quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A Pele que Habito

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Pele que Habito, A (La Piel que Habito, 2011)

Estreia oficial: 17 de agosto de 2011
Estreia no Brasil: 4 de novebro de 2011
IMDb



Pedro Almodóvar é um cineasta obcecado pelo universo feminino. Mesmo tendo produzido filmes tão diferentes entre si como "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988), "Ata-Me!" (1990), "Kika" (1993), "A Flor do Meu Segredo" (1995), "Carne Trêmula" (1997), "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999), "Fale com Ela" (2002), "Má Educação" (2004), "Volver" (2006) e "Abraços Partidos" (2009), há sempre um tema que envolve feminilidade nestas produções. Em "A Pele que Habito", obviamente, não poderia ser diferente. E, se em "Tudo Sobre a Minha Mãe", "Fale com Ela" e "Má Educação", o cineasta já abordava o lado feminino existente em todo homem, aqui Almodóvar vai ainda mais longe, e literalmente transforma um homem em mulher (sim, spoiler!).

Porém, se o assunto é recorrente, a forma como o cineasta o aborda é algo novo em sua cinematografia. A partir do livro "Tarantula", de Thierry Jonquet, Almodóvar escreveu um roteiro repleto de suspense, tensão e violência. Porém, não uma violência física escrachada na tela; mas uma violência contida, presente em toda a ambientação das cenas, expressa na construção dos planos, desde os menores objetos (como uma navalha, por exemplo, que aparentemente serve apenas para barbear) até as frases enigmáticas ditas por seus personagens. É um terror psicológico, criado não em cima de sustos, mas a partir de um mal estar; pintado com características 'almodovarianas' que tão bem conhecemos, com doses de absurdos e exageros.

Porém, se o tom do filme sugere um longa típico de Almodóvar, o mesmo não se pode dizer de sua estética. Preferindo cores mais frias às habituais cores fortes e quentes que utiliza, "A Pele que Habito" ainda conta com uma direção de arte impecável que, aliada à bela fotografia de José Luis Alcaine, ajudam a construir a sensação de incômodo transmitida pela história.

Conseguindo manter o ritmo (e a tensão) do início ao fim, Almodóvar acerta ao contar sua história de forma não cronológica, desvendando aos poucos a origem de cada personagem, cada ação, e cada ligação entre eles. E as elegantes 'rimas' visuais que o cineasta cria - por exemplo ao vermos Vicente (Jan Cormet) vestindo um manequim da mesma forma que fará posteriormente com Norma (Blanca Suárez); ou o jeito como o mesmo Vicente costura retalhos em um busto, que será idêntico ao que outra personagem costurará seus próprios retalhos - enriquecem ainda mais a sua obra, além de dar pistas ao espectador do que está por vir.

Há ainda o grande elenco, que conta com belíssimas atuações (e composições de personagens) de Antonio Banderas, que domina o filme de forma madura e centrada (apesar de seu personagem não apresentar esta característica); da bela Elena Anaya, com uma aparente fragilidade que esconde seu verdadeiro 'eu'; e ainda de Jan Cornet, Blanca Suárez e Marisa Paredes (antiga colaboradora de Almodóvar), que acabam se destacando nos auges dramáticos de seus respectivos personagens.

Enfim, "A Pele que Habito" transita entre o horrível e o belíssimo. Aliás, transformar atos horrendos em momentos de extrema sensibilidade, sem deixar de causar estranhamento ou incômodo, é algo que só Pedro Almodóvar poderia fazer. E fez.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


Um comentário:

Rafael W. disse...

Nossa, preciso assistir o quanto antes.

http://cinelupinha.blogspot.com/