terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Drive

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Drive (2011)

Estreia oficial: 15 de setembro de 2011
Estreia no Brasil: 2 de março de 2012

IMDb



Com um visual que remete aos anos 80, "Drive" é um filme que possui uma violência plástica à la Tarantino, e um protagonista, o Motorista, cuja ausência de nome já denota todo o mistério que ronda o seu passado - e que já entra para a galeria dos anti-heróis solitários e calados do Cinema.

Numa introdução que já mostra o trabalho, digamos, 'noturno', do protagonista, o roteiro de Hossein Amini (baseado no livro homônimo de James Sallis) acompanha o Motorista (Ryan Gosling) naquilo que faz melhor: dirigir. Ele se dispõe a auxliar as fugas de qualquer criminoso, desde que esses ajam em um tempo pré-determinado de cinco minutos. Já seu trabalho regular envolve ser dublê em filmes, como motorista é claro; e mecânico na oficina de Shannon (Bryan Cranston). Logo, o Motorista interessa-se por sua vizinha, Irene (Carey Mulligan), uma solitária mãe cujo marido, Standard (Oscar Isaac), encontra-se na prisão. E é justamente quando ele sai, e tem que pagar uma dívida cometendo um assalto, com a ajuda do Motorista, que as coisas começam a se complicar, e o protagonista envolve-se com os gângsteres e sócios, Nino (Ron Perlman) e Bernie (Albert Brooks).

O longa dirigido pelo cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn tem seus personagens (e suas interações) como o cerne de seu desenvolvimento. Nesse sentido, a escolha do ótimo elenco foi fundamental para que todos se tornassem não só complexos, mas críveis dentro da mise-en-scène do filme. Ryan Gosling (que já é um ator excepcional e vem crescendo a cada novo trabalho), cria um sujeito calado, impassível, que não demonstra seus sentimentos. Assim, quando Irene provoca nele um sorriso (por mais tímido e discreto que este possa ser), já sabemos que ele realmente gosta e se importa com aquela mulher (e seu filho). Sua aparente calma e passividade também servem para tornar a sua capacidade para a violência como algo assustador, já que o transforma em um sujeito realmente perigoso e instável. Sem falar uma palavra além do realmente necessário, o Mortorista jamais revela nada sobre seu passado, e assim, nem Irene, nem nós, espectadores, ficamos sabendo quem realmente é aquele homem misterioso, e apenas podemos supor que ele foge de algo, ou dele mesmo, já que parece sentir-se deprimido por ter consciência da sua natureza.

Mas não é apenas Gosling que merece destaque, todo o elenco é louvável. Carey Mulligan empresta doçura e fragilidade a uma mulher que, em seu olhar, já demonstra a tristeza e decepção da sua vida, ainda que, quando está com seu filho, mostre todo o carinho e amor que sente. E fica extremamente fácil entender o porquê do Motorista baixar sua guarda e interessar-se por ela. Já Oscar Isaac consegue fugir do clichê em criar um simples antagonista, e dá ao seu Standard um peso de homem sofrido e amargurado, que até tenta se livrar da vida que levava antes de ser preso, mas se vê arrastado para ela. E, se Ron Perlman sempre é uma figura marcante (não só pelo seu tamanho gigantesco, mas também por seu rosto forte); é Bryan Cranston quem tem um maior destaque. Seu personagem, Shannon, é um mecânico frustrado, que não nega estar tirando vantagem dos conhecimentos e aptidões de seu pupilo, o Motorista; mas, ao mesmo tempo, funciona como uma espécie de mentor, ou uma figura paterna para ele; e há um momento de cumplicidade (e confrontamento) entre eles que chega a ser tocante. Mas o grande destaque é mesmo Albert Brooks, que cria um mafioso que aparenta ser bondoso e complacente, apenas para, no momento certo, mostrar sua verdadeira personalidade. Brooks, inclusive, nem ao longe, demonstra qualquer traço do comediante que é, e cria um personagem realmente violento e perigoso.

O diretor Nicolas Winding Refn merece créditos não apenas pela escalação do ótimo time de atores, mas também pela condução de sua narrativa. Alternando momentos mais intimistas, com outros extremamente violentos, e ainda outros de ação pura, Refn é tão econômico quanto seu protagonista: nada parece fora do lugar, todas as cenas parecem ter a duração e o seu tempo interno precisamente calculados. As câmeras lentas que utiliza servem tanto para suavizar um determinado evento (até torná-lo divertido), como para salientar uma emoção. Basta dizer que um dos planos mais significativos do longa traz o Motorista e Irene se olhando, sem dizer uma palavra por minutos - e nem precisa, pois apenas com a troca de olhares e sorrisos dos dois, sabemos exatamente o que está se passando na cabeça de cada um deles. Aliás, a construção do relacionamento dos dois é uma aula de Cinema: uma sequência rápida de cenas que, sem excessos sentimentais, ilustra com perfeição e agilidade o amadurecimento de um sentimento.

Contando ainda com uma estética tirada diretamente dos anos 80, assim como a excepcional trilha musical de Cliff Martinez, o longa ainda conta com uma belíssima fotografia de Newton Thomas Sigel, que trabalha com o contraste de luzes e sombras, apostando mais nessa última (num visual claramente inspirado nos antigos filmes noir), sobre o colorido intenso das cores 'oitentistas'.

Enfim, "Drive" tem a capacidade de instigar no espectador diversos sentimentos, desde afeição (e não à toa há uma criança na história) à repulsa (há cenas extremamente violentas que, por mais plásticas que possam ser, sempre impressionam). É um daqueles filmes que ou se detesta ou se venera. Mas uma coisa é certa: não há como ficar impassível a ele.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski



segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Homem que Mudou o Jogo

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Homem Que Mudou o Jogo, O (Moneyball, 2011)

Estreia oficial: 23 de setembro de 2011
Estreia no Brasil: 3 de fevereiro de 2012
IMDb



"Moneyball" pode muito bem afugentar os espectadores brasileiros por se tratar de um filme sobre baseball, um esporte nada popular por aqui. Mas aí vai um aviso: não se enganem pela premissa, pois o longa vai além. Não é um desse filmes 'padrão' de esportes (claro que há cenas de jogos, e referências às suas regras); mas é, sobretudo, um drama de personagem.

Basado em uma história real, o roteiro escrito por Steven Zaillian e Aaron Sorkin a partir do livro escrito por Michael Lewis, "Moneyball: The Art of Winning an Unfair Game", conta como o Oakland A's passou de 11 derrotas seguidas ao recorde de 20 vitórias consecutivas dentro da Liga Profissional de Baseball, em 2002. E, mais precisamente, como o diretor do time, Billy Beane (Brad Pitt), auxiliado por seu braço direito, Peter Brand (Jonah Hill), desafiou a política dominante de escalação de jogadores, e apostou em estatísticas para montar um time de então desconhecidos ou renegados, contando com escassos recursos, e, como diz o título nacional, mudou a forma com que se encarava o esporte até então. Basta dizer que o famoso Boston Red Sox (principal rival do igualmente famoso New York Yankees) foi campeão em 2004 (depois de um jejum de impressionantes 86 anos) após adotar o revolucionário pensamento instaurado por Beane.

Repleto de diálogos inteligentes e, muitas vezes, divertidos (basta dizer que Sorkin é o roteirista de "A Rede Social", e Zaillian tem "A Lista de Schindler", "O Gângster", além da versão estadunidense de "Millennium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres" em seu currículo), e personagens tridimensionais, "Moneyball" tem sua força motriz em suas atuações. Brad Pitt é, obviamente, o cerne do longa. Extremamente versátil, sempre considerei-o um ótimo ator, então não posso dizer que seu excelente desempenho nos últimos anos me surpreende. Ancorado em sua muleta de atuação preferida: a comida, Pitt cria um personagem complexo e que ganha a empatia do público, e que consegue equilibrar com maestria os momentos mais tensos dramaticamente com aqueles mais bem humorados (afinal não é de hoje que o ator têm demonstrado seu ótimo timing para o humor). E a inclusão no roteiro do núcleo familiar do seu personagem, principalmente de sua filha Casey (Kerris Dorsey), é eficaz no sentido de tornar o personagem mais real e 'humano'; além de criar os momentos mais tocantes do filme, quando Beane e Casey passam alguns momentos juntos.

Mas não é só Pitt quem se sobressai. Mesmo aparecendo pouco, Philip Seymour Hoffman, como o técnico do Oakland's A, Art Howe, cria uma espécie de antagonista à Beane, mostrando-se um personagem a quem o espectador vai antipatizar não por ele próprio (até porque não há tempo para o conhecermos o suficiente), mas pelo simples fato de não concordar (e teimar em não cooperar) com as ideias de Beane. Em contrapartida, o Peter Brand de Jonah Hill é simpático ao público por si só. Com um jeito contido, Hill cria um tipo diferente do que está acostumado a interpretar. E, se sua química com Pitt gera os melhores momentos (e diálogos) do filme, o ator continua demostrando seu grande talento para a comédia (mesmo num papel como esse, que nada tem de engraçado).

Dirigindo seu segundo longa de ficção (o primeiro foi o excelente "Capote", de 2005), o diretor Bennett Miller conduz com segurança não só os seus atores, mas consegue criar um filme coeso e com um ótimo ritmo, alternando de forma eficiente a narrativa principal, os flashbacks do protagonista e as cenas de jogos de baseball - e a opção em utilizar cenas reais dos jogos em alguns momentos, não só reafirma a origem 'verídica' da história, mas torna o longa mais orgânico. Além do mais, como toda a estratégia de Beane e Brand baseia-se em estatísticas, o diretor acerta em colocar, constantemente, os números na tela, pois, embora possamos não entender o que estamos vendo, torna suas ideias mais palpáveis e concretas, já que vemos de onde se originam.

Enfim, correto do início ao fim, "Moneyball" diverte e prende a atenção do espectador, mesmo daqueles alheios ao esporte em foco. Pode até não ser uma obra-prima, mas traz um roteiro coeso, diálogos inteligentes e espirituosos, e ótimas atuações. E não é isso que sempre queremos ver em um filme?

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


domingo, 1 de janeiro de 2012

Kung Fu Panda 2

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Kung Fu Panda 2 (Kung Fu Panda 2, 2011)

Estreia oficial: 26 de maio de 2011
Estreia no Brasil: 10 de junho de 2011
 
IMDb



Nesta segunda aventura de Po, o panda que virou o Dragão Guerreiro, ele terá que enfrentar um adversário ainda mais poderoso do que o leopardo Tai Lung do filme original. Agora, o vilão é o pavão Lorde Shen (Gary Oldman), um príncipe que foi banido de seu reino devido a seus atos de crueldade e que, anos mais tarde, volta para vingar-se, munido de uma arma de fogo recém inventada (um enorme canhão) que colocará toda a China em risco. Assim, Po (Jack Black), agora muito mais ciente de seu poder, mas ainda realizando seus golpes desajeitados de kung fu, juntamente com os Cinco Furiosos - Tigresa (Angelina Jolie), Louva-a-Deus (Seth Rogen), Macaco (Jackie Chan), Víbora (Lucy Liu) e Garça (David Cross), partem para derrotar o perigoso adversário. Eles ainda contarão com a ajuda do Mestre Shifu (Dustin Hoffman), além de dois outros mestres em kung fu, Touro (Dennis Haysbert) e Crocodilo (Jean-Claude Van Damme). Porém, a missão mostrar-se-á mais difícil do que todos imaginavam, já que Lorde Shen tem uma estranha ligação com o passado de Po. Assim, o herói barrigudo e desengonçado terá que, não apenas reencontrar seu passado, mas aceitar quem ele realmente é, achando sua própria paz interior afim de conseguir derrotar o temível pavão.

Apostando na ação incessante, a diretora Jennifer Yuh (em seu primeiro longa na função; e que havia trabalhado como artista de animação do primeiro filme) consegue imprimir um ritmo ágil à trama e, de certa forma, mascarar algumas falhas do roteiro, intercalando de forma hábil as diferentes linhas narrativas da história.

Claro que o roteiro não é de todo original, e aposta em tiradas que já haviam dado certo no longa anterior, mas o carisma de Po é tamanho que sua graça consegue renovar-se com bastante frescor, mantendo o mesmo nível de humor do filme original.

Há também maior espaço para o desenvolvimento dos Cinco Furiosos, principalmente Tigresa. E os momentos de interação entre ela e Po, juntamente com as aparições do pai adotivo do panda, o ganso Sr. Ping (James Hong), garantem vários dos melhores momentos do filme.

Contando ainda com uma técnica impressionante, principalmente na confecção dos cenários pelos quais os heróis passam, "Kung Fu Panda 2" tem como mérito trazer uma mescla de técnicas de animação que enriquecem ainda mais a sua história. Já em seu início, vemos, numa técnica que lembra muito o teatro de sombras oriental, a história de Lorde Shen; e, sempre que Po tem
flashbacks de sua infância, a técnica utilizada é a animacão 2D tradicional, e que lembra muito os traços do anime. E digo que até os mais durões irão se sensibilizar ao ver Po quando filhote, uma bola de pelos fofinha que não tem como não querer apertar.

Mas é novamente o protagonista extremamente carismático que é a 'alma' do filme. Com sua capacidade de fazer humor mesmo sem falar nada, Po continua engraçado e mestre em confusões, seja nas
gags físicas ou nas piadas escrachadas.

Enfim, o panda que luta kung fu pode não ter conseguido um longa do mesmo nível de "Shrek" (apenas comparando animações da mesma produtora, a
Dreamworks), mas certamente essa continuação não deve em nada para seu antecessor. E, ao que tudo indica, outras aventuras ainda estão por vir…

Fica a dica!


por Melissa Lipinski



 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Encantada

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Encantada (Enchanted, 2007)

Estreia oficial: 21 de novembro de 2007
Estreia no Brasil: 14 de dezembro de 2007
IMDb



Revendo este "Encantada", da Disney, que tem uma parte em animação e outra em live action, me diverti tanto quanto da primeira vez que o assisti. É verdade que a trama acaba recaindo nos próprios clichês que satiriza, mas no processo, garante boas risadas e uma diversão garantida.

Começando com uma clássica animação 2D, lembrando os antigos desenhos do estúdio do Mickey, principalmente os de princesas, o roteiro de Bill Kelly apresenta-nos Giselle (Amy Adams), uma mistura de Branca de Neve, Cinderela e Bela Adormecida, que é resgatada pelo príncipe Edward (James Marsden). Assim como acontece em todo e qualquer conto de fadas, o amor dá-se à primeira vista, e os pombinhos marcam seu casamento para o dia seguinte. Porém, a madrasta de Edward, a Rainha Narissa (Susan Sarandon), intimidada pela possibilidade de perder o trono, joga Giselle em um poço mágico.

E é a partir daí que "Encantada" mostra originalidade, pois Giselle vai cair em plena Manhattan. Ali, depois de presenciar individualismos, egoísmos, insensibilidades e indiferenças com os quais não estava habituada em seu mundo, acaba conhecendo Robert (Patrick Dempsey) e sua filha Morgan (Rachel Covey). Juntos, pai e filha ajudam a sonhadora e ingênua Giselle a sobreviver no mundo real. Mas logo, Edward e o esquilo Pip também aparecem em Nova York para resgatá-la; assim como o assecla de Narissa, o desajeitado Nathaniel (Timothy Spall), que vem garantir que os planos da rainha concretizem-se.

Acertando na escalação de sua protagonista, muito do encanto (não resisti!) do filme está na figura da sempre ótima Amy Adams. Ela é a personificação das famosas princesas, imortalizadas pelos Estúdios Disney. Ela parece flutuar, canta a todo momento, fala com animais… E faz tudo isso com a simpatia, carisma e delicadeza que Adams consegue emprestar a seus personagens; além da inocência à flor da pele - e suas caras e bocas, sustos e gritinhos a cada acontecimento são a prova disso - características essas que, de forma sutil, a atriz vai deixando de lado à medida em que Giselle começa a se tornar 'mais humana'.

Com um bom ritmo da narrativa, as divertidas cenas musicais dão o toque de contos de fada ao mundo real. Em especial a cena em que Giselle convoca bichinhos nada fofinhos para ajudá-la na limpeza da casa, à la Branca de Neve; porém em vez de esquilos, coelhos, passarinhos e outros animais bonitinhos, surgem ratos, baratas e pombas. Há também a sequência em que ela sai cantando pelo Central Park, levando uma legião de seguidores a entrar em seu mesmo ritmo - a coreografia e os planos gerais garantem a beleza da cena.

Destaque também para a atuação over, porém mais do que adequada ao seu papel, de James Marsden, que cria um príncipe tão viril quanto tapado. São dele vários dos momentos mais engraçados do longa, como sua luta com um ônibus, ou sua interação com uma televisão.

Claro que, inevitavelmente, o longa acaba se transformando numa daquelas comédias românticas clichês e previsíveis, com o afamado happy ending, afinal estamos falando de um filme Disney. Mas é inegável que é um filme divertido, que vai provocar risos e sorrisos nas crianças de todas as idades.


por Melissa Lipinski


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

50%

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

50% (50/50, 2011)

Estreia oficial: 30 de setembro de 2011
Estreia no Brasil: 18 de janeiro de 2012

IMDb



"50%" poderia muito bem cair no lugar comum e se tornar um daqueles filmes melosos sobre câncer. Ainda mais sendo seu protagonista um jovem de 27 anos. Porém, o longa foge das convencões e se torna um drama comovente, com ótimas pitadas de humor (na maioria negro), coroado com uma excelente atuação de Joseph Gordon-Levitt.

Escrito por Will Reiser baseado em sua experiência pessoal com o câncer, o filme mostra como Adam (Gordon-Levitt), um jornalista que trabalha em uma rádio, descobre, surpreendentemente, que possui uma forma rara de câncer na espinha, cujas chances de sobrevivência são os tais 50% do título. A partir de então, ele vai ter que encarar as dificuldades da quimioterapia e todas as suas consequências, enquanto ainda tem que lidar com uma namorada aparentemente insensível (Bryce Dallas Howard), um amigo que tenta levantar sua moral de toda forma possível (Seth Rogen), uma mãe super-protetora (Anjelica Huston), e uma terapeuta inexperiente (Anna Kendrick).

São seus diálogos a mair força do filme, com um humor discreto, irreverente, e por vezes ácido, repletos de referências a outros filmes, como "Harry Potter", "Star Wars", "O Senhor dos Anéis", e outros tantos preferidos dos mais nerds.

E Joseph Gordon-Lewitt empresta carisma e sensibilidade a seu protagonista, transformando-o, além do bom moço (que usualmente interrreta) em um personagem tridimensional, e que poderia muito bem ser um parente, amigo, ou conhecido de qualquer um de nós. E é essa autenticidade que faz com que nos identifiquemos e nos importemos com ele, e, obviamente, com seu futuro. E é aí que o filme se torna bem sucedido.

Claro que há clichês e situações manipuladas para nos emocionarmos. Mas a preocupação de Reiser e do diretor Jonathan Levine com seus personagens consegue dribá-las afim de construir uma trama coesa e que emociona pelo seu ponto principal: o fator humano e suas relações.

São os relacionamentos de Adam com as pessoas que mais ama, e com novos amigos que ditam tanto o tom dramático quanto o cômico de "50%". E, se Anjelica Huston é sempre competente; Anna Kendrick empresta uma estranha doçura à sua terapeuta; e Seth Rogen faz o que sabe fazer melhor: o engraçado cara-de-pau boa gente; são os dois amigos que Adam conhece durante as sessões de quimioterapia, Alan (Philip Baker Hall) e Mitch (Matt Frewer), que roubam as poucas cenas em que parecem, com sua 'maconha medicinal' para aliviar o peso da doença, e sua camaradagem que vai além do tempo que permanecem juntos no hospital. E são esses momentos, delicados e tocantes, que humanizam os personagens e os tornam verossímeis.

Para completar, Jonathan Levine conduz o filme com um bom ritmo, optando por grandes elipses temporais que funcionam, mas sem deixar o espectador perdido quanto à sua cronologia.

Enfim, "50%" pode até não ser uma obra-prima cinematográfica; mas é um daqueles filmes menores, que, até mesmo pela proximidade do seu autor com os fatos, emociona pela franqueza com que trata do assunto. E, assim, arrebata-nos pela sua sinceridade.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Carros 2

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Carros 2 (Cars 2, 2011)

Estreia oficial: 22 de junho de 2011
Estreia no Brasil: 23 de junho de 2011
IMDb



E aconteceu o que parecia impossível! Pela primeira vez a Pixar escorrega e produz um filme realmente fraco. Não que "Carros 2" não tenha lá suas virtudes, mas está longe (muito longe) de se comparar aos outros filmes do estúdio encabeçado por John Lasseter. O próprio "Carros" (2006), podia até ser o mais infantil dos filmes do estúdio, mas ainda assim possuia grandes qualidades. Já essa sua continuação parece até mesmo deixar o bom senso de lado apenas para produzir um produto potencialmente lucrativo (e falo não só do filme mas, principalmente, de seus derivados: brinquedos, roupas e afins).

Depois de vencer seu quarto título da Copa Pistão, Relânpago McQueen volta à pequenina Radiator Springs para passar as férias com seu melhor amigo, Mate, que já traçou um roteiro completo para preencher os dias de folga do amigo. Porém, quando o carro de corridas italiano, Francesco Bernoulli, começa a alardear que é o mais veloz do mundo, McQueen interrompe seu descanso para participar de um campeonato idealizado por Sir Miles Eixodarroda, e que contará com os carros mais velozes do mundo para comprovar a eficiência de um novo combustível alternativo e renovável. Em meio a estas viagens pelo mundo, entretanto, Mate será confundido com um espião estadunidense pelos agentes Finn McMíssel e Holley Caixa de Brita, que investigam quem estará sabotando essas corridas para que o novo combustível não vingue e a gasolina mantenha-se como a principal fonte de energia para os carros.

Adotando o ar de espionagem, pelo menos a Pixar acerta em mudar o tom do filme anterior, evitando repetir fórmulas. Porém, erra ao promover Mate como o protagonista da história. Se o guincho funcionava como personagem secundário do filme original e como alívio cômico, o mesmo não se pode dizer desta vez. Tendo que aumentar (e muito) o número de piadas ao seu redor, o roteiro peca por diluir o seu potencial cômico em tiradas que, em sua maioria, soam óbvias e sem graça. Assim, McQueen é colocado como personagem secundário e relegado à única função de corroborar com a lição de moral do longa: 'não tente mudar as pessoas (principalmente seus amigos), aceite-as do jeito que elas são'.

E, se nos filmes anteriores da Pixar tais mensagens vinham 'camufladas' em roteiros que primavam pela qualidade, aqui, toda e qualquer sutileza é jogada fora com frases óbvias e clichês, que chegam a irritar. E até mesmo as tais lições parecem falhas já que, além da que mencionei no parágrafo anterior, o filme traz outras, porém moralmente duvidosas, como mostrar que os velhos e diferentes (os 'carros-limões' do filme) sentem-se acuados e invejosos, e sempre agem com raiva e más intenções; além de alardear que a gasolina é insubstituível, numa mensagem que, além de anti-ecológica, soa até mesmo perigosa se considerarmos que o filme é voltado (quase que exclusivamente) para o público infantil. E, como falei, se em seus trabalhos anteirores, o estúdio primava pelo bom senso, aqui parece estar desesperado apenas em obter lucro, não se preocupando com o teor de seu produto e as consequências que podem causar (ou alguém duvida do apelo desses personagens? Basta perguntar a qualquer garotinho com menos de 6 anos para ver se ele não sabe o bordão de Relâmpago McQueen). Ka-Chao!

Por outro lado, a Pixar mantém sua qualidade técnica e cria locações incríveis: seja na árida Radiator Springs, ou na multicolorida Tóquio. Assim como sequências de ação eficientes, como naquela que abre o longa, e nas corridas protagonizadas por McQueen. Igualmente inteligente é a transposição do universo das pessoas para mundo dos carros, e a colocação de objetos automotivos para ações mais humanas; como um jogo de cassino que é feito por aqueles dados que servem para pendurar no retrovisor, assim como muitos outros exemplos.

Enfim, apostando em uma história que nem mesmo parece se preocupar com sua própria lógica interna (basta ver quantos 'furos' o roteiro possui), a Pixar lança um filme duvidoso. Certamente vai conquistar as crianças (principalmente as menores). Já os adultos, que se emocionavam vendo "Up - Altas Aventuras", "Ratatouille", "WALL-E", "Toy Story", e tantos outros filmes do estúdio, vão ficar a ver navios… e carros… caminhões… e até papa-móvel! (Ok, ok… Meu trocadilho é do mesmo nível da animação!).


por Melissa Lipinski


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Toda Forma de Amor

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Toda Forma de Amor (Beginners, 2010)

Estreia oficial: 3 de junho de 2011
Estreia no Brasil: lançado diretamente em DVD
IMDb



"Toda Forma de Amor" (péssima tradução do título nacional) é um filme de Mike Mills, que parece ter se baseado em suas experiências pessoais para escrevê-lo. Tal proximidade e cumplicidade com os dramas vistos aqui, fazem com que o longa seja comovente, e intercale de maneira hábil e delicada momentos depressivos com outros mais alegres.

O roteiro de Mills mostra como Oliver (Ewan McGregor) está passando por uma difícil fase de sua vida. Criado praticamente só pela mãe (Mary Page Keller), o maior contato com o pai só começa depois da morte dela, quando ele - o pai, Hal (Christopher Plummer), assume-se gay e recomeça sua vida. E a descoberta de um câncer fará com que pai e filho unam-se ainda mais. Tendo crescido em um casamento sem amor, Oliver tem grande dificuldade em demonstrar seus sentimentos e manter um relacionamento; o que pode mudar depois que ele conhece Anna (Mélanie Laurent).

O filme de Mills privilegia seus atores, dando tempo para que eles possam desenvolver seus personagens e que, com isso, possamos nos identificar com eles. Não deixa de ser, basicamente, um maravilhoso estudo de personagens. Ewan McGregor empresta ternura e fragilidade a Oliver, transformando-o em um sujeito calado, depressivo, mas nunca num chato; e compreendemos e compartilhamos com ele suas tristezas e indagações sobre o amor e sobre a vida. Já Mélanie Laurent dá vivacidade à sua Anna, ao mesmo tempo em que torna-a complexa e 'real' pelas sutis mudanças de humor da personagem (que nunca são intempestivas ou inexplicadas). Mas o grande destaque fica por conta de Christopher Plummer, que consegue criar um personagem encantador. Assumindo sua homossexualidade aos 75 anos e redescobrindo sua vida, Hal esbanja vitalidade e emoções. E, mesmo abatido fisicamente pelo câncer, demonstra um grande amor pelas pessoas e pela vida, fazendo um belo contrapondo com a soturnidade de Oliver.

Para completar, há a interação de Oliver com o cachorrinho Arthur, e que interage com seu dono - e a opção de Mills em colocar pensamentos (em forma de legendas) para Arthur mostra-se inteligente e divertida, já que funciona como se fosse o inconsciente de Oliver, ao mesmo tempo em que revela o que o protagonista está pensando, sem ter que recorrer a narrações em off ou monólogos auto-explicativos. Além, é claro, de remeter àquelas pessoas que conversam com seus animais de estimação como se esses pensassem, refletissem e emitissem opiniões como se fossem seres humanos.

Como diretor, Mills também acerta, juntamente com o seu diretor de fotografia, Kasper Tuxen, em optar pela câmera 'solta', 'na mão', assim como na utilização de uma iluminação bem naturalista, dando uma estética mais realista à narrativa, o que também colabora para a identificação do espectador com aqueles personagens. Acerta também, na opção por uma montagem não-linear, fragmentada, que vai e volta no tempo para mostrar os relacionamentos de Oliver com sua mãe, seu pai e com Anna, o que confere ritmo à uma narrativa que já é mais lenta pela natureza de seus personagens e pela estética contemplativa adotada por Mills.

Mas o grande mérito do cineasta é utilizar-se de elegantes rimas narrativas, fazendo com que seu filme torne-se orgânico e 'real'. Assim, vemos Oliver repetir frases ou gestos que sua mãe ou seu pai faziam. Ou então, as rimas visuais, como o vaso da janela da casa de Oliver, que aparece logo no primeiro plano do filme com flores, e em outro momento, durante uma discussão com seu pai, com flores mortas. E esse é apenas um exemplo, o longa traz diversas dessas ligações ou rimas. O que, na minha opinião, sempre deixa uma produção mais elegante e inteligente.

Enfim, "Toda Forma de Amor" é um filme tocante, que mostra, como diz seu título original, "Beginners", como Hal ou Oliver foram 'iniciantes' em seus relacionamentos, seja porque assumiram sua opcão sexual, ou porque amadureceram diante da vida… Mas afinal, não somos todos iniciantes de uma forma ou de outra em algum (ou alguns) momento da nossas vidas?

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


sábado, 24 de dezembro de 2011

O Garoto da Bicicleta

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Garoto da Bicicleta, O (Le Gamin au Vélo, 2011)

Estreia oficial: 18 de maio de 2011
Estreia no Brasil: 18 de novembro de 2011
IMDb



"O Garoto de Bicicleta" segue a estética dos filmes anteriores dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne. Nitidamente inspirados no neorrealismo, os cineastas sempre optam por longos planos que acompanham seus personagens durante suas ações, além de câmeras 'na mão' que dão um aspecto mais 'documental' ou 'caseiro' a seus longas. Além de sempre contarem histórias simples, com personagens 'comuns', e que poderiam muito bem acontecer com qualquer um de nós.

Neste longa, os irmãos Dardenne continuam com seu estilo para contar a história do jovem Cyril (Thomas Doret), um menino que foi deixado em um orfanato por seu pai, que se sentiu incapaz de continuar cuidando dele. Cyril, então, começa uma busca pelo reencontro com seu pai, e acaba entrando na vida de Samantha (Cécile De France), uma cabeleireira que aceita em ficar com ele nos fins de semana.

Demonstrando um talento impressionante para um jovem ator, Thomas Doret convence como um garoto briguento e que mantém (a falsa) esperança em morar novamente com seu pai. O mais surpreendente é que o garoto tão independente em alguns momentos, mostra-se extremamente vulnerável em outros; e Doret mostra-se bastante versátil, demostrando a variação de personalidade com competência. Porém, é exatamente nestas mudanças de comportamento que o filme peca, já que o transformam em um protagonista antipático, quase insuportável.

Assim, é injustificável a (imediata) ligacão que Samantha sente por ele. Aliás, tudo referente à personagem de Cécile de France soa superficial e mal construído; nunca sabemos quem realmente é aquela mulher ou quais são as suas motivações, assim como fica difícil acreditar que qualquer pessoa, por melhor que seja, suportaria um comportamento tão violento vindo de um menino que mal conhece. E a cena em que Samantha demonstra seu amor incondicional por Cyril, abrindo mão do relacionamento com seu namorado, chega a ser patética.

Já Jérémie Renier, que interpreta Guy, o pai de Cyril, talvez seja o personagem mais interessante do longa. Apesar de, sem dúvida, mostrar-se egoísta e extremamente irresponsável; o sujeito demonstra, por pequenos gestos, sentir-se desconfortável, e até mesmo envergonhado por suas ações, não sendo, num primeiro momento, nem capaz de dizer ao próprio filho que não quer mais o ver, numa cena que revela toda sua personalidade e incômodo com toda aquela situação.

Enfim, "O Garoto da Bicicleta" não é um filme ruim, mas está longe de ser o melhor momento destes cineastas que já nos brindaram com pérolas como "O Filho" (2002) e "A Criança" (2005).


por Melissa Lipinski


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Missão Madrinha de Casamento

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Missão Madrinha de Casamento (Bridesmaids, 2011)

Estreia oficial: 13 de maio de 2011
Estreia no Brasil: 23 de setembro de 2011
IMDb



Judd Apatow é o 'cara' das comédias atuais. Essas com um humor politicamente incorreto, e que geralmente focam-se em jovens adultos, infantilizados, e que ainda não encontraram seu 'lugar' no mundo. Seja como roteirista, diretor ou produtor, Apatow tem o dedo nos maiores (e melhores) sucessos dos últimos anos, com filmes como "O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy" (2004), "O Virgem de 40 Anos" (2005), "Ligeiramente Grávidos" (2007), "Superbad - É Hoje" (2007), "Segurando as Pontas" (2008), e agora esse "Missão Madrinha de Casamento" (produzido por Apatow e dirigido por Paul Feig).

Escrito por Kristen Wiig e Annie Mumolo, o filme parece ter o propósito de se tornar a versão feminina de "Se Beber, Não Case!", porém, com mais escatologias (surpreendentemente) e sentimentalismo, e, infelizmente, menos ironia. A história é sobre Annie (a própria Wiig), uma doceira cuja pequena confeitaria faliu devido à crise econômica, e que vê sua rotina com sua melhor amiga, Lillian (Maya Rudolph), mudar drasticamente quando esta anuncia que vai se casar. Claro que Annie será sua madrinha (ou dama de honra, nos Estados Unidos), junto com outras novas amigas de Lillian, entre elas a socialite Helen (Rose Byrnes), que vai competir com Annie para ver quem será a 'líder' das tais madrinhas.

E é dessa competição que nascem as piadas mais engraçadas. Porém, elas sempre alongam-se demais, e acabam perdendo o bom timing que ensaiam. Aliás, alongar demais as situações cômicas tornou-se a marca deste longa, basta ver a cena do discurso das madrinhas; aquela em que elas provam vestidos e têm intoxicação alimentar; a viagem de avião para Las Vegas; aquela em que Annie perde o controle na despedida de solteira de Lillian; e a que tenta chamar a atenção do policial Nathan (Chris O'Dowd). Todas com potencial engraçado, mas que acabam perdendo o charme e a graça pela insistência e duração.

Mas o filme tem seus momentos, principalmente quando tem Kristen Wiig como protagonista das piadas. A atriz realmente leva o filme nas costas e dá conta do recado. Claro que o time de coadjuvantes, encabeçado por Rose Byrnes e que conta com Melissa McCarthy, Ellie Kemper e Wendi McLendon-Covey, também tem seus momentos, ainda que suas personagens não passem de caricaturas definíveis com uma, ou no máximo duas, características.

Com escatologias totalmente descartáveis, "Missão Madrinha de Casamento" (péssimo título nacional), erra em não apostar mais no politicamente incorreto e apelar para o humor fácil e óbvio. Sem contar que, ao final, descamba para o sentimentalismo e mensagem (irritantemente) edificante.

Enfim, parece que Judd Apatow se dá melhor em projetos com temática e personagens masculinos; já que essas mulheres até revelaram-se engraçadas, mas moralmente vazias.


por Melissa Lipinski


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Uma Doce Mentira

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Doce Mentira, Uma (De Vrais Mensonges, 2010)

Estreia oficial: 8 de dezembro de 2010
Estreia no Brasil: 9 de setembro de 2011
IMDb



"Uma Doce Mentira" é uma comédia romântica que começa bem, dá uma base a seus personagens, construindo-os de forma coerente, somente para, no seu terço final, jogar tudo isso fora e sucumbir aos mais terríveis clichês hollywoodianos para que aconteça o "tão aguardado" happy end.

Escrito por Benoît Graffin e Pierre Salvadori (este também o diretor), a história já começa mostrando a paixão platônica que Jean (Sami Bouajilla) sente por sua patroa, Émilie (Audrey Tautou). Escreve-lhe, então, uma carta anônima, declarando o seu amor. A moça, por sua vez, reage de forma fria e insensível às belas palavras do rapaz, porém decide usar tal carta para reanimar sua mãe, Maddy (Nathalie Baye) que encontra-se em depressão depois de ter sido abandonado pelo marido. Assim, Émilie envia a carta para sua mãe, dando início a uma série de mal entendidos.

Desde a primeira cena, Salvadori já mostra criatividade ao intercalar cenas de Jean escrevendo a carta com outras dele admirando Émilie por através de um vitral colorido, permitindo que o diretor brinque com as cores da cena, principalmente o vermelho.

É já num primeiro momento que também conhecemos a personalidade forte de Émilie, pois nem os desejos de suas clientes (ela é cabeleireira) parecem impedi-la de fazer o que bem entende. Assim como ficamos conhecendo Jean, cujas palavras na carta dizem muito sobre seu caráter e personalidade introvertida, e as ações do rapaz no início do filme comprovam este comportamento.

Entretanto, o roteiro trata logo de jogar fora toda esta construção em prol de armar um triângulo amoroso. O que Graffin e Salvadori não perceberam, entretanto, é que fazendo isso, transformaram sua protagonista em uma mulher egoísta, manipuladora e até mesmo cruel, que usando como desculpa ajudar sua mãe, não consegue enxergar o mal que causa aos sentimentos dos outros. Sorte do diretor (e do filme) é que Émilie é interpretada pela doce Audrey Tautou, que, por mais perversa que tente parecer, sempre carrega um quê de doçura em sua personalidade, fazendo com que fique quase impossível odiá-la.

Contando ainda com um desfecho forçado e incoerente com o restante da história (principalmente no que diz respeito à personagem Maddy), "Uma Doce Mentira" desperdiça bons atores e boas atuações em prol de virar mais 'comercial', mais hollywoodiano, e assim, acaba se auto-boicotando.


por Melissa Lipinski