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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

As Aventuras de Tintim

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Aventuras de Tintim, As (The Adventures of Tintin, 2011)

Estreia oficial: 26 de outubro de 2011
Estreia no Brasil: 20 de janeiro de 2012
IMDb



Steven Spielberg conheceu o personagem Tintim em 1981, quando Georges Remi, ou simplesmente Hergé, teria declarado que o recém lançado filme de Spielberg, "Os Caçadores da Arca Perdida", traduzia da melhor maneira possível o espírito aventureiro de seu próprio personagem. A identificação que Spielberg deve ter sentido ao ler as histórias de Tintim é perfeitamente imaginável, afinal o jovem jornalista realmente era uma espécie de 'Indiana Jones mirim'. E, mesmo que eles não tenham tido a chance de se conhecer pessoalmente (Hergé morreu em março de 1983, meses antes de um possível encontro entre eles), a admiração era recíproca: Spielberg tratou logo de adquirir os direitos cinematográficos das aventuras de Tintim (já em 1983), e a esposa do recém falecido cartunista belga teria afirmado que ele uma vez declarara que, se alguém conseguiria levar às telonas o seu personagem, não poderia ser outra pessoa senão o diretor da saga "Indiana Jones".

Mas detalhes e boatos à parte, é verdade que há muito em comum entre Indiana Jones e Tintim, seja pela sede inesgotável (e muitas vezes, imprudente) por aventuras; seja pelo raciocínio e intelecto aguçados; seja pelo carisma inquestionável. Mas, infelizmente, a versão cinematográfica do personagem de Hergé não ganhou um filme à altura daqueles protagonizados por seu 'similar' humano. Apesar de um começo bastante promissor, a sucessão de sequências de aventuras alucinantes, sem que haja um tempo para o espectador conseguir 'respirar', acaba saturando a narrativa. Além disso, os diálogos por demais expositivos acabam minando um pouco o ritmo do longa, tornando-o um pouco lento demais nos momentos em que não há uma ação 'desembestada'.

Escrito por Steven Moffat, Edgar Wright e Joe Cornish, o roteiro é uma adaptação de três livros de Tintim - "O Caranguejo das Tenazes de Ouro", "O Segredo do Licorne" e "O Tesouro de Rackham, o Terrível" (dizem que os favoritos de Spielberg e do produtor Peter Jackson), e conta como o repórter aventureiro e seu inseparável companheiro canino, Milu, conhecem o capitão Haddock, um bêbado inveterado, e metem-se em diversas enrascadas até desvendarem o tal segredo do Licorne, um antigo navio cujo capitão era antepassado de Haddock. Porém nada será tão fácil, afinal o sinistro Sakharine também está atrás deste segredo, e fará de tudo para por suas mãos nele, nem que, para isso, tenha que se livrar do trio principal. Há ainda os agentes Dupond e Dupont, cujas inteligência e acuidade dedutiva é inversamente proporcional ao seu enorme talento em fazerem trapalhadas.

Contando com um visual incrível, a animação feita através do motion capture (ou mocap) - que transforma com fidelidade os movimentos e feições de atores reais em animação - confere uma verossimilhança assustadora não só aos cenários e objetos, mas como à textura de tudo o que é visto, em especial a da pele 'humana', com suas marcas de expressões e rugas; sem contar com os olhos dos personagens, extremamente expressivos e reais. Há momentos em que nem parece que estamos diante de uma imagem digital, tamanha a 'verdade' que os efeitos conferem-lhe.

Há ainda a bela fotografia do habitual colaborador de Spielberg, Janusz Kaminski, que acrescenta sombras para acentuar o tom dramático da narrativa, conferindo, em alguns momentos, um ar meio noir às sequências.

Demonstrando sua antiga habilidade em dirigir cenas de ação, Steven Spielberg não decepciona na parte técnica das sequências, seja pela ágil edição quanto por seus enquadramentos criativos e inusitados. Sem contar as inventivas transições de planos compostas pelo cineasta e seu (também habitual) montador, Michael Kahn (e que parecem estar se tornando uma 'marca', vide seu outro lançamento deste ano, "Cavalo de Guerra"), como na que vemos Tintim e Haddock, que estavam em pleno oceano, transfomarem-se em um poça d'água no chão sobre a qual alguém pisa; ou na belíssima e poética cena em que o capitão Haddock recobra sua memória, onde as dunas do deserto transformam-se em ondas de um oceano e vice-e-versa. É uma pena, porém, que a maioria do longa limite-se a uma sucessão de sequências de ação (às vezes longas demais), e não forneça o tempo necessário para desenvolver seus personagens ou contextualizar a história; sendo que apenas no seu terço inicial, "As Aventuras de Tintim" exija um pouco mais de atenção e raciocínio, seja de seu intérprete quanto do público.

Este fato acaba tornando-o uma diversão muito mais voltada para o público infantil do que, infelizmente, para o público que talvez tenha crescido lendo as suas aventuras nos quadrinhos ou assistindo-as na televisão - ainda que se revele um tanto quanto violento às crianças menores; e mostrando um personagem, que apesar de gerar situações engraçadas a partir sua condição, apresenta-se constantemente embriagado. Mas o fato é que boa parte do seu público 'mais fiel' talvez se irritará com os excessos de monólogos (muitos deles desnecessários) proferidos pelo inquieto Tintim; que, por vezes, aparenta ser o lado menos brilhante da dupla formada com seu cão Milu. Devo dizer, inclusive, que Milu é o melhor personagem do longa, pois, talvez pelo fato de não falar, suas ações, estratégias, vontades e sentimentos são demonstrados por outros meios que não palavras repetitivas e descartáveis, mostrando-se o personagem mais inteligente da trama.

Não que os fãs (os menos ferrenhos, é claro) possam reclamar muito; afinal, Spielberg e Jackson tentaram manter-se bastante fiéis aos desenhos de Hergé, e, por mais que a versão cinematográfica (potencializada pelo 3D) dê uma dimensão que não existia aos quadrinhos do cartunista belga, há que se admitir que, comparando-se os quadrinhos em que foi inspirado e o próprio filme, existem inúmeras semelhanças (mantendo-se, obviamente, a natureza e as propriedades específicas dos respectivos meios). Talvez a mudança mais significativa seja mesmo a nacionalidade dos personagens, já que a história foi transferida para a Inglaterra para que se tivesse coerência com a língua falada no longa (cuidado que Spielberg não demonstrou em "Cavalo de Guerra").

Os mais fanáticos ainda notarão que não só a excelente abertura é uma homenagem ao cartunista belga (e às capas de suas HQs), mas também que o caricaturista que desenha o protagonista no início do filme tem as feições de Hergé.

Talvez em seu segundo longa - sim, Peter Jackson e Steven Spielperg já anunciaram que será uma trilogia e que, inclusive, a segunda aventura do jovem repórter e seus companheiros será dirigida por Jackson - Tintim ganhe uma versão cinematográfica que não nos estupefaça apenas estetica e tecnicamente.

Enfim, trocando os traços simples de Hergé com as feições quase minimalistas de Tintim, pela tecnologia digital de ponta, esse "As Aventuras de Tintim" (e suas futuras sequências) tem tudo para conquistar uma nova (principalmente em idade) geração de fãs. E, quem sabe, maravilhados pelas aventuras mirabolantes comandadas por Spielberg, não busquem por sua origem e passem também a conhecer os quadrinhos sensacionais de Hergé. Certamente não irão se decepcionar!


por Melissa Lipinski


P.S: A dublagem brasileira é muito bem realizada.


 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Cavalo de Guerra

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Cavalo de Guerra (War Horse, 2011)

Estreia oficial: 25 de dezembro de 2011
Estreia no Brasil: 6 de janeiro de 2011
IMDb



E ainda não foi desta vez que Steven Spielberg voltou à sua velha e boa forma, já que seu último filme memorável data de 2005 ("Munique"). Neste "Cavalo de Guerra" o cineasta manipula todas as vertentes do longa num único propósito: fazer o espectador chorar.
O roteiro, escrito por Lee Hall e Richard Curtis, e baseado no romance homônimo de Michael Morpurgo, nos apresenta desde sua nascença, um belo cavalo que, desde seus primeiros instantes de vida, já é observado pelo jovem Albert (Jeremy Irvine). Quando seu pai, Ted Narracott (Peter Mullan), contrariando qualquer noção do bom senso, compra o animal - quando na realidade precisaria, desesperadamente, de outro tipo de cavalo - Albert passa a treiná-lo e o chamar de Joey. Porém, quando a Primeira Guerra Mundial chega, Ted se vê obrigado a vender o cavalo para o Capitão Nichols (Tom Hiddleston). A partir de então, Joey passará por vários donos e de um lado a outro do campo de batalha, enquanto Albert tenta manter viva sua promessa de reencontrar o seu tão amado animal.

Recorrendo a diálogos expositivos e que se encarregam de repetir o que estamos vendo com as imagens, o roteiro sempre gira em torno das ações de Joey (sim, o cavalo); e as pessoas vistas no longa parecem mesmo dispostas a parar suas vidas para observar os feitos deste, como diz o longa, 'miraculoso' animal, como uma vila inteira que para afim de ver se ele é capaz de arar um campo; ou, o que é pior, um hospital improvisado da guerra que, negligenciando todo e qualquer outro ferido (sim, humanos), dedica-se a tratar do cavalo machucado.

E, mesmo que o elenco conte com nomes de peso como Emily Watson, David Thewlis, Niels Arestrup e Eddie Marsan, seus personagens não conseguem ser mais do que estereótipos definíveis com uma ou, no máximo, duas características, e que agem de acordo com a conveniência do roteiro (ou alguém realmente acredita que um senhor viajaria dois dias apenas porque ouviu um boato de um tal 'cavalo miraculoso'?). Isso sem contar com o protagonista humano do filme, Jeremy Irvine, que carece de qualquer traço de carisma.

Há ainda a irritante trilha musical de John Williams, que martela em nossos ouvidos as óbvias mudanças de tom que o roteiro sofre. Em especial nos primeiros 30 minutos de filme, que não me recordo de uma cena em que não se ouça algum tipo de melodia.

Ainda preciso deixar registrada minha indignação por Spielberg tentar humanizar as reações dos animais. Ainda que possam ser engraçadas (esporadicamente) ou comoventes, os animais interagindo com humanos ou entre eles mesmos acaba tirando a credibilidade do roteiro. E a insistência do cineasta em colocar closes dos rostos dos cavalos como se estivessem transmitindo alguma emoção, é digno daqueles filmes de 'bichinhos falantes' da Sessão da Tarde. E o que dizer da amizade que se estabelece entre dois animais na guerra? Ou do arco dramático semelhante de Joey e Albert, que sofrem a perda de seus melhores amigos no mesmo instante? Forçar a barra? Não… Imagina!

Porém, se há méritos em "Cavalo de Guerra" é sua irrepreensível técnica. Desde a fotografia do habitual colaborador de Spielberg, o talentoso fotógrafo polonês Janusz Kaminski, que cria planos tão elegantes (um ato cruel visto através da rotação das pás de um moinho) quanto grandiosos e que evocam o tom épico da narrativa (a cavalaria que ruma à guerra num contra-luz belíssimo). Entretanto, por mais que mereça todos os créditos da bela fotografia, Kaminski ainda sucumbe ao propósito de Spielberg em levar o público às lágrimas forçadas, e cria uma cena final que, colocando seus personagens contra um céu cuidadosamente pintado, parece ter sido extraída diretamente de "… E o Vento Levou" (e não me surpreenderia se Emily Watson abaixasse-se, pegasse um punhado de terra e declamasse: "Jamais sentirei fome novamente").

Contando ainda com ótimas tomadas de batalha (sim, o cineasta é perito nisso), o longa impressiona pela cena-ápice, onde Joey corre por entre as trincheiras, fugindo de tiros e disparos de canhões (e, se a sequência foi feita toda digitalmente, impressiona ainda mais pela sua verossimilhança). E que desencadeia a melhor cena do longa, onde uma breve trégua é estipulada para ajudar um animal sofrido, num momento que mistura o horror e o tocante - mas mesmo assim Spielberg consegue forçar a mão, transformando uma cumplicidade silenciosa entre dois inimigos de guerra, e que tem nos gestos de seus compatriotas o tom mais leve para quebrar a tensão imposta, em um momento de piadinhas desnecessárias e que culmina na anunciação do nome de seu filme. Se o cineasta se limitasse ao momento por si só, e à emoção que este acarretaria, deixando o próprio público tirar suas conclusões, e não forçá-lo a tê-las (como o faz), certamente seria muito melhor sucedido em seu propósito.

Há também a belíssima montagem de Michael Kahn (outro antigo colaborador do cineasta), que cria passagens belíssimas, como a que sobrepõe um tricô a um campo de plantação, ou a sequência que mostra (na rima visual mais elegante e simbólica do longa, demonstrando que Spielberg ainda pode voltar a ser o grande cineasta que já se mostrou no passado) o embate suicida da cavalaria inglesa e alterna planos de seus oficiais montados com espadas em punho, e planos de seus cavalos passando sozinhos pela artilharia alemã. Porém, Kahn e Spielberg não conseguem fugir do tom episódico do longa, que mesmo se esforçando para tornar-se fluido (até trazendo, ao final, personagens que muito ficaram para trás), apenas consegue soar forçado demais (novamente).

Enfim, só me lembro de ter saído tão frustrada assim após um filme de Steven Spielberg ao assistir a "A.I. - Inteligência Artificial". Acho que já está na hora do cineasta reviver seus grandes momentos de outrora… Ou aposentar-se de vez.


por Melissa Lipinski


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008)

Estreia oficial: 21 de maio de 2008
Estreia no Brasil: 21 de maio de 2008
IMDb



O arqueólogo Henry Jones Junior (ou Indiana Jones como ele mesmo preferia ser chamado) marcou a década de 1980 com sua sede de aventura, buscando e preservando objetos históricos e míticos, com seu jeito cínico e divertido, mas acima de tudo, humano - e suas interações com seus companheiros em cada episódio da série serviram, entre outras coisas, para humanizar o protagonista, seja com sua ex-namorada Marion (Karen Allen), com seu pequeno ajudante Short Round (Jonathan Ke Quan) e, obviamente, com seu carismático pai (Sean Connery).

É um pena, portanto, que Steven Spielberg e George Lucas resolveram desenterrar o herói para mais uma aventura, 'maculando' a imagem que tínhamos dele, e fazendo com que a qualidade da série desabasse.

Tendo que preencher a falta de personagens importantes da série, como o professor Henry Jones (Connery, que não aceitou participar do projeto), o grande amigo e colega da Universidade, Marcus Brody (Denholm Elliot, falecido em 1992), e o amigo de aventuras Sallah (John Rhys-Davies, que pediu um cachê muito alto), o roteirista David Koepp (partindo de uma ideia de Lucas e Jeff Nathanson) foi obrigado a incluir novos personagens, que, nem de longe alcançam o carisma e a profundidade dos três citados; como o novo parceiro de Indiana, o extremamente mal desenvolvido Mac (Ray Winstone); ou o reitor da Universidade vivido por Jim Broadbent, que até mostra-se competente (com seu habitual talento), mas que aparece tão pouco que não dá tempo de evoluir; ou o pior de todos, o professor Oxley, vivido por John Hurt de maneira vazia já que seu personagem é deixado em transe (literalmente) durante a maior parte do filme.

A ideia de trazer um jovem entusiasmado, Mutt (Shia LaBeouf), fazendo o contraponto ao já envelhecido arqueológo foi, inegavelmente, uma boa ideia, já que poderia recriar a dinâmica entre Indy e seu pai vista em "A Última Cruzada", e há cenas em que os autores tentam voltar a isso. Porém não conseguem fazer com que a interação soe verdadeira e fluida como na do longa anterior, e acaba parecendo forçada (ainda que engraçada, principalmente para os fãs mais antigos do herói de chapéu de feltro e chicote). A volta de Marion à série também parece forçar a barra, assim como a tentaiva (fracassada) de retomar a antiga química entre ela e o herói: seus desentendimentos e entendimentos soam sempre falsos e pouco inspirados, movidos por motivos fracos.

Mas o grande erro de composição dos personagens reside mesmo em como retrataram o próprio Indiana Jones. Parecendo um infalível super-herói, Indy (apesar de ainda tomar decisões equivocadas) jamais aparenta estar realmente em perigo, jogando fora um dos pontos mais fortes da antiga trilogia - o fato dele ser um 'homem comum' que passa por situações extraordinárias. E, se antes o próprio herói espantavasse com a própria sorte, agora parece ciente de sua invulnerabilidade.

Entretanto Harrison Ford continua vivendo-o de forma impecável, com seu charme e carisma habituais. Como conter um sorriso ao ver o próprio Indiana sorrindo cinicamente quando a vilã Irina Spalko tenta ler sua mente? Ele sabe que ela jamais conseguirá, sua mente é confusa, intrincada demais. Nós também sabemos disso. E Irina descobre, constatando o óbvio.

O que me leva a falar exatamente dela, a vilã interpretada por Cate Banchett. Sem sombra de dúvidas é a pior antagonista de toda a saga (senão a pior) e uma das piores atuações da atriz, que deixa seu terrível sotaque ser a sua única composição.

Quanto ao roteiro propriamente dito, não sei dizer se Spielberg opinou na sua confecção, mas chega a ser engraçado (e mal desenvolvido, diga-se de passagem) que o seu tema preferido - alienígenas - esteja agora presente numa aventura de seu maior herói. Aliás, a história funciona até o momento em que a trupe liderada por Jones chega à selva Amazônica, a partir daí, passa a ser uma sequência de situações mal desenvolvidas que culmina num final igualmente patético.

Quanto às cenas de ação - tão bem dirigidas por Spielberg nos longas anteriores, como a perseguição dos caminhões nazistas em "Os Caçadores da Arca Perdida", ou a corrida de carrinhos de mina em "O Templo da Perdição", ou a briga sobre o tanque nazista em "A Última Cruzada" - são extremamente aborrecidas e sem criatividade, com exceção de uma perseguição de moto que acontece logo no início do filme, fazendo com que o espectador apenas fique na esperança de uma boa dose de adrenalina, que nunca se concretiza.

Mas nenhum desse equívocos seria incontornável se realmente acreditássemos na história que estamos vendo, o que não acontece em nenhum momento, em parte devido ao uso indiscriminado da computação gráfica, que desumaniza as cenas. Assim, quando vemos Mutt locomovendo-se por cipós acompanhado de macacos digitais, rimos de vergonha; ou quando vemos formigas gigantes que devoram tudo e todos que vêem pela frente, ficamos impassíveis, sem sentir ao menos um arrepio (eu particularmente senti raiva), diferentemente do que acontecia em "O Templo da Perdição", quando víamos gigantes e asquerosos insetos subindo pelo corpo de Willie (Kate Capshaw), e nos sentíamos tão angustiados quanto a personagem, justamente por acreditar no que estávamos vendo.

Porém, o longa tem seus bons momentos - e todos são 'resquícios' da trilogia inicial: como o logo da Paramount fundindo-se em uma imagem real (agora com um tom mais bem humorado), ou a linha vermelha que aparece sobre um mapa, mostrando o trajeto aéreo do personagem. Mas principalmente na fotografia de Janusz Kaminski (e que acompanha Spielberg em todos os seus longas desde "A Lista de Schindler", de 1993), e que mantém a estética criada por Douglas Slocombe, com suas silhuetas demarcadas em sombra (a primeira vez que o herói surge, aqui, é extremamente inspirada e saudosista), e com o tom sépia que domina a saga, dando-lhe um tom clássico e realmente elegante. Isso sem falar na trilha musical mais do que consagrada de John Williams.

Enfim, "O Reino da Caveira de Cristal" acaba deixando um tom amargo na boca dos fãs mais ardorosos desse herói que marcou a infância de muita gente (e aí me incluo). Seria melhor tê-lo conservado apenas como uma boa memória do que atualizá-lo de forma decepcionante.


por Melissa Lipinski
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Minha pontuação para este filme se deve ao fato do filme em si, porque se fosse pelo conjunto ele ia ser pior ainda por 'sujar' a saga "Indiana Jones". Na verdade ele não estraga pois considero Indiana Jones como uma trilogia. Sim, eu desprezo este episódio. Mas vamos lá.

Interessante o Indiana Jones ser apresentado por sua sombra. Legal ele ainda usar o chicote para se livrar dos soviéticos. Mas agora ele sobreviver a um teste nuclear por estar dentro de uma geladeira? Um pouco demais. Assim como aquele papo do Indiana Jones e o seu amigo George "Mac" McHale (Ray Winstone). Mac é um agente duplo, ou triplo, ou quádruplo... Um negócio confuso, só serve para tentar (eu disse, tentar) despistar um roteiro mal feito. Mas até aí vai.

O que não rola são as cenas de perseguição requentadas de outros filmes. Como assim? Praticamente refazem algumas sequências só que agora algumas são com Harrison Ford e outras com o Shia LaBeouf. E convenhamos, na primeira cena em que este aparece. já sabemos qual a relação dele com o Indiana.

Mas o que mais me estarreceu no filme é a relação com os extraterrestres. Puxa vida, depois de todo o trabalho com a tal caveira de cristal simplesmente os ETs ligarem as turbinas e irem embora? O que é isso? E quando você pensa que não podia terminar, o filme termina com um casamento! Que triste!

Decepcionante.


por Oscar R. Júnior


domingo, 25 de setembro de 2011

Indiana Jones e a Última Cruzada

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, 1989)

Estreia oficial: 24 de maio de 1989
IMDb



"A Última Cruzada" é o meu "Indiana Jones" favorito. Talvez porque Harrison Ford esteja mais à vontade do que nunca como o protagonista que imortalizou, talvez pela sua química perfeita com Sean Connery, talvez pelos diálogos espirituosos, talvez pelas sequências de ação eletrizantes… Talvez por tudo isso junto.

O início do longa já o diferencia dos anteriores. Sim, ele traz um prelúdio (como os demais), que conta uma mini-história já repleta de ação vivida por Indy. Sim, novamente traz o logo da Paramount (a montanha) fundindo-se com uma imagem real (agora uma pedra no mesmo formato). Porém, neste terceiro filme da saga, essa 'pré-história' é vivida por um Indiana Jones jovem (River Phoenix) e mostra o início da vida repleta de aventuras que o protagonista viria a ter, e também como o chapéu de feltro e o chicote (seus parceiros inseparáveis) surgiram em sua vida, assim como o seu medo por cobras.

Mas, para mim, o melhor do roteiro escrito por Jeffrey Boam é o desenvolvimento da relação entre o filho, Indiana Jones, e seu pai, Henry Jones (Sean Connery). Se no prólogo da história já nos é apresentada essa difícil relação, assim como o fato de o professor Henry Jones dar mais atenção às suas pesquisas do que ao filho, durante todo o restante do filme vemos como esses conflitos se colocam entre os dois e a maneira como isso os afeta, não escancaradamente, mas nos pequenos detalhes e olhares entre esses dois personagens.

Como o roteiro não precisa apresentar mais o personagem-título, parte direto para os fatos, o que faz com que este filme tenha bem mais ação do que seus anteriores. A recorrência em colocar os nazistas como vilões absolutos da trama também auxilia na identificação do público (já que eles são os 'vilões-mor' da história da humanidade), não precisando explicar muito a respeito, afinal ninguém gostaria de imaginar como seria se Hitler e companhia tivessem em suas mãos um poder que os tornassem imortais. É uma situação que todos temeriam (seja na realidade ou na ficção).

Mas não é somente aí que o roteiro acerta, mas também ao colocar mais humor e mais cinismo na história. O conflito entre pai e filho gera situações divertidas, assim como a maior participação de Marcos Brody (Denholm Elliott). Mas talvez o ponto máximo de humor esteja na cena onde os Jones vão parar no meio de uma manifestação nazista e dão de cara com ninguém menos que o próprio Adolf Hitler. As caras e bocas de Harrison Ford nesta sequência são impagáveis!

Ford, como disse no início, está bem à vontade com esse personagem que já conhecia tão bem, e pode desenvolver mais as suas nuances. Já Sean Connery (escolhido por Spielberg por ser "o" 007, já que o diretor anteriormente queria dirigir um filme do agente britânico) está melhor do que nunca e, embora apenas 12 anos mais velho que Harrison Ford, realmente aparenta ser seu pai e, deixa claro de onde Indiana puxou sua jovialidade e seu charme (principalmente com as mulheres).

A trilha musical deste terceiro "Indiana Jones" volta a ter a música-tema composta por John Williams como destaque absoluto, ainda que com arranjos mais sofisticados (e Williams recebeu sua terceira indicação ao Oscar pela série).

A fotografia, novamente feita por Douglas Slocombe, volta a ter as sombras demarcadas de semblantes como sua marca, ainda que em menor escalas do que nos dois filmes anteriores. Os efeitos visuais também são muito bem feitos (aliás, a única categoria do Oscar que foi premiada nos três filmes do herói), e não aparecem de forma gratuita, mas sim para auxiliar o desenvolvimento da história.

Mas é novamente Steven Spielberg quem sai soberano. Depois de um hiato de 5 anos e dois longas mais 'dramáticos' ("A Cor Púrpura" e "Império do Sol"), o diretor volta a dirigir as sequências de ação de forma magistral, construindo-as de maneira a deixar o espectador 'pregado' em sua cadeira, roendo as unhas ou arrancando cabelos. Brincadeirinhas à parte, Spielberg sagra-se definitivamente, com este filme, como um dos melhores diretores (senão o melhor) de filmes de ação e aventura. Ele sabe, como ninguém, manter a tensão de uma sequência, intercalando planos em montagem paralela, com duração cada vez menor, até atingir o ápice da ação, sua resolução, quando retoma o uso de planos mais longos para que o público possa voltar a respirar.

Enfim, "A Última Cruzada" é a consagração definitiva do melhor herói cinematográfico, com excelentes atores, um roteiro que equilibra humor, cinismo e aventura, e um diretor brilhante. Não é apenas a aventura máxima de Indy; é uma das melhores aventuras do Cinema.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski
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Este definitivamente é o melhor filme da saga. Drama, aventura, comédia, de época, tudo junto.

O roteiro. Começa nos mostrando um pouco da motivação e dos medos do jovem Indiana Jones. Nesta história é incrível que mesmo não conhecendo muito dos pormenores do Santo Graal, nós entendemos o que se passa no filme. Os diálogos são muito bem escritos e as situações são construídas formidavelmente.

Arte e Fotografia. A Direção de Arte sempre competente recriando os ambientes. Neste terceiro filme teve o apoio daquela locação que fica em Petra (Jordânia). Este cenário é incrível. Incrível mesmo. A Direção de Fotografia também está muito bem e, pessoalmente, adoro a ilusão de ótica de uma das provações para se chegar ao Santo Graal.

Quanto ao elenco e personagens. Aqui Indiana Jones finalmente tem um personagem para disputar a atenção. O personagem de seu pai, Henry Jones (Sean Connery), é muito bem construído e interpretado. Os momentos cômicos do filme vêm da interação entre pai e filho na trama.

Por fim, na minha opinião, o melhor dos "Indiana Jones". Feito para se ver e rever mais de uma vez, sem nunca se cansar.


por Oscar R. Júnior


sábado, 24 de setembro de 2011

Indiana Jones e o Templo da Perdição

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Indiana Jones e o Templo da Perdição (Indiana Jones and the Temple of Doom, 1984)

Estreia oficial: 23 de maio de 1984
IMDb



"O Templo da Perdição" foi a primeira sequência de Steven Spielberg. Produzido três anos depois do primeiro longa do herói de chapéu de feltro e chicote, "Indiana Jones e o Templo da Perdição" tem sua história ambientada cronologicamente antes dos episódios do primeiro longa.

Adotando um tom mais 'dark', esse segundo longa não apresenta o mesmo charme do primeiro, mas ainda assim é um bom exemplar de filme de aventura. Roteirizado por Wilard Huyck e Gloria Katz, a narrativa não é tão envolvente e ainda insere temas um tanto quanto polêmicos, como rituais satânicos, trabalho escravo infantil e violência contra crianças, o que certamente desagrada muita gente. A mim, particularmente, não incomoda. Politicamente incorreta assumida como sou, não me choco com isso. Bons tempos eram aqueles em que Steven Spielberg, o diretor mais 'bom moço' de Hollywood, ainda tinha a coragem (e a liberdade) de colocar temas tão polêmicos e contraditórios em suas produções. Hoje não se vê mais isso no cinema mainstream, ou pior, vemos até grandes nomes mudando seus projetos anteriores, como fazendo certos heróis atirarem depois (para ser considerado auto defesa), ou substituindo digitalmente espingardas das mãos de policias por walk talkies, já que estes estão enfrentando crianças em bicicletas… Enfim, os tempos eram outros, a mentalidade era outra, o mundo era outro… Mas essas são apenas minhas divagações. Vamos voltar ao filme.

O que importa mesmo é o carisma de Harrison Ford, que consegue transformar o longa em mais uma excepcional aventura do maior herói do cinema. Com seu jeito cínico, seu sorriso de lado e seu charme incontestável, Indiana Jones continua sendo o herói que qualquer indivíduo 'comum' poderia ser, afinal é um personagem tridimensional, com qualidades e defeitos (em grande número diga-se de passagem), como qualquer pessoa.

Além dele, ainda há o pequeno Jonathan Ke Quan (que interpreta o ajudante de Indy, 'Short' Round), o menino é carismático, inteligente e encantador. Além de ter um ótimo timing para a comédia. É impossível não se encantar com ele. Por outro lado, há a péssima escolha do par romântico do herói, Kate Capshaw, que faz Willie, uma das mociinhas mais irritantes de todos os tempos. O grande problema não é a personagem ser isuportável (afinal essa era a intenção do roteiro), com seus gritos ensurdecedores e sua atitude aborrecida e interesseira; mas sim a atriz não conseguir ir além disso. Capshaw não consegue fazer com que vislumbremos algo de bom em sua personagem, apesar de sua histeria e frescuras gerarem algumas boas cenas engraçadas, como a sequência em que, no meio da selva, interage com diversos bichos sem notar; ou aquela em que se vê coberta de insetos para salvar seus companheiros; ou ainda a famosa cena do banquete no palácio, onde são servidas iguarias que, literalmente, levam-na ao chão. (Para quem gosta de curiosidades, Cate Capshaw conheceu Spielberg neste filme, quando começaram um relacionamento que dura até hoje).

Foi com este filme que Spielberg sagrou-se, definitivamente, como o grande diretor de cenas de ação, fato que a história viria a confirmar, criando sequências de tirar o fôlego dos espectadores, como a 'corrida' de carrinhos na mina e que mais parece uma montanha-russa.

Claro que muitas gags do filme anterior estão de volta, potencializando o seu humor. Como uma porta de pedra que abaixa e por onde Indiana Jones puxa seu chapéu no derradeiro momento, ou quando Indy se vê frente a frente com dois habilidosos espadachins e apenas sorri cinicamente levando à mão ao coldre, porém aqui, diferentemente do longa anterior, ele está sem sua arma, tornando a cena, além de uma referência, uma paródia ao anterior.

Outras 'marcas' da série que não poderiam deixar de estar presentes são as sombras demarcadas de semblantes dos personagens, as linhas vermelhas sobre os mapas demarcando a trajetória dos vôos do herói, e no início, o logo da Paramount - uma montanha - fundindo-se com a imagem real do filme: se no primeiro ele fundia-se com uma montanha mesmo, aqui funde-se com uma montanha em alto-relevo de um gongo.

Finalmente, termino falando da maravilhosa trilha musical de John Williams, que reutiliza a música-tema do herói dando-lhe, em alguns momentos, uma nova 'roupagem'.

Enfim, "O Templo da Perdição" pode até não ter o mesmo charme, nem personagens tão bons quanto "Os Caçadores da Arca Perdida", mas ainda assim é um Indiana Jones, for God sake! Com todo carisma, cinismo, emoção e adrenalina que essas duas palavras evocam.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski
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O Indiana Jones continua muito bom neste segundo filme. Mesmo que ele tenha um roteiro com alguns pontos mais fracos. Vamos lá:

A Direção de Arte e a de Fotografia continuam estupendas. Todas as recriações são muito legais.

A história dá umas derrapadas com algumas situações muito forçadas. Fugindo de Xangai eles caem no Himalaia próximo a uma vila. Exatamente essa vila era a que possuía uma das pedras de Sankara e ele vai atrás. Não achei forte esse motivo, mas vamos lá.

No elenco há algumas disparidades. Harrison Ford continua soberano como o melhor em cena. O garoto Jonathan Ke Quan, que interpreta o Short Round, está muito bem. E destaque também para o indiano Amrish Puri, que interpreta o vilão Mola Ram. Já a Kate Capshaw não está bem no filme.

O filme tem cenas históricas como a do banquete no palácio Pankot, onde são servidos algumas iguarias intragáveis como cobra-surpresa, escaravelhos, sopa de olhos e a "deliciosa" sobremesa cérebro de macaco gelado.

Preciso fazer uma ressalva. Há uma cena que me recordo desde criança. Indiana Jones depois de cortar a ponte ao meio, quase morrer, lutar com o Mola Ram, salvar uma das pedras para devolver para a vila, depois disso tudo ficam olhando para a ponte caída achando que ele não se salvou. Eis que ele aparece, juntando as últimas forças e coloca a pedra mais a frente e pára para respirar. TODOS riem, acham graça mas ninguém vai lá ajudar o moribundo. Como assim? E se ele perde as forças e cai nesse momento? Desde que me recordo de ter assistido a esse filme pela primeira vez me lembro do absurdo dessa cena.

Por fim, recomendo o filme por causa do todo.


por Oscar R. Júnior


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Os Caçadores da Arca Perdida

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Caçadores da Arca Perdida, Os (Raiders of the Lost Ark, 1981)

Estreia oficial: 12 de junho de 1981
Estreia no Brasil: 21 de agosto de 1981
IMDb



O ano era 1980. George Lucas estava em meio à trilogia que o tornou famoso, "Guerra nas Estrelas" (ou "Star Wars", como queiram), com dois filmes já lançados e o terceiro em pré-produção; Steven Spielberg era um dos diretores mais promissores da época, já havia feito alguns filmes e séries para a TV e dirigido cinco longas-metragem, dentre os quais dois sucessos estrondosos de bilheterias: o thriller "Tubarão" (1975) e o drama de ficção científica "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977), e sonhava em dirigir um filme da série James Bond; Philip Kaufman havia dirigido um dos filmes mais tensos e assustadores de todos os tempos, "Os Invasores de Corpos" (1978). Foi da junção desses três nomes que nasceu uma das maiores aventuras cinematográficas de todos os tempos.

Lucas tinha a ideia e, junto com Kaufman, escreveu a história, que virou roteiro nas mãos de Lawrence Kasdan (que já havia transformado em roteiro a segunda parte da trilogia de Lucas, "Star Wars: Episódio V - O Império Contra-Ataca", de 1980). E assim, ganhava forma as aventuras de um tal Indiana Jones, que ganhou vida sob a direção de Spielberg (que nunca deve ter se arrependido em não ter dirigido um "007").

Em princípio, o longa nasceu como uma grande homenagem aos filmes de aventura da década de 1930 e 1940, mas ao longo dos tempos, sagrou-se como "a" grande aventura do Cinema, "o" grande herói das telonas, um dos maiores ícones da Sétima Arte.

Indiana Jones é um professor e pesquisador arqueológico que divide seu tempo entre a sala de aula e sua busca 'in loco' por objetos históricos. "Os Caçadores da Arca Perdida" já, de cara, apresenta-nos o personagem mostrando sua faceta aventureira, em uma sequência que possui uma das imagens mais emblemáticas do Cinema: Indy correndo de uma bola de pedra gigantesca.

Logo em seguida, descobrimos o dia-a-dia de Jones como professor, apenas para ele ser recrutado para mais uma aventura: encontrar a Arca Perdida da Aliança (aquela da Bíblia, e que supostamente teria as tábuas de Moisés contendo os Dez Mandamentos de Deus). Porém, Indiana não é o único atrás dessa preciosidade, e terá que encarar nada menos do que nazistas para conseguir o que quer.

Mas a aventura de Indy é apenas o pano de fundo para esse roteiro inteligente, que vai desenvolvendo seu (anti)herói de maneira gradativa e eficiente. Mas Indiana Jones não é um 'herói' no perfeito entendimento da palavra, não tem 'super poderes' e possui (vários) defeitos. E talvez isso é que o tenha tornado tão popular. Indiana Jones é um homem comum, que se dá mal, apanha, faz escolhas erradas… Claro que como herói, no final acaba se dando bem, pois é inteligente e conta com um bocado de sorte também, mas é essa vulnerabilidade que acaba tornando-o 'humano' e tão identificável aos olhos do espectador. Um herói que qualquer 'homem comum' poderia ser, com seu chapéu de feltro e chicote a tiracolo.

Claro que sem o estilo e carisma de Harrison Ford, a história talvez fosse diferente. Recém saído da trilogia de Lucas, como (o também anti-herói) Han Solo, Ford era um galã em ascensão, e foi a escolha perfeita para o personagem de Indiana Jones. Irreverente, cínico e com um sorriso encantador, Ford encarna o protagonista de forma magistral. Indy é um personagem complicado que transita entre a tênue linha entre proteger objetos históricos valiosos ou roubá-los. Seus inimigos, principalmente o francês Belloq (Paul Freeman), não são muito diferentes dele, e um pouco de ganância a mais poderia levar Indiana para o 'lado dos bandidos'. São essas sutilezas que fazem a diferença.

Fechando o elenco, Karen Allen, como Marion Ravenwood, encarna uma mocinha que também foge aos padrões, e não é nem um pouco indefesa, sabe se virar sozinha, além de gostar de uma bebida. John Rhys-Davies é Sallah, amigo de Jones, que o ajuda na sua busca pela Arca e é responsável por um tom mais cômico da história. E Denholm Elliott, o Dr. Marcus Brody, chefe e amigo de Indy na Faculdade de Arqueologia.

Mas não é apenas em seu conteúdo que "Os Caçadores da Arca Perdida" tem qualidades (o que já seria um feito e tanto), tecnicamente o filme é irrepreensível (e não é à toa que ganhou 5 Oscars: direção de arte, efeitos visuais, edição, som e efeitos sonoros; além de concorrer em mais quatro categorias: filme, direção, fotografia e música). Spielberg, junto com o diretor de fotografia Douglas Slocombe, abusam das sombras demarcadas que, geralmente, mostram o semblante de alguém, anunciando sua chegada (e que tornaria-se uma das marcas da saga).

A direção segura de Spielberg sobressai-se principalmente nas cens de ação, criando sequências memoráveis, como a da bola de pedra supra-citada; ou quando Indiana Jones despista bandidos em um mercado árabe; ou quando ele e Marion fogem de um verdadeiro ninho de cobras; ou ainda uma perseguição emocionante no deserto, onde Jones dependura-se sob um caminhão em movimento. São sequências audazes e emocionantes.

E não poderia terminar sem falar da excelente trilha sonora de John Williams, a lenda viva das músicas cinematográficas (e que em 2012 completará 80 anos), que criou aqui, um dos temas mais conhecidos da história do cinema. Além, é claro, de ser o responsável por outras tantas trilhas memoráveis. Quem não conhece as músicas de "Tubarão", "Star Wars", "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", "Superman", "E.T. - O Extraterrestre", "Império do Sol", "Esqueceram de Mim", "Parque dos Dinossauros", e "Harry Potter"? Todas obras de Williams.

Enfim, "Os Caçadores da Arca Perdida" é uma aventura que não envelhece, para espectadores de todas as idades. Uma junção perfeita de emoção, humor, cinismo e efeitos especiais. Eu não canso de assisitir.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski
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Fabuloso esse filme. Não há como descrever uma empatia tão grande com um arqueólogo em suas buscas. A história é muito interessante: a busca pela Arca da Aliança. A história é do George Lucas, que também meteu o bedelho em um monte de coisas no filme. Nos extras do DVD ele conta que Spielberg queria partir para um projeto tipo James Bond, e Lucas apresentou-lhe o arqueólogo desbravador. Pensando depois percebo que em cada um dos filmes Indiana Jones se envolve com uma mulher (assim como o 007).

A Direção de Arte do filme é maravilhosa. Recriando templos antigos, fazendo a caracterização da década de 1940. Aliado a isso, a fabulosa Direção de Fotografia que atuou de forma a deixar bem místico os ambientes. O uso frequente de sombras é genial. Algumas tensões foram construídas somente pelas sombras. Muito bom.

O elenco está muito bem no filme e, obviamente, Harrison Ford é o melhor de todos. Não tem cena em que ele não se destaque. A construção do Indiana é muito bem escrita e muito bem interpretada.

Algumas cenas ficaram muito marcadas como a que um cara de turbante o desafia com uma grande espada, e fica fazendo firulas. Indiana simplesmente saca a arma e atira nele. Dá um sorisso e segue em frente. Ou a cena em que ele troca uma imagem por um saco com areia. Ou a mais eternizada do filme que é a dele fugindo da bola de pedra que o persegue.

É um filme que não canso de rever, e rever, e rever...


por Oscar R. Júnior