segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Toda Forma de Amor

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Toda Forma de Amor (Beginners, 2010)

Estreia oficial: 3 de junho de 2011
Estreia no Brasil: lançado diretamente em DVD
IMDb



"Toda Forma de Amor" (péssima tradução do título nacional) é um filme de Mike Mills, que parece ter se baseado em suas experiências pessoais para escrevê-lo. Tal proximidade e cumplicidade com os dramas vistos aqui, fazem com que o longa seja comovente, e intercale de maneira hábil e delicada momentos depressivos com outros mais alegres.

O roteiro de Mills mostra como Oliver (Ewan McGregor) está passando por uma difícil fase de sua vida. Criado praticamente só pela mãe (Mary Page Keller), o maior contato com o pai só começa depois da morte dela, quando ele - o pai, Hal (Christopher Plummer), assume-se gay e recomeça sua vida. E a descoberta de um câncer fará com que pai e filho unam-se ainda mais. Tendo crescido em um casamento sem amor, Oliver tem grande dificuldade em demonstrar seus sentimentos e manter um relacionamento; o que pode mudar depois que ele conhece Anna (Mélanie Laurent).

O filme de Mills privilegia seus atores, dando tempo para que eles possam desenvolver seus personagens e que, com isso, possamos nos identificar com eles. Não deixa de ser, basicamente, um maravilhoso estudo de personagens. Ewan McGregor empresta ternura e fragilidade a Oliver, transformando-o em um sujeito calado, depressivo, mas nunca num chato; e compreendemos e compartilhamos com ele suas tristezas e indagações sobre o amor e sobre a vida. Já Mélanie Laurent dá vivacidade à sua Anna, ao mesmo tempo em que torna-a complexa e 'real' pelas sutis mudanças de humor da personagem (que nunca são intempestivas ou inexplicadas). Mas o grande destaque fica por conta de Christopher Plummer, que consegue criar um personagem encantador. Assumindo sua homossexualidade aos 75 anos e redescobrindo sua vida, Hal esbanja vitalidade e emoções. E, mesmo abatido fisicamente pelo câncer, demonstra um grande amor pelas pessoas e pela vida, fazendo um belo contrapondo com a soturnidade de Oliver.

Para completar, há a interação de Oliver com o cachorrinho Arthur, e que interage com seu dono - e a opção de Mills em colocar pensamentos (em forma de legendas) para Arthur mostra-se inteligente e divertida, já que funciona como se fosse o inconsciente de Oliver, ao mesmo tempo em que revela o que o protagonista está pensando, sem ter que recorrer a narrações em off ou monólogos auto-explicativos. Além, é claro, de remeter àquelas pessoas que conversam com seus animais de estimação como se esses pensassem, refletissem e emitissem opiniões como se fossem seres humanos.

Como diretor, Mills também acerta, juntamente com o seu diretor de fotografia, Kasper Tuxen, em optar pela câmera 'solta', 'na mão', assim como na utilização de uma iluminação bem naturalista, dando uma estética mais realista à narrativa, o que também colabora para a identificação do espectador com aqueles personagens. Acerta também, na opção por uma montagem não-linear, fragmentada, que vai e volta no tempo para mostrar os relacionamentos de Oliver com sua mãe, seu pai e com Anna, o que confere ritmo à uma narrativa que já é mais lenta pela natureza de seus personagens e pela estética contemplativa adotada por Mills.

Mas o grande mérito do cineasta é utilizar-se de elegantes rimas narrativas, fazendo com que seu filme torne-se orgânico e 'real'. Assim, vemos Oliver repetir frases ou gestos que sua mãe ou seu pai faziam. Ou então, as rimas visuais, como o vaso da janela da casa de Oliver, que aparece logo no primeiro plano do filme com flores, e em outro momento, durante uma discussão com seu pai, com flores mortas. E esse é apenas um exemplo, o longa traz diversas dessas ligações ou rimas. O que, na minha opinião, sempre deixa uma produção mais elegante e inteligente.

Enfim, "Toda Forma de Amor" é um filme tocante, que mostra, como diz seu título original, "Beginners", como Hal ou Oliver foram 'iniciantes' em seus relacionamentos, seja porque assumiram sua opcão sexual, ou porque amadureceram diante da vida… Mas afinal, não somos todos iniciantes de uma forma ou de outra em algum (ou alguns) momento da nossas vidas?

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


Um comentário:

disse...

Olá! Adorei seu blog, muito criativo! Também tenho um blog sobre cinema e gostaria que vc desse uma olhada. O endereço é: http://www.criticaretro.blogspot.com/ Passe por lá! Lê ^_^