a metáfora entre a vida de Benjamin e a de um velho tigre que está em seus últimos dias. Mas, a grande verdade, é que a história de superação (que já vimos tantas e tantas vezes) ganha um quê a mais graças à ótima 'costura' que o roteiro emprega por meio de seus diálogos bem escritos e engraçados (o que Crowe já havia conseguido em "Jerry Maguire - A Grande Virada", de 1996). Assim, todo momento de um maior melodrama é seguido por uma fala espirituosa, que dá uma 'temperada' no que podia descambar para um alto nível de açúcar.

Além do mais, o elenco também é responsável pelo diferencial. Matt Damon sai-se bem como um homem sensível e abalado pela morte da esposa, e que vê dificuldades em criar os dois filhos. Se há força no personagem, há também fragilidade. E, se Scarlett Johansson não pode fazer muito como a tratadora Kelly (apesar de ser bom ver a atriz atuar sem que o seu corpo seja um dos 'pontos altos' da sua performance); é Thomas Haden Church um do principais responsáveis pela graça do filme, já que seu personagem serve como o 'suavizador' da tragédia acometida pela família Mee. Mas os destaques ficam mesmo para os jovens atores: Elle Fanning mais uma vez empresta graça e delicadeza à sua personagem (como em "Super 8"), e sua interação com Dylan dá um certo frescor à narrativa; o próprio Colin Ford sai-se muito bem como o filho contestador e que tem dificuldades em aceitar a morte da mãe; mas é mesmo a garotinha Maggie Elizabeth Jones quem rouba a cena e conquista o espectador a cada fala sua, devido ao seu enorme carisma e personalidade. Não tem como não sorrir quando a pequena solta frases inteligentes e repletas de humor.

Contando ainda com uma trilha sonora inspirada, "Compramos um Zoológico" cumpre a sua função: entreter, divertir e emocionar espectadores de todas as idades, e o que é melhor, sem menosprezar sua inteligência. Ao final, constatamos que nós também aceitamos o convite de Benjamin e "embarcamos nessa aventura" com sua família e funcionários.


por Melissa Lipinski