terça-feira, 22 de novembro de 2011

A Árvore do Amor

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Árvore do Amor, A (Shan Shu Zhi Lian, 2010)

Estreia oficial: 16 de setembro de 2010
Estreia no Brasil: 21 de outubro de 2011
IMDb



Zhang Yimou é um dos mais respeitados cineastas da atualidade, e faz parte da chamada "quinta geração" de diretores da China. Atuando como diretor desde o fim dos anos 1980, é dono de uma vasta cinematografia que inclui, predominantemente, melodramas que têm como pano de fundo a realidade econômica e política de seu país em diferentes épocas.

Ainda que tenha flertado com as artes marciais (ou wuxia pian como o gênero é conhecido) em uma belíssima trilogia ("Herói", de 2002; "O Clã das Adagas Voadoras", de 2004; e "A Maldição da Flor Dourada", de 2006), a maioria dos seus filmes realmente tem o melodrama como estilo. E este "A Árvore do Amor" não foge à regra, e revela-se não só um belíssimo drama, como um excelente filme sobre a natureza do amor, além é claro de situar-se em um importante período político da China.

O roteiro (baseado em um romance de Ai Mi), passa-se durante a Revolução Cultural (década de 1960), e acompanha a estudante Jing (Zhou Dongyu) que é mandada para o campo para aprender novos valores (pois somente com os camponeses, os jovens poderiam se ver livres dos preceitos capitalistas e aprenderem a ser comunistas 'de verdade'). Lá, a jovem acaba conhecendo Sun (Dou Shawn) e se apaixonando. Porém ambos vêm de famílias com históricos políticos bem diferentes. Ele é filho de um importante membro do Partido Comunista; já ela precisa se desdobrar para recuperar a honra de sua família, pois seu pai é um preso político por ser 'de direita'. Porém, não será fácil 'manter-se na linha' à medida que a paixão entre os dois aumenta, já que Sun sempre está por perto, não apenas para namorá-la, mas para ajudá-la em muitos aspectos (no trabalho, financeiramente…). Porém, para uma jovem 'direita', ser vista com um rapaz não era adequado, o que pode prejudicar Jing em seu intuito de recuperar o nome de sua família.

A grande 'sacada' de Yimou é a maneira como ele constrói o romance entre os dois jovens, através de pequenas sutilezas, como um tocar de mãos ou o 'empréstimo' de um casaco. São esses detalhes que fazem o relacionamento (jamais declarado) entre eles soar tão autêntico e sensível ao mesmo tempo. Ficamos torcendo para que eles consigam vencer as barreiras impostas pela sociedade para que terminem juntos, porque acreditamos na sinceridade daquele sentimento. É realmente muito bonito.

O cineasta ainda confere um tom literário ao seu romance, incluindo, de tempos em tempos, cartelas que não só denotam a passagem de tempo, mas que também trazem escritas ações, e principalmente, sentimentos dos protagonistas. Tal recurso funciona muito bem tanto para as elipses temporais, como para dar um tom mais épico à narrativa.

Apostando sua força na atuação de seus jovens protagonistas, o cineasta chinês não erra, já que os dois jovens atores fazem composições bastante verdadeiras de seus personagens. Ancorados sobretudo na ingenuidade, o relacionamento entre os dois tem sua força na química que se estabelece entre o casal. Zhou Dongyu e Dou Shawn transmitem tamanha naturalidade que um simples e longo plano fechado em seus rostos durante um encontro num lago, transmite toda a ansiedade e força que a proximidade entre eles causa em ambos. E não é preciso nenhum contato físico entre eles para que se estabeleça toda a tensão e o desejo que sentem um pelo outro.

Enfim, como falei, o filme é um melodrama, e como tal, emprega sua força na dor e nos obstáculos para a felicidade de seus protagonistas. E Zhang Yimou é mestre em conduzir esse tipo de história sem transformá-la em um drama meloso e aborrecido. Provando que o cineasta chinês ainda mostra a mesma sensibilidade e competência que o transformou em um dos maiores cineastas da atualidade.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Casa dos Sonhos

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Casa dos Sonhos, A (Dream House, 2011)

Estreia oficial: 30 de setembro de 2011
Estreia no Brasil: 4 de novembro de 2011
IMDb



Se você assisitiu ao trailer de "A Casa dos Sonhos" poupe-se ao trabalho de ver o filme, já que o trailer entrega toda e qualquer 'surpresa' que o longa poderia ter, e conta absolutamente a história inteira. Assim, o trailer acaba revelando-se bem melhor do que o próprio filme, já que nele não há a grande quantidade de diálogos absurdos, os personagens não se revelam caricaturais e inverossímeis, e as situações não beiram ao ridículo.

Bom, mas falando do filme, o roteiro de David Loucka (cujo próprio sobrenome prenuncia a 'qualidade' do roteiro... Sorry, não resisti!), abusa de situações 'clichês' e que, de tão irreais, chegam à beira do risível. Will Atenton (Daniel Craig) é um editor de livros que se afasta do trabalho para passar mais tempo com a família e para escrever um tão sonhado livro. Quando o filme tem início, ele, sua esposa Libby (Rachel Weisz) e suas duas filhinhas acabaram de se mudar para uma casa em uma pequena cidade. Porém, coisas estranhas começam a acontecer nesta casa, e ele descobre que, cinco anos antes, o homem que ali morava matou sua família (esposa e duas filhas). Contando com a ajuda de uma vizinha (Naomi Watts), Will acaba descobrindo que ele mesmo é o dito assassino, seu verdadeiro nome é Peter Ward, e que sua família não passa de alucinações; apesar de ele afirmar que não foi o responsável pelas mortes (bom, até aqui não cometi nenhum spoiler, pois como disse, o trailer entrega tudo isso!).

Há boatos que Jim Sheridan tentou de tudo para que seu nome fosse tirado do filme, pois não teria gostado do resultado final, e que o estúdio produtor reeditou o filme a seu modo. Mas a verdade é que, desde o início (já no roteiro), a história tem problemas. Problemas na base de sua ideia (a tal 'chocante' revelação), no desenvolvimento de seus personagens, nos seus diálogos embaraçosos, nos seus vilões absurdos, nas situações que dão raiva de tão inverossímeis... a lista é longa! Por que, por exemplo, ninguém se revolta, ou nem sequer diz uma palavra a Will quando ele sai pela cidade fazendo perguntas sobre o assassino? Todos o conhecem e sabem que ele é o principal suspeito. Será mesmo que numa cidadezinha, ninguém iria enfrentá-lo quando ele saísse pelas ruas 'se fazendo de desentendido'? Ele chega a questionar policiais, que, simplesmente, o olham com uma cara feia e de desconfiança deixando tudo 'por isso mesmo'. Eu não acredito! Ou o papel da vizinha (Watts) em toda a história e a subtrama que envolve seu desentendimento com o marido que, além de comprometer o ritmo do longa, revela-se tão patética quanto a motivação dos verdadeiros vilões, que são revelados já no fim do filme. Seria até engraçado, se não fosse vexatório.

O pior de tudo é que, no desenvolver da história, conseguimos ver a 'mão' de Jim Sheridan ali, já que, quando foca-se no desenvolvimento da família de Will e em seus laços e dinâmica familiares, o diretor consegue imprimir uma verdade, uma certa profundidade em seus personagens (que, infelizmente, não é levada a diante), e nós, espectadores, realmente chegamos a nos importar com aquelas pessoas, Will, Libby e suas meninas, as pequeninas e encantadoras Trish e Dee Dee (Taylor e Claire Geare, que são também irmãs na vida real). Porém, essa identificação dura pouco, já que o roteiro 'volta' a se fazer presente a todo momento.

E o bom elenco até tenta - em vão, obviamente - dar mais complexidade a seus personagens. É de dar pena as caras que Daniel Craig faz para tentar diferenciar seus dois 'eus'. Ou o ar sempre assustado de Libby (Weisz) ou sempre em pânico de Ann (Watts). Enfim, quando a matéria prima é ruim, nem um Marlon Brando ou Jack Lemmon consegue salvar por completo o resultado final!

E por mais que, tecnicamente, o filme seja muito competente - em especial a fotografia de Caleb Deschanel, que consegue, elegantemente, diferenciar o mundo real do protagonista e seu universo alucinatório - não é o suficiente para apagar ou mascarar um roteiro tão fraco.

Mas o mais revoltante é ver o nome de Jim Sheridan nessa porc.., digo, filme. Responsável por trabalhos memoráveis, complexos e sensíveis como "Meu Pé Esquerdo" (1989), "Em Nome do Pai" (1993), "O Lutador" (1997), "Terra de Sonhos" (2002) e "Entre Irmãos" (2009); é inconcebível a escolha do cineasta por um trabalho tão medíocre como esse.

Mas enfim, revoltas à parte, como falei lá no primeiro parágrafo, a verdade é que esse "A Casa dos Sonhos" funciona bem melhor como trailer do que filme.


por Melissa Lipinski


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Hora Menos

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Hora Menos (2011)

IMDb



Duas mulheres completamente distintas unidas por uma tragédia e que, juntas, tentam recomeçar suas vidas. Essa é a premissa deste "Hora Menos", estreia na direção de longas do ator Frank Spano.

Isabel (Rosana Pastor) é espanhola, mas trabalha como enfermeira na Venezuela auxiliando seu marido médico. Yudeixi (Erika de Santiago) é uma menor infratora. Depois que um maremoto arrasa com a cidade onde elas moravam, matando a única família que possuíam, elas se vêem refugiadas nas Ilhas Canárias (território espanhol), e criam um vínculo de amizade e companheirismo para poderem seguir com suas vidas.

Pena que o roteiro, do próprio Spano, não consegue se sustentar durante toda a duração do longa, já que sua premissa até soava interessante. Porém, a falta de argumentos transforma seu segundo ato em uma miscelânea de enrolações, com uma subtrama desnecessária sobre imigrantes ilegais que são trazidos para trabalhar de maneira escrava; e a introdução de um personagem igualmente redundante - o do menino autista que Isabel acaba assumindo.

Porém, quando volta-se para os dramas individuais das duas protagonistas, e suas dificuldades em recomeçarem do zero, a história ganha em força e dramaticidade. Também é auxiliado pela excelente atuação de Rosana Pastor e Erika de Santiago, que conseguem transmitir o sofrimento passado pelas suas personagens em pequenos gestos, como um simples olhar.

Porém, o ritmo do longa, que começa bem, é prejudicado pela perda de foco narrativo e pela divisão da história em 'atos' ou 'partes', que nada contribuem para o entendimento da trama.

Sem possuir arroubos criativos ou deleites visuais, "Hora Menos" é um filme apenas correto, e que ganha força pela qualidade de suas protagonistas.


por Melissa Lipinski


OBS: Comentário escrito durante a 35ª Mostra Intrnacional de Cinema de São Paulo.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Labrador

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Labrador (Labrador, 2011)

Estreia oficial: 30 de abril de 2011
Estreia no Brasil: sem data prevista

IMDb



"Labrador" é um tanto quanto perturbador. Possui apenas três personagens (e mais um cachorro) e a história se passa em um cenário totalmente desolador: uma ilha deserta e fria, que diz muito sobre a personalidade ou estado de espírito dos próprios personagens.

Sem uma história muito complicada, o roteirista Daniel Dencik e a diretora Frederikke Aspöck conseguem focar no que mais interessa aqui: seus protagonistas. Pois este é um filme de personagem, já que se baseia inteiramente nas relações que estes três indivíduos travam nesta desértica ilha.

Mas vamos dar 'nomes aos bois'. A história começa com Stella (Stephanie Leon) e seu namorado, Oskar (Carsten Bjørnlund) chegando na tal ilha para visitarem o pai da moça, Nathan (Jakob Eklund), um artista plástico que resolveu isolar-se do mundo tendo como única companhia, uma cadela da raça labrador. Porém, logo de cara, Nathan antipatiza com Oskar, e Stella vê-se em meio a um confronto de palavras e olhares, dos quais ela mesma toma parte. Porém, a visita aparentemente simples e desinteressada (ou nem tanto), acaba se tornando um verdadeiro desastre quando antigos segredos são revelados (e não vem ao caso mencioná-los para não estragar a surpresa).

Muito bem intepretada por seus atores, a história peca por ser toda calcada sobre esse segredo. Porém, ele acaba por revelar-se fraco e inconsistente, pois é impossível pensar que Stella nunca tenha feito uma matemática básica quando criança, e suspeitado que algo na sua base familiar não estava certo. Assim, se a base é fraca, toda a estrutura da narrativa também parece falhar. E o faz intermitentemente.

Porém, apesar da premissa um pouco forçada, o drama psicológico que se estabelece entre os protagonistas é intenso, e aborda conflitos familiares e relações humanas de uma forma complexa e até mesmo doentia.

Mas é mesmo a escolha da locação que faz tudo soar ainda mais complicado. A impressionante melancolia e isolamento do local reflete no comportamento do trio protagonista, que vê sua aparente harmonia desmoronando-se à medida que a história avança.

Talvez o desfecho seja apressado demais, mas nada que desmereça o trabalho como um todo. Pena que o grande tropeço tenha acontecido lá no início, na 'ideia-base' de toda a trama, e isso não há como desconsiderar…


por Melissa Lipinski



OBS: Comentário escrito durante a 35ª Mostra Intrnacional de Cinema de São Paulo.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Os 3

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

3, Os (2011)

Estreia oficial | no Brasil: 11 de novembro de 2011
IMDb



"Os 3", longa dirigido por Nando Olival (diretor do 'hit' da internet, "Eduardo e Mônica", e que co-dirigiu - com Fernando Meirelles - "Domésticas - O Filme", de 2001) aposta em uma linguagem dinâmica para abordar o universo jovem, ainda falando sobre sexualidade e consumismo. Porém, se tecnicamente, o filme acerta em quase tudo, o mesmo não se pode dizer em termos de conteúdo.

O roteiro, escrito pelo próprio Olival e por Thiago Dottori, mostra como três universitários - Rafael (Victor Mendes), Camila (Juliana Schalch) e Cazé (Gabriel Godoy) - se conhecem, vão morar juntos, convivem durante os quatro anos da faculdade e embarcam numa experiência de reality show em seu próprio apartamento.

Um dos principais méritos do filme é sua edição, que dá dinamismo à história, fazendo-a fluir no ritmo certo, e com elipses temporais bem realizadas que dão conta do seu objetivo de forma elegante. A fotografia e a direção de arte também acertam.

Porém, o mesmo não se pode dizer de seus personagens e os drama pelos quais eles passam. Interpretados de forma irregular por seus protagonistas (que alternam momentos de delicada sinceridade com outros de dolorosa canastrice), os personagens vistos em "Os 3" soam superficiais e estereotipados demais. Faltou sutileza em suas composições para que o longa conseguisse alcançar um outro patamar. Não que a história seja ruim. Até porque a interação e a química entre os protagonistas é boa. Mas faltou um 'algo mais'.

Mas o grande problema são as motivações e dúvidas pelas quais os três amigos passam, que nunca soam realmente convincentes ou verdadeiras. Parecem apenas dramas colocados à frente deles para que o roteiro possa evoluir, não soam 'reais'. Assim como suas ações, que, em determinado ponto da história, até se tornam óbvias e previsíveis.

O filme conta com uma estrutura circular interessante, que pode parecer ter um começo meio forçado, mas que o desenrolar da história trata de contextualizá-lo e fazê-lo, em retrospectiva, soar melhor do que se havia imaginado, o que não deixa de ser um grande ponto positivo para Nando Olival.

Porém, nem todo o filme se encaixa nessa lógica e, ao final, a impressão que fica é a de um filme 'bacaninha', mas que faltou se aprofundar nas questões levantadas, e que resultou tão esquemático quanto seus personagens. O que é uma pena, pois havia um grande potencial aí.


por Melissa Lipinski


sábado, 12 de novembro de 2011

Dez Invernos

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Dez Invernos (Dieci Inverni, 2009)

Estreia oficial: 10 de dezembro de 2009
Estreia no Brasil: sem data prevista
IMDb



Essa história de amor que se passa na charmosa Veneza durante - como diz o título - dez invernos, abusa da paciência do espectador, pois além de deveras previsível, conta com personagens mal construídos e sem carisma algum.

Ao se conhecerem por acaso numa balsa, Camilla (Isabela Ragonese), recém chegada de sua cidadezinha para estudar literatura russa em Veneza; e Sylvestre (Michele Riondino), que está perdido na vida, vão tecendo um relacionamento que inicia apenas por encontros ao acaso, torna-se uma amizade à distância, para depois se transformar em um forte sentimento de amizade que, naturalmente, evolui para um amor desencontrado, já que ambos, hora ou outra, envolvem-se com outras pessoas.

Já no início, quando somos apresentados aos dois personagens, as situações soam forçadas demais, inverossímeis, o que dificulta acreditarmos no interesse que surge entre eles. E, à medida que a narrativa avança, não só Camilla e Sylvestre não são melhores construídos, como há a inclusão de novos personagens que aparecem ou desaparecem, e envolvem-se com os protagonistas de forma abrupta e mal explicada.

Abrupta também são as elipses temporais. Como a história acontece apenas em invernos, a passagem de tempo sempre parece entrecortada, e prejudica o ritmo do longa. Como as elipses são longas demais, as transformações que os personagens sofrem durante elas são muitas, o que também dificulta o entendimento de suas ações, já que algumas, até contradizem o que havia sido mostrado até então.

Com uma fotografia que não consegue explorar devidamente as belas locações onde a história acontece (principalmente Veneza e Moscou), "Dez Invernos" acaba soando burocrático e esquemático demais. Sem inovar ou deleitar os olhos do espectador.

O diretor estreante, Valerio Mieli (que também divide a autoria do roteiro com Davide Lantieri e Isabella Aguilar), também não consegue uma boa atuação de seu elenco, o que também acaba prejudicando o andamento da narrativa, e fazendo-a soar um tanto quanto piegas até.

Enfim, "Dez Invernos" é aquele filme regular. Não chega a ser um embaraço, mas seus defeitos conseguem sobrepor-se às suas qualidades, e isso nunca é bom.


por Melissa Lipinski


OBS: Comentário escrito durante a 35ª Mostra Intrnacional de Cinema de São Paulo.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Veneza

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Veneza (Wenecja, 2010)

Estreia oficial: 11 de junho de 2010
Estreia no Brasil: ainda sem data prevista
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"Veneza", do polonês Jan Jakub Kolski, é uma fábula infanto-juvenil densa, que tem como pano de fundo a Polônia invadida pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial.

O roteiro, do próprio Kolski, conta a história de Marek (Marcin Walewski), um menino de 11 anos cujo maior sonho é conhecer, como diz o título, Veneza. Estudando em um colégio interno, e com pais mais interessados nos privilégios que seu alto poder econômico lhes proporciona do que nos próprios filhos (Marek tem um irmão mais velho, Wiktor, interpretado por Filip Piotrowicz), Marek se vê ainda mais longe do seu sonho quando a guerra se intensifica, e sua família abriga-se em sua grande casa no interior do país, que sua tia Weronika (Grazyna Blecka-Kolska) toma conta.

É para esta grande residência que dirigem-se outras duas irmãs de sua mãe, algumas primas e sua avó; além do caseiro, seu filho (ambos judeus) e uma moça que ajuda a cuidar da casa. Entre idas e vindas dos familiares (que constantemente saem para a guerra ou para a cidade), o porão da casa inunda, e Marek cria sua própria versão da tão sonhada cidade italiana. Para poupar as crianças da dura realidade que toma conta do país (sempre há soldados alemães nas redondezas), as tias do garoto também embarcam em sua fantasia.

Kolski (assim como Guillermo del Toro fazia em "O Labirinto do Fauno", de 2006) investe em um mundo fantástico criado por uma criança para fugir da bruta realidade que a guerra lhe impõe. E, assim como no filme de del Toro, a sensibilidade, pureza e inocência das crianças são combinadas com momentos da mais cruel brutalidade que uma guerra pode afligir. Além disso, o diretor ainda encontra espaço para questionar e abordar outros temas relevantes que servem de fundo para a história principal, como o preconceito contra os judeus, problemas familiares, amor materno e a transição da infância para a adolescência.

Com uma imensa sensibilidade, Kolski e o fotógrafo Arthur Reinhart criam planos belíssimos, com movimentos de câmera elegantes e até mesmo inusitados. Ajudados ainda pelas belíssimas locações, criam uma ambientação que reitera ainda mais o tom fabulesco do longa.

Apesar do início um pouco confuso (quando a grande quantidade de personagens entra em cena), o diretor vai dando o tempo necessário para que todos se desenvolvam, ainda que em maior ou menor escala. Porém o grande número de subtramas acaba fazendo com que o ritmo do filme resulte um pouco irregular, e sem tempo para se aprofundar devidamente em cada uma delas.

Porém, a trama central guiada por Marek costura todas as demais. E, ao final, é a história deste pequeno sonhador que fica gravada na memória. Uma história linda e melancólica, que emociona pela sua fantasia idealizadora de felicidade e sua dura realidade de tristezas.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


OBS: Comentário escrito durante a 35ª Mostra Intrnacional de Cinema de São Paulo.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Hiroshima: Um Musical Silencioso

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Hiroshima: Um Musical Silencioso (Hiroshima, 2009)

Estreia oficial: 12 de novembro de 2009
Estreia no Brasil: 07 de outubro de 2011
IMDb



Pablo Stoll já escreveu e dirigiu três longas-metragem. Dois deles, "25 Watts" (2001) e "Whisky" (2004), em parceria com Juan Pablo Rebella (que morreu aos 32 anos em 2006, quando cometeu suicídio). E parece que era justamente essa parceria que dava certo, já que os filmes resultantes dela eram realmente bons; porém esse "Hiroshima: Um Musical Silencioso" decepciona.

Realizado como um filme caseiro, "Hiroshima" tem como protagonistas os parentes próximos de Stoll (nem os nomes não foram mudados). A trama acompanha Juan Andrés Stoll em um cotidiano entediante. Não há muito o que falar, a história simplesmente segue os passos do protagonista no que seria um dia qualquer de sua ordinária vida.

Chama a atenção (mesmo sem uma justificativa aparente), a escolha em expressar os diálogos por meio de cartelas (como um filme mudo), ainda que os sons ambientes e a trilha musical estejam presentes. É fato que os diálogos são altamente descartáveis nesta história, inclusive as próprias cartelas que, além do experimentalismo, não se justificam.

A trama é quase que um 'road-movie' dentro de Montevidéu, porém soa episódica demais, sem mostrar nenhuma correlação entre os fatos. Assim, pessoas e acontecimentos passam pela vida de Juan sem nunca parecer afetá-lo ou despertar qualquer sentimento no rapaz, que está sempre impassível a tudo e a todos.

Não sei, talvez eu é que não tenha conseguido "entrar" no clima do filme. E, apesar de algumas cenas interessantes como o embate entre pai e filho que lembra um western; ou a sequência em que Juan e a namorada lancham em frente a um hospital enquanto os figurantes realizam suas ações repetidamente atrás deles; de modo geral o filme me pareceu tão sem sentido quanto seu protagonista. Um projeto tão pessoal de Stoll que parece não se conectar com as demais pessoas (assim como seu personagem). Bom, talvez o filme seja mesmo o reflexo de uma experiência traumática na vida do cineasta, depois do suicídio de seu parceiro de trabalho e amigo.

Mas o fato é que resultou pessoal demais. E impessoal demais.


por Melissa Lipinski


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A Pele que Habito

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Pele que Habito, A (La Piel que Habito, 2011)

Estreia oficial: 17 de agosto de 2011
Estreia no Brasil: 4 de novebro de 2011
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Pedro Almodóvar é um cineasta obcecado pelo universo feminino. Mesmo tendo produzido filmes tão diferentes entre si como "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988), "Ata-Me!" (1990), "Kika" (1993), "A Flor do Meu Segredo" (1995), "Carne Trêmula" (1997), "Tudo Sobre Minha Mãe" (1999), "Fale com Ela" (2002), "Má Educação" (2004), "Volver" (2006) e "Abraços Partidos" (2009), há sempre um tema que envolve feminilidade nestas produções. Em "A Pele que Habito", obviamente, não poderia ser diferente. E, se em "Tudo Sobre a Minha Mãe", "Fale com Ela" e "Má Educação", o cineasta já abordava o lado feminino existente em todo homem, aqui Almodóvar vai ainda mais longe, e literalmente transforma um homem em mulher (sim, spoiler!).

Porém, se o assunto é recorrente, a forma como o cineasta o aborda é algo novo em sua cinematografia. A partir do livro "Tarantula", de Thierry Jonquet, Almodóvar escreveu um roteiro repleto de suspense, tensão e violência. Porém, não uma violência física escrachada na tela; mas uma violência contida, presente em toda a ambientação das cenas, expressa na construção dos planos, desde os menores objetos (como uma navalha, por exemplo, que aparentemente serve apenas para barbear) até as frases enigmáticas ditas por seus personagens. É um terror psicológico, criado não em cima de sustos, mas a partir de um mal estar; pintado com características 'almodovarianas' que tão bem conhecemos, com doses de absurdos e exageros.

Porém, se o tom do filme sugere um longa típico de Almodóvar, o mesmo não se pode dizer de sua estética. Preferindo cores mais frias às habituais cores fortes e quentes que utiliza, "A Pele que Habito" ainda conta com uma direção de arte impecável que, aliada à bela fotografia de José Luis Alcaine, ajudam a construir a sensação de incômodo transmitida pela história.

Conseguindo manter o ritmo (e a tensão) do início ao fim, Almodóvar acerta ao contar sua história de forma não cronológica, desvendando aos poucos a origem de cada personagem, cada ação, e cada ligação entre eles. E as elegantes 'rimas' visuais que o cineasta cria - por exemplo ao vermos Vicente (Jan Cormet) vestindo um manequim da mesma forma que fará posteriormente com Norma (Blanca Suárez); ou o jeito como o mesmo Vicente costura retalhos em um busto, que será idêntico ao que outra personagem costurará seus próprios retalhos - enriquecem ainda mais a sua obra, além de dar pistas ao espectador do que está por vir.

Há ainda o grande elenco, que conta com belíssimas atuações (e composições de personagens) de Antonio Banderas, que domina o filme de forma madura e centrada (apesar de seu personagem não apresentar esta característica); da bela Elena Anaya, com uma aparente fragilidade que esconde seu verdadeiro 'eu'; e ainda de Jan Cornet, Blanca Suárez e Marisa Paredes (antiga colaboradora de Almodóvar), que acabam se destacando nos auges dramáticos de seus respectivos personagens.

Enfim, "A Pele que Habito" transita entre o horrível e o belíssimo. Aliás, transformar atos horrendos em momentos de extrema sensibilidade, sem deixar de causar estranhamento ou incômodo, é algo que só Pedro Almodóvar poderia fazer. E fez.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Palhaço

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Palhaço, O (2011)

Estreia oficial | no Brasil: 28 de outubro de 2011
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Depois de assistir a este "O Palhaço", constato que Selton Mello não é mais um bom ator…

Neste seu segundo longa como diretor (em ambos divide a coautoria do roteiro com Marcelo Vindicato), Mello cria uma espécie de road movie melancólico e doce ao mesmo tempo, habitado por personagens fascinantes.

Acompanhando as viagens do pequeno circo Esperança, o roteiro apresenta, logo de cara, os integrantes da trupe, encabeçada pelos palhaços Puro Sangue (Paulo José) e Pangaré (Selton Mello) durante um espetáculo que já prenuncia o tom de toda narrativa: apesar de se tratar de um circo, e provocar o riso nos espectadores (tanto os do circo, como os do filme), há um certo ar de tristeza que envolve todo aquele show. E Selton Mello já acerta desde o início em mostrar os poucos artistas se desdobrando em funções também nos bastidores enquanto os números acontecem. E, ao focar as reações destes integrantes, o diretor já estabelece, desde a primeira cena, a proximidade entre eles e o espectador.

Esses planos centrados nos personagens mostram o quanto o diretor/roteirista preza por eles e pelo seu ofício. Mas não só os artistas do circo merecem tal carinho, já que quase todos os personagens que cruzam o caminho destes protagonistas aparecem (por vezes) voltados para a câmera, como que falassem diretamente com o público - e isso acontece com os gêmeos mecânicos interpretados por Tonico Pereira; o funcionário que faz carteiras de identidade feito por Ferrugem; o delegado de Moacyr Franco; entre outros. Aliás, ao resgatar personalidades como Moacyr Franco, Jorge Loredo e Ferrugem, Selton Mello demonstra um imenso respeito e admiração pela cultura e comédia nacional.

Mas o mais tocante do filme de Mello é notar com que delicadeza o diretor trabalha os bastidores do pequeno circo e a dúvida que se abate sobre seu líder, Benjamin (ou Pangaré), belamente retratada no paralelo que se cria com um ventilador.

E o grande mérito do longa é contar com atuações não só competentes, mas marcantes. Não apenas as de atores consagrados, mas de todos do elenco que, em algum momento ou outro, ganham tanta importância quanto o protagonista Benjamin. Mas certamente Selton Mello compõe seu personagem com graça e tristeza em iguais medidas. E claro, há sempre a presença marcante de Paulo José, que apenas em um olhar consegue expressar muita coisa (e a cena do espetáculo final é a prova indelével disto).

Contando ainda com uma belíssima fotografia, e uma direção de arte impecável (capaz de criar ambientes tão expressivos quanto os personagens que neles habitam), Mello e a montadora Marilia Moraes conseguem imprimir um ótimo ritmo ao longa, que tem seu ápice no espetáculo circense final - que embora semelhante em quase tudo ao espetáculo de abertura do filme, tem um tom totalmente diferente ao retratar o estado de espírito tanto de Benjamin quanto o da verdadeira 'dona' da história, a garotinha Guilhermina (Larissa Manoela).

Enfim, como ia dizendo lá no primeiro parágrafo, Selton Mello não é mais apenas um bom ator. Depois de dois longas totalmente distintos entre si, ele também já deixou de ser um diretor promissor e se firmou como um ótimo cineasta.

Com o perdão do trocadilho, esse filme é um espetáculo! Fica a dica!


por Melissa Lipinski