sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Sabrina

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Sabrina (1954)

Estreia oficial: 22 de setembro de 1954
IMDb



"Sabrina" foi o décimo longa dirigido por Billy Wilder em sua fase estadunidense. E, se o cineasta já havia flertado com a comédia romântica em alguns de seus longas anteriores como "A Incrível Suzana", "A Valsa do Imperador" e "A Mundana"; foi com o filme protagonizado por Audrey Hepburn, Humphrey Bogart e William Holden que Wilder chegou ao seu melhor exemplar do gênero.

Sabrina Fairchild (Hepburn) é filha do motorista de uma rica família, os Larrabee. Ela sempre nutriu uma paixão não correspondida por um dos irmãos Larrrabee, o mais novo, David (Holden). Depois de passar dois anos estudando culinária em Paris, Sabrina retorna diferente: sofisticada e elegante. Então, imediatamente chama a atenção do mulherengo David, que já está noivo - num casamento que favorecerá os negócios de sua família. É então que o seu irmão mais velho, Linus (Bogart) entra em campo: para evitar que o tal negócio não seja colocado em risco, ele finge interessar-se por Sabrina, fazendo com que ela mesma fique em dúvida sobre qual dos irmãos ama de verdade.

Baseado numa peça teatral, Wilder chamou o seu próprio autor, Samuel A. Taylor, além de Ernest Lehman para ajudarem-no a escrever o roteiro. E a história não passa do velho conto da Cinderela transposto para a alta sociedade estadunidense.

Porém aqui, não é o roteiro quem faz a diferença, já que sabemos de antemão exatamente o que acontecerá àqueles personagens - claro que os bons diálogos colaboram (ainda mais as ácidas falas ditas pelo pai de Sabrina; ou as cínicas tiradas de Linus); mas o 'toque de Midas' desta comédia romântica é o seu afiado elenco e a química estabelecida entre os três protagonistas.

Este foi o segundo longa da atriz belga como protagonista e ela recém havia ganho um Oscar por "A Princesa e o Plebeu" (de 1953). E Audrey Hepburn empresta doçura, fragilidade e insegurança na medida certa à personagem-título. Humphrey Bogart confere a virilidade que lhe era habitual a Linus, em um personagem bastante diferente do que estava acostumado a fazer - até há um ar cínico nos primeiros momentos em que aparece, mas logo notamos que a sua frieza serve de proteção para um homem que se utilizou dessa característica para tomar conta dos negócios da família, abrindo mão de qualquer outro sentimento ou interesse particular. Porém, quando passa a conviver com Sabrina e se descobre apaixonado pela moça, a confusão pela qual ele passa é nítida, ainda que ele relute para tentar escondê-la. Já William Holden (em sua terceira colaboração com Wilder, depois de "Crepúsculo dos Deuses" e "Inferno Nº 17"), é o oposto de Linus: encantador e sedutor desde sua primeira aparição, o carisma do ator é inquestionável, e fica impossível ao espectador não sucumbir aos seus encantos (e entendemos perfeitamente Sabrina), por mais que, tanto ela como nós, saibamos de seus 'deslizes' de personalidade.

Assim, Billy Wilder transforma uma comédia romântica previsível, em um delicioso, fluido e divertido passatempo, coroado com seu estilo único e inconfundível de humor. Destaque também para a bela trilha sonora, cuja principal música "La Vie en Rose" (a canção composta e imortalizada por Édith Piaf) ganha uma versão cantada 'in loco' por Audrey Hepburn. Adorável!

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Inferno Nº 17

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Inferno Nº 17 (Stalag 17, 1953)

Estreia oficial: 29 de maio de 1953
Estreia no Brasil: 10 de agosto de 1953
IMDb



"Inferno Nº 17" é um filme de guerra cuja trama se passa inteiramente dentro de um campo de prisioneiros durande a Segunda Guerra Mundial. Porém, o grande diferencial aqui é a sua pitada de humor. Não um humor hilário, mas sim, seco, cínico, ou seja, daquele inerente a Billy Wilder.

O roteiro escrito por Wilder e Edwin Blum (baseado em uma peça de teatro), começa justamente com seu narrador, Cookie (Gil Stratton), apresentando o próprio filme: "não sei quanto a vocês, mas eu sempre fico mal quando assisto a filmes de guerra. (…) O problema é que nunca fazem filmes sobre PDG (prisioneiros de guerra)". A partir daí, conhecemos os protagonistas dessa história, que gira principalmente em torno de descobrir quem seria o espião alemão dentro do galpão onde todos eles ficam presos. E, dentre as principais figuras ali confinadas estão Sefton (William Holden), o negociante do local; Hoffy (Richard Erdman), o chefe do galpão; seu segurança, Price (Peter Graves); e os engraçadinhos Animal (Robert Strauss) e Harry Shapiro (Harvey Lembeck).

Claro que o principal suspeito de traição será Sefton, já que, através de suas habilidades de negociação, consegue regalias que seus companheiros de prisão não compreendem. O clima de traição aumenta quando um novo prisioneiro do campo, o tenente Dunbar (Don Taylor), é ameaçado ser condenado por sabotagem a um trem nazista. Assim, para provar sua inocência, o próprio Sefton começa a investigar quem seria o tal espião que delata todo e qualquer movimento dos prisioneiros aos oficiais alemães.

O clima que Wilder emprega ao longa é o da camaradagem: todos ali, prisioneiros de guerra, confraternizam e bolam seus estratagemas em conjunto. Quando um elemento entra em dissonância com o grupo - Sefton - ele logo é acusado, e o clima passa a ser de tensão. Claro que há a tensão própria pela presença dos oficiais nazistas, mas a principal é dada pelo clima de traição que impera dentro do galpão.

Mas há sempre espaço para o humor. Um humor triste, é verdade, forçado - mas como esperar algo diferente de homens que presenciaram o horror da guerra e encontram-se confinados em condições terríveis? E as piadas e os momentos de descontração não têm o propósito de fazer o espectador gargalhar, mas sim chamar a atenção para a dureza e o absurdo da realidade daqueles homens.

Mas todas essas emoções só são bem sucedidas graças ao ótimo elenco que Wilder tinha nas mãos. William Holden (que já havia trabalhado com o diretor em "Crepúsculo dos Deuses") é a força-motriz do longa, com um personagem que não faz questão de ser simpático, já que seu cinismo é o principal motivo por manter seus companheiros afastados; porém, como o público sabe de antemão de sua inocência, a identificação com ele, injustiçado, torna-se imediata. Já Robert Strauss e Harvey Lembeck saem-se bem como a dupla de 'palhaços' do campo, cujas tiradas, como falei, têm uma função bem mais importante no roteiro do que apenas a risada pura e simplesmente. Há que se destacar a presença do excelente diretor Otto Preminger como o oficial nazista chefe do Stalag 17, Oberst von Scherbach; suas rápidas aparições roubam a cena devido a seu enorme carisma, além de sua composição caricata que, propositalmente, beira o ridículo - vale lembrar que, assim como Wilder, Preminger também era austríaco e judeu, e fora para os Estados Unidos fugindo da sombra nazista que já 'rondava' seu país antes mesmo da eclosão da guerra; os cineastas também brincam aqui com a fama de Preminger, conhecido por ser rude e desagradável com seus atores - é como se o seu oficial nazista fosse uma paródia dele mesmo.

Assim, Wilder criava mais um clássico do cinema. Um retrato cínico e realista sobre uma guerra que causou a ele mesmo perdas familiares, desespero e dor. Um drama de guerra que não mostra bombardeios, explosões ou conflitos grandiosos, mas que tem em seus personagens e nas relações entre estes o seu grande trunfo. Poderoso.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


   

   

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Espião que Sabia Demais

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Espião que Sabia Demais, O (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011)

Estreia oficial: 16 de setembro de 2011
Estreia no Brasil: 13 de janeiro de 2012
IMDb



"O Espião que Sabia Demais" passa-se em plena Guerra Fria, tendo como foco o MI6, serviço de inteligência britânico. Posicionando-se entre o conflito entre Estados Unidos (CIA) e a União Soviética (KGB), o MI6 tenta, a todo custo, conseguir informações privilegiadas que o coloquem em uma posição de destaque. E, se não bastasse toda essa tensão, o serviço secreto de sua majestade ainda tem que lidar com a traição dentro da sua própria equipe.

O roteiro escrito por Peter Straughan e Bridget O' Connor (baseado no romance homônimo de John le Carré) aborda justamente essas duas frentes. Logo no início vemos o agente Jim Prideaux (Mark Strong) em uma missão em Budapeste, tentando descobrir informações sobre quem seria o agente duplo dentro do MI6. Como a operação fracassa, seu chefe, Control (John Hurt), e seu braço direito, Smiley (Gary Oldman) são afastados do comando do MI6, que passa a ser dirigido por  Percy Alleline (Toby Jones), Toby Esterhase (David Dencik), Roy Bland (Ciarán Hinds) e Bill Haydon (Colin Firth). Porém, logo Smiley é chamado pelo governo britânico para que, secretamente, investigue a identidade do tal agente duplo; enquanto os atuais mandantes do serviço secreto tentam convencer o primeiro-ministro a apoiá-los em uma grande missão onde, supostamente, conseguirão informações valiosas sobre os planos da KGB.

O tom da narrativa imposto pelo diretor sueco Tomas Alfredson é sempre melancólico. Não só pela constante atmosfera de traição que cria, como também corroborado pela ótima paleta de cores, em tons de marrom, criada pelo diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema; que também mantém a maioria das cenas envolta em névoas, intensificando o clima frio que ronda os personagens.

Tal clima é intensificado pela excelente direção de arte, que cria ambientes que dizem muito a respeito dos personagens. Os detalhes nas composições vão desde a ambientação das salas do MI6 até a escolha dos figurinos dos personagens. A sala de reuniões do comando do serviço secreto é um espetáculo à parte, com suas paredes revestidas com material à prova de som, e que criam um ambiente tão opressivo quanto minimalista, sem deixar de ambientar a época em que o filme se passa.

Conseguindo conduzir a intrincada trama com segurança, Alfredson e seu montador Dino Jonsäter. optam por uma narrativa não linear, que vai e volta no tempo com fluidez, sem nunca soar confusa. Porém, a espionagem que se vê neste "O Espião que Sabia Demais", em nada remete àqueles filmes de ação à la James Bond. Aqui, o jogo todo é psicológico, realizado por indivíduos mais velhos, que aparentam constante cansaço, treinados durante uma vida inteira, e que há muito desistiram de qualquer tentativa em manter uma vida pessoal (até o envolvimento 'romântico' de determinados personagens revela-se parte do jogo político).

E dentre todos estes agentes o foco, é claro, recai sobre Smiley, e o longa de Alfredson mostra-se um excelente estudo de personagem. E a atuação magistral de Gary Oldman é peça fundamental para isso. Sempre comedido e tendo absoluto controle de suas emoções, Smiley sempre aparece de forma oposta ao que seu nome sugere ('sorridente'). Ator acostumado a arroubos de interpretação, tal discrição de seu personagem chama ainda mais a atenção e comprova o enorme talento de Oldman. É admirável, por exemplo, a contenção de qualquer emoção na cena em que Smiley recebe a notícia de que será afastado do MI6; ou naquela em que flagra a traição de sua esposa; ou ainda, quando demonstra todo seu preparo e eficiência como agente, na sequência em que, dentro de um carro, uma mosca voando atrapalha a todos que insistem em espantá-la - porém, esperando o momento certo, Smiley simplesmente abre a janela para que ela saia dali. Uma belíssima síntese da personalidade do agente.

Contando ainda com subtramas que resumem com excelência o espírito do filme: sacrifícios de vidas pessoais em prol de um bem maior, "O Espião que Sabia Demais" pode até não agradar ao grande público pelo seu ritmo lento, que traduz a atmosfera fria e altamente bem calculada da trama. Porém mostra que espionagem não era (e nem o é atualmente) feita apenas com perseguições e tiroteios, mas principalmente por aqueles que detêm a técnica e a paciência em um jogo de inteligência.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski



A Montanha dos Sete Abutres

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Montanha dos Sete Abutres, A (Ace in the Hole, 1951)

Estreia oficial: 29 de junho de 1951
IMDb



"A Montanha dos Sete Abutres" é um filme que continua atual até hoje, pois fala do caráter sensacionalista e extremamente comercial, anti-ético e inescrupuloso com que a mídia trata os acontecimentos em geral. E é incrível como um filme com mais de 60 anos consegue dialogar com o presente de forma tão crítica.

O roteiro de Billy Wilder, Lesser Samuels e Walter Newman conta como Chuck Tatum (Kirk Douglas), jornalista com uma má reputacão pelas grandes cidades por onde passou e em seus jornais de grande circulação, acaba parando em uma pequena cidadezinha do Novo México e conseguindo emprego em uma discreta redação. 'Empacado' por lá há um ano, Tatum vê num minerador (Richard Benedict) que ficou soterrado em uma montanha a chance de voltar aos grandes veículos de comunicação. Para isso, manipula o xerife local (Ray Teal), a esposa do rapaz preso, Lorraine (Jan Sterling), e os engenheiros locais para atrasar ao máximo o resgate do sujeito e assim, fazer um verdadeiro 'carnaval' a respeito do assunto, pois como ele mesmo diz em certo momento: "um homem preso numa mina é melhor do que 84. Você lê sobre 84 pessoas, ou sobre um milhão, como na fome da China, e esquece. Mas um homem é diferente: você quer saber tudo sobre ele". E Tatum utiliza dessa máxima para se tornar o único que tem acesso ao rapaz preso, Leo, e portanto, concentra (e manipula) as informações. Aos poucos, um incidente local que poderia ser resolvido em dois dias, transforma-se em um espetáculo nacional, arrastando-se por mais de uma semana.

Como não poderia deixar de ser em um filme 'wilderiano', os diálogos são inteligentes, ágeis e repletos de cinismo e duplo sentido. Tatum fala para seu novo chefe quando está sendo contratado: "eu já menti para homens que usam cintos e também para homens que usam suspensórios, mas não seria estúpido a ponto de mentir para um homem que usa cinto e suspensórios". E, se a frase pode não representar muito a princípio, aliada à excelente composicão do figurino do protagonista, torna-se quase que um marco do longa. A princípio inescrupuloso e sem qualquer traço aparente de caráter, não se nota em Tatum nem um dos acessórios que ele cita ao patrão (pelo menos não de forma saliente); porém, à medida em que os acontecimentos que ele provocara começam a fugir do seu controle, ele passa a usar tanto cinto como suspensório, numa clara alusão de que está mudando sua maneira de ver as coisas, com um certo senso de moral.

Mas engana-se quem acha que o longa de Wilder é um filme de redenção. Por mais que Tatum, de certa forma, arrependa-se do que fez; suas ações deixam marcas que jamais poderão ser apagadas. Já Lorraine parece não sentir remorso algum: para ela que "não reza para não desfiar suas meias", o fato do marido ter ficado preso na montanha representa apenas uma forma de melhorar os negócios, já que o alarde feito pelo jornalista começa a atrair curiosos de todas as partes do país - inclusive um circo é montado aos pés da tal montanha, para entreter quem ali espera ver Leo ser resgatado.

É Wilder criticando não só a mídia, mas a vontade que o povo sente pelas notícias fantasiosas e sensacionalistas. E o cineasta toca fundo na ferida e não poupa ninguém: nem o xerife que vê a chance de alavancar mais uma candidatura; nem os oportunistas de plantão, que surgem cobrando por doces, brinquedos e até músicas compostas para o resgate; nem a família humilde e 'inocente', que está ali apenas para 'observar'. E ver uma multidão saltando histérica de um trem apenas para ficar olhando uma montanha sendo escavada deixa de ser engraçado e passa a ser assombroso.

Fazendo um minucioso estudo sobre a natureza humana, "A Montanha dos Sete Abutres" ainda traz excelentes atuações. Kirk Douglas e Jan Sterling conseguem o mais difícil: provocar a antipatia imediata no espectador, o que torna-se essencial para que o filme 'funcione'.

"O circo acabou", grita Tatum ao final, frustrando a turba de observadores. Infelizmente, e como Billy Wilder bem o sabia, o tal circo jamais acabará…

Fica a dica!


por Melissa Lipinski



terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Oscar: Todas as edições


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras (Sherlock Holmes: A Game of Shadows, 2011)

Estreia Original: 16 de dezembro de 2011
Estreia no Brasil: 13 de janeiro de 2012
IMDb



"Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras" repete praticamente tudo o que funcionava no seu longa original, da parte técnica a detalhes do roteiro. A grande diferença aqui, é que finalmente temos um vilão com inteligência à altura do astuto detetive da Rua Baker.

Escrito por Michele e Kieran Mulroney, o roteiro começa exatamente onde o primeiro filme havia parado: Watson (Jude Law) está prestes a casar com Mary (Kelly Reilly), e Holmes (Robert Downey Jr.), inconformado com a decisão do companheiro de trabalho e aventuras, está afundando-se cada vez mais em suas neuroses. Neste contexto, Holmes descobre os planos do Professor James Moriarty (Jared Harris) que, jogando uma nação européia contra a outra, está prestes a antecipar o que viria a ser a Primeira Guerra Mundial (note-se que a trama se passa no final do século XIX). Mas, para conseguir impedi-lo, Holmes terá que contar com a ajuda não só do seu braço direito, Watson, mas também da cigana Simza (Noomi Rapace), cujo irmão, um fanático anarquista, juntou-se ao vilão.

O diretor Guy Ritchie mostra-se sem inspiração em compor algo novo - ou simplesmente preguiçoso - repetindo os mesmos efeitos do longa de 2009. E as sequências que, na época, eram inspiradas; agora soam apenas como repetições que, sim, funcionam (como já funcionavam), mas não encantam. Há as antecipações que o herói faz frente a alguns conflitos 'mano a mano' com seus adversários; e a cena clímax de ação que intercala câmera lenta, câmera rápida, movimentos circulares de câmera, e explosões em sequência.

Na verdade, Ritchie aposta novamente na montagem frenética para dar ritmo à narrativa, principalmente nas cenas de ação. E se essas sequências conferem um ritmo acelerado ao longa (o que é praxe na filmografia do diretor), os vários flashbacks acabam sabotando-o, frequentemente tornando-o mais lento e arrastado. E, se esses momentos, por mais que em sua maioria sirvam para elucidar o pensamento brilhante de Sherlock Holmes; em parte soam desnecessários por apenas mostrarem o que acontecerá nas cenas seguintes, revelando-se repetitivos.

Novamente destacando-se por sua excelente parte técnica - não só nas sequências de ação como já enfatizei, o longa de Guy Ritchie ainda conta com uma belíssima direção de arte, que recria de forma impecável (ainda que digitalmente) o visual de cidades como Londres, Paris e Estrasburgo no final do século XIX; além dos belos figurinos: e ver uma maquiagem 'tosca' ser utilizada por Sherlock Holmes em seus disfarces apenas dá maior verossimilhança à história.

Mas o filme torna-se superior pelas suas atuações. Robert Downey Jr. parece estar se divertindo mais do que nunca, e dá o tom certo de cinismo e genialidade ao detetive; e Jude Law confere seriedade a Watson - sem mencionar a química entre eles, que continua fantástica. Mas é mesmo Jared Harris como o também genial Professor Moriarty quem rouba a cena, com seu olhar sempre superior, mas que não hesita em demonstrar a admiração que sente pelo seu rival. Aliás, as cenas em que Harris e Downey Jr. contracenam são as que realmente fazem o longa valer a pena: destaque para o confronto final entre os dois, onde o embate imaginário entre eles demonstra um raro momento de inspiração do roteiro.

Fechando o elenco há a ótima participação de Stephen Fry como Mycroft, irmão mais velho e igualmente genial de Sherlock; o maior envolvimento de Kelly Reilly na trama, que demonstra uma faceta inesperada de Mary; e o mal aproveitamento da excelente atriz sueca Noomi Rapace como Madame Simza.

Enfim, se esse "Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras" não inova, ao menos mostra que seus personagens não perderam o enorme carisma, tornando-se um entretenimento que, ao contrário do que acontecia no longa anterior, pelo menos consegue nos fazer acreditar na genialidade de seu protagonista, já que, ao longo de toda a narrativa, somos apresentados aos elementos que, ao final, levam-no a tirar as suas brilhantes conclusões.


por Melissa Lipinski


sábado, 21 de janeiro de 2012

Crepúsculo dos Deuses

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Crepúsculo dos Deuses (Sunset Blvd., 1950)

Estreia oficial: 10 de agosto de 1950
IMDb



"Crepúsculo dos Deuses" foi a última parceria entre Billy Wilder e Charles Brackett. E que ocaso!!! A dupla que rendeu roteiros como "Ninotchka", e outros filmes dirigidos por Wilder como "Cinco Covas no Egito" e "Farrapo Humano", chegaria ao fim com sua maior obra. Uma espetacular obra-prima não só do Cinema, mas que também fala criticamente sobre o cinema, mais especificamente sobre Hollywood.

O roteiro de Brackett, Wilder e D. M. Marshman já começa de forma surpreendente. Não me recordo de um filme anterior a este que tenha uma narração em off do personagem já morto (bom, Machado de Assis já o fizera, mas na literatura, em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"). Joe Gillis (William Holden) é um roteirista falido, que passa por uma crise de criatividade e está prestes a perder o seu carro. Tentando fugir de seus credores, ele acaba escondendo-se na garagem de uma antiga mansão no tal Sunset Boulevard (do título original). Ao contrário do que imaginara a princípio, a casa não estava abandonada, mas habitada por duas curiosas criaturas: uma antiga estrela do cinema mudo, Norma Desmond (Gloria Swanson); e seu mordomo Max (Erich von Stroheim), que acabará mostrando-se ser bem mais do que um simples serviçal. A partir daí, cria-se uma ligação entre Norma e Joe, já que esta o contrata para lapidar um roteiro que ela escrevera, baseado em "Salomé", e que, acredita, vai lhe proporcionar seu retorno às telas. Precisando de dinheiro, Joe aceita a proposta, indo também morar na casa de Norma. E é a partir daí que um estranho relacionamento se estabelecerá entre os dois. Enquanto escreve para Norma, porém, Joe começará a se envolver com a aspirante a roteirista Betty Schaefer (Nancy Olson).

Através da narração póstuma, "Crepúsculo dos Deuses" revela o seu final logo na primeira cena, ao mostrar um homem morto (que até então não sabemos quem é) boiando em uma piscina, em um belíssimo plano minuciosamente planejado por Billy Wilder, que jamais revela inteiramente o rosto do morto, mas nos deixa curiosos. Porém, logo em seguida, quando vemos Joe Gillis datilografando em sua máquina de escrever, nos atinamos que se trata da mesma pessoa. Mas como ele, o protagonista da história, foi parar ali? E por quê? São essas respostas que o roteiro responde de forma brilhante, voltando no tempo para, então, desacortinar todos os acontecimentos que levaram à morte de Joe.

A grande sacada de Wilder, na minha opinião, foi traçar uma linha muito tênue entre a ficção e a realidade de Hollywood e, para tanto, escalou nomes cujas trajetórias pessoais muito bem poderiam se confundir com seus próprios personagens. Gloria Swanson foi realmente uma grande estrela do cinema mudo. Erich von Stroheim também foi um diretor conhecido desta época (e que, inclusive, dirigiu Gloria Swanson). Há ainda Cecil B. DeMille interpretando ele mesmo. E, para complementar, o cineasta ainda chamou nomes como Buster Keaton, Hedda Hopper, Anna Q. Nilsson e H. B. Warner para interpretar a eles mesmos: assim como Norma, ex-atores do cinema mudo, que juntam-se a ela peridocamente para jogarem bridge. Além, é claro, de utilizar os estúdios e instalações da Paramount como cenário do filme.

Mas, seja pela proximidade com o tema - Swanson voltou a atuar justamente com "Crepúsculo dos Deuses", depois de nove anos longe do cinema - seja pelo seu talento nato, a atriz compõe uma personagem que exala superioridade e auto-confiança, uma verdadeira 'diva'. Porém essas características apenas servem para camuflar uma personalidade depressiva e repleta de amarguras. À primeira vista, Norma parece um estereótipo, uma caricatura de mulher; porém, aos poucos, vai revelando-se uma pessoa de fato. Uma atriz que não faz mais parte de seu tempo, estancada em sua própria realidade. Ela diz, muito apropriadamente: "Eu sou grande! Foram os filmes que se tornaram pequenos", num belíssimo, mas triste, reflexo que faz de si mesma.

E, se Gloria Swanson personifica a crítica do roteiro sobre Hollywood, o personagem de William Holden, Joe, é a crítica falada em alto e bom som. Suas falas, seja na narração em off ou em seus diálogos, são repletas de cinismos e alfinetadas à indústria cinematográfia estadunidense. Holden é sempre ambíguo - se, por um lado nos identificamos com sua vontade de vencer dentro de um meio profissional traiçoeiro, e perdoamos a exploração que faz de Norma; fica difícil também não odiá-lo ou repudiá-lo justamente pelos mesmos motivos - e são nesses momentos de paradoxo que o personagem cresce.

Há ainda Erich von Stroheim (que já havia trabalhado com Wilder em "Cinco Covas no Egito"), e dá o tom certo de rispidez e mistério ao mordomo Max. Complementando o elenco principal há Nancy Olson, que empresta vivacidade e ternura à sua Betty, dando frescor à narrativa e servindo de contraponto a tantos personagens conturbados. Ela seria a representação daqueles novos profissionais de Hollywood, que ainda não se corromperam pela indústria e seu manipulador sistema.

Tecnicamente "Crepúsculo dos Deuses" também é impecável. A fotografia de John F. Seitz mergulha os ambientes em sombras, num clima que remete ao noir, e dá o tom ambíguo que a trama sugere. A trilha musical de Franz Waxman emprega certos acordes dissonantes para pontuar o crescente tom incômodo da narrativa. E a minuciosa direção de arte de Hans Dreier e John Meehan recria com perfeição os diversos ambientes de uma antiga mansão, que já fora luxuosa, mas que, no tempo diegético (ou em que se passa a narrativa), mostra-se repleta de rachaduras, pinturas descascadas, e cuja suntuosidade deu lugar à decadência. O mesmo cuidado é tido com os figurinos de Norma e de Max. Uma impecável construção, cujos objetos de cena complementam a narrativa.

Há ainda a direção irretocável de Billy Wilder, orquestrando tudo isso, e que mescla momentos mais intimistas, dando tempo e espaço para valorizar seus atores e seus diálogos cuidadosamente escritos; com outros de extremo apuro técnico (sem jamais menosprezar o trabalho de seus atores), como a já citada cena da piscina; a cena em que Norma e Joe dançam em um salão vazio; ou o seu incrível final, quando Norma Desmod, do alto da escadaria de sua mansão, prestes a ser presa e totalmente alucinada por suas fantasias, desfila entre jornalistas e policiais estupefatos. "Estou pronta para o meu close-up, Sr. DeMille", ela diz. E Wilder termina sua obra-prima com o seu rosto enlouquecido e aterrorizante, deixando o espectador num misto de pavor e piedade.

Enfim, "Crepúsculo dos Deuses" pode até não ser o 'Wilder' favorito de muita gente (eu, particularmente, nunca consegui definir o meu), mas seu valor é incontestável. É a obra cinematográfica metalinguística máxima que já foi realizada. E as 5 estrelas lá de cima são poucas para classificá-lo!

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A Mundana

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Mundana, A (A Foreign Affair, 1948)

Estreia oficial: 20 de agosto de 1948
IMDb


Billy Wilder ficou conhecido internacionalmente tanto pelas grandes obras-prima que concebeu, como "Crepúsculo dos Deuses" (1950), "Quanto Mais Quente Melhor' (1959) e "Pacto de Sangue" (1944); quanto pelas ótimas comédias, sempre cínicas e provocativas. Este "A Mundana" (péssimo, mas péssimo mesmo, título nacional!) pode até não se enquadrar no primeiro grupo, mas definitivamente entra para o segundo.

Há que se considerar que o filme foi feito em 1948 - com a Segunda Guerra Mundial tendo terminado há cerca de três anos, e suas 'feridas' e destroços ainda totalmente escancaradas, além do fato de os norte-americanos serem 'os heróis' da guerra; dito isto, a produção torna-se até mais ousada do que parece à primeira vista, já que o roteiro de Wilder, Charles Brackett e Richard L. Breen é uma ácida sátira à moral estadunidense.

O roteiro tampouco poupa acusações sobre os alemães (também há que se levar em conta que Wilder era judeu, e muitos de sua família morreram durante a Segunda Guerra), ainda que os fascinates olhos de Marlene Dietrich desafiem-nos (a nós, espectadores) a julgar a ela e a seu povo. Pois como ela mesmo diz em um momento do filme: "Ainda estamos destruídos demais para sermos solidários".

Mas vamos à trama: Phoebe Frost (Jean Arthur) é uma congressista dos Estados Unidos que, junto com um grupo de congressistas, vai a Berlim para analisar a conduta moral dos soldados norte-americanos. Durante tal inspeção, ela acaba descobrindo que um oficial estadunidense tem um caso com uma cantora de cabaré ex-filiada ao partido nazista, Erika von Schluetow (Dietrich). Acontece que a congressista será auxiliada em sua invertigação pelo capitão John Pringle (John Lund), justamente o oficial a quem procura, e que, para tentar despistá-la e dissuadi-la de sua missão, tentará seduzi-la.

John Lund empresta cinismo e a dose certa de mau caratismo ao capitão Pringle. Apenas para ilustrar, ele é capaz de trocar no mercado negro um bolo de aniversário (que Phoebe Frost trouxe dos EUA enviado por uma antiga namorada dele) por um colchão para Erika. Não consigo imaginar um presente menos sutil e significativo. Lembrem-se que, nessa época, Hollywood ainda encontrava-se sob a severa conduta do Código Hays que pregava toda e qualquer 'preservação' dos bons costumes, não se podia, por exemplo, mostrar - e nem mesmo insinuar - qualquer tipo de relação sexual entre os personagens. Claro que o 'bom e velho' Wilder (assim como muitos outros diretores faziam) usava de cinismo e inteligência para driblar tal código (como o exemplo que acabei de citar).

Tal crítica à 'ilibada' moral estadunidense também está na caracterização da personagem de Jean Arthur: seus figurinos e penteados são extremamente duros e puritanos, em contraponto à sensualidade e feminilidade que exalava de Marlene Dietrich. O único momento em que Phoebe torna-se mais 'feminina' é justamente quando compra um vestido alemão, mais ousado, e acaba se soltando de suas 'amarras morais' ao beber champagne em um cabaré. É Wilder alfinetando mais uma vez, como que mostrando todo o embuste contido na tão alardeada moral americana (e que ainda vemos hoje em dia, não só nos filmes).

E Jean Arthur compõe sua Phoebe Frost com o ar necessário de puritanismo, pragmatismo e organização, sem cair na armadilha de deixá-la antipática ao público. A cena em que sua personagem é apresentada ilustra bem isso: sobrevoando Berlim no avião que está levando os congressistas até lá, ela, com uma meticulosa calma, guarda seus óculos e pertences para só depois dirigir-se à janela para ver a cidade em ruínas. A graça da cena dá-se pelo contraste: de um lado a paciência da personagem, de outro, a pressa do espectador em vê-la progredir em suas ações.

Mas o filme é mesmo de Marlene Dietrich. É como se ela possuísse um íma que atrai todo e qualquer olhar. Ela é a senhora absoluta das cenas em que aparece. Sua Erika não é uma mulher romântica (como a sua 'rival' estadunidense), ela é uma sobrevivente. E, para continuar assim, faz qualquer tipo de acordo, como o relacionamento que mantém com o capitão Pringle. Não há romance entre eles (e a cena na qual conhecemos Erika demonstra isso: quando John chega ao seu apartamento em ruínas, ela está escovando os dentes; ela então, cospe nele e, quando se aproxima, ele a puxa pelos cabelos limpando o seu rosto), apenas um acordo do qual ambos tiram vantagens: ela consegue o que quer, inclusive passe livre pelas ruas de Berlim; e ele... Bom, ele consegue Marlene Dietrich!

A atriz ainda demonstra toda sua sensualidade nas cenas em que canta no cabaré. Não são músicas alegres e que servem como diversão; são canções que transmitem a dor causada pela guerra, além de ilustrar o estado deplorável a que uma grande cidade - e seus habitantes - foi reduzida.

Claro que no final há o 'happy ending' - afinal de contas, Wilder estava produzindo em Hollywood - mas o cineasta orquestra-o com humor, numa rima visual engraçada e elegante. Mas o que vale mesmo é o seu 'recheio', que, a todo momento, caminha em uma tênue linha entre a comédia despretenciosa e a dura crítica à hipocrisia dos costumes e organizacões (Congresso e Exército) norte-americanos, além de sua visão política nada gentil a respeito dos alemães. Tudo, é claro, temperado com aqueles diálogos 'wilderianos': inteligentes, ácidos e hilários.

Enfim, "A Mundana" pode não ser uma obra-prima de Billy Wilder, mas certamente é mais uma de suas ótimas e deliciosamente críticas comédias.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A Valsa do Imperador

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Valsa do Imperador, A (The Emperor Waltz, 1948)

Estreia oficial: 30 de abril de 1948 
IMDb



"A Valsa do Imperador", escrito por Billy Wilder e Charles Brackett, acompanha Virgil Smith (Bing Crosby), um vendedor estadunidense, e seu fiel companheiro vira-latas Buttons, em sua jornada para conseguir vender um fonógrafo para o imperador austríaco Franz Joseph (Richard Haydn). Neste ínterim, eles vão conhecer a condessa Johanna von Stolzenberg-Stolzenberg (Joan Fontaine) e sua cadela Scheherazade, e, claro, ambos se apaixonarão por suas 'iguais'.

Neste seu primeiro filme colorido, Billy Wilder mais uma vez varia o gênero de seus filmes, dirigindo um musical repleto de romance e humor. E, se a história pode parecer 'bobinha' (e realmente o é), o cineasta consegue transformá-la em um entretenimento leve e divertido, além de muito bonito visualmente.

Mas claro que, tratando-se de Wilder, o humor visto aqui é inteligente e garante a qualidade do longa. Aliado a isso, o enorme talento e a ótima voz de Bing Crosby, fazendo o que sabia fazer melhor: cantando e sendo ele mesmo, garantindo naturalidade até nas mais forçadas das situações.

Joan Fontaine é o contraponto ideal para Crosby, com seu altivo e sério. E, se inicilamente ela aparenta uma mulher fria e que se acha superior, aos poucos vai 'se derretendo' pelo charme do vendedor yankee; e Fontaine é hábeil em demonstrar, com sutileza, as mudanças (previsíveis, é verdade), de sua personagem.

Ainda que os números musicais não sejam empolgantes e soem cansativos, o visual do filme, seja em suas locações 'imitando' os Alpes Austríacos ou nos grandiosos salões dos palácios do Imperador, encanta pela sua beleza e cor.

Certamente não é dos melhores filmes de Wilder, mas para quem gosta de musicais e daqueles romances antigos, inocentes mas que não menosprezam a nossa inteligência, é uma ótima pedida!


por Melissa Lipinski


   

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Os Nomes do Amor

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Nomes do Amor, Os (Le Nom des Gens, 2010)

Estreia oficial: 24 de novembro de 2010
Estreia no Brasil: 2 de dezembro de 2011


"Os Nomes do Amor" é uma peça rara: uma comédia romântica que exibe criatividade em sua narrativa, cuidado com o desenvolvimento de seus personagens, uma fotografia trabalhada 'emocionalmente' e, além de tudo, um fundo socio-político surpreendente.

Escrito pelo próprio diretor, Michel Leclerc, juntamente com Baya Kasmi, o roteiro, desde sua primeira cena, já trata de evidenciar as diferenças entre o casal protagonista, quando, olhando para câmera, eles literalmente apresentam-se: se Arthur Martin (Jacques Gamblin) tem um nome extremamente comum e uma personalidade introspectiva; Baya Benmahmoud (Sara Forestier) é uma jovem idealista, impulsiva e 'atirada', que chega a transar com homens de 'direita' afim de convertê-los politicamente. Em comum, porém, os dois trazem segredos de família: Arthur é recalcado pois jamais pode discutir com seus pais (extremamente conservadores) o passado de sua mãe - sobrevivente do Holocausto; já Baya foi molestada sexualmente quando criança, e tal assunto virou um tabu dentro de sua família liberal e engajada politicamente.

Além do cuidado minucioso dado ao desenvolvimento de seus personagens, fato que garante que o espectador se identifique e passe a torcer por eles, a narrativa comandada por Leclerc apresenta-se sempre criativa e, a cada cena, surpreende-nos de uma maneira diferente, seja mostrando as recordações dos protagonistas de forma engraçada; seja misturando os tempos narrativos; ou fazendo os personagens falarem diretamente com o espectador; ou ainda invertendo certas convenções - como na primeira cena de sexo entre Arthur e Baya, onde mostra o primeiro vestindo a moça, em vez de despi-la, num momento bastante inspirado e sensual.

Contando com atuações irretocáveis, Jacques Gamblin e Sara Forestier criam personagens adoráveis mas extremamente críveis em suas características tridimensionais, deixando os estereótipos e clichês (muito bem trabalhados por sinal) para os intérpretes de seus pais: os Martin - ultra-conservadores, preconceituosos e maníacos por tecnologia - interpretados por Jacques Boudet e Michèle Moretti; e os liberais, pró-estrangeiros, mas também preconceituosos Benmahmoud (Zinedine Soualem e Carole Franck).

Há ainda a criativa fotografia de Vincent Mathias que ilustra os momentos mais íntimos e felizes do casal com cores saturadas e contrastadas e uma textura mais granulada, que remete à imagem de uma câmera de vídeo caseira.

Tratando com um humor o tão batido tema 'opostos se atraem', "Os Nomes do Amor" ainda consegue fazer graça de situações extremamente delicadas, mostrando que, no final das contas, o que importa mesmo é subverter as regras com criatividade e talento.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski