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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Chico & Rita

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Chico & Rita (2010)

Estreia oficial: 19 de novembro de 2010
Estreia no Brasil: sem data prevista
IMDb



"Chico & Rita", dirigida por Fernando Trueba, Javier Mariscal e Tono Errando, é uma animação voltada para o público adulto e que conta uma história simples e melodramática por natureza (afinal tem-se o amor - desencontrado e sofrido - e a música como temas centrais aqui).

O roteiro de Trueba e Ignacio Martínez de Pisón conta a história do amor 'caliente' entre Chico, um exímio pianista, e Rita, uma belíssima e sensual cantora com uma voz doce, forte e melodiosa. Porém, nada será tão simples para os dois amantes, e entre idas e vindas, crises de ciúmes e traições, Havana e Nova York, a história dos dois vai se delineando através de várias décadas.

A animação, um misto da tradicional técnica 2D com a tecnologia digital, encanta com seu traço bem delimitado que recria com perfeição paisagens detalhadas das cidades onde a história se passa. A recriação das décadas de 1940 e 50, tanto em Cuba como nos Estados Unidos, é detalhista e de um notável primor. E os detalhes dos traços de Javier Mariscal são incríveis, desde um descascado numa parede de um simplório apartamento de Havana, passando pelas luzes de uma Manhattan vista de navio, até o charme e elegância das ruas de Paris, tudo finalizado com uma iluminação igualmente inspirada.

Chama a atenção também a maneira sensual porém delicada com que os realizadores retratam as cenas de sexo entre o casal. Como falei, é uma animação para adultos e há cenas bastante ousadas, mas que são conduzidas de forma nada vulgar.

E, se a história de amor entre o casal não traz nenhuma novidade e chega a recorrer a alguns clichês em seu percurso, é pontuda bela belíssima trilha musical de Bebo Valdés (músico em quem o personagem de Chico é baseado), que relembra o auge do jazz latino (uma mistura do típico jazz estadunidense com o mambo, e que teve seu expoente com os músicos cubanos que migraram para os EUA nos anos 1950).

Enfim, com um ritmo um pouco oscilante e um final um tanto quanto forçado (ainda que poético), "Chico & Rita" consegue manter-se sobretudo pela força de sua trilha musical, que com canções ora conhecidas, ora nem tanto, embalará a todos nessa aventura amorosa que vale mais pela sua jornada do que pelo seu desfecho propriamente dito.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


 
 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Gigantes de Aço

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Gigantes de Aço (Real Steel, 2011)

Estreia oficial: 7 de outubro de 2011
Estreia no Brasil: 21 de outubro de 2011
IMDb



"Gigantes de Aço" é uma versão futurista de "Falcão - O Campeão dos Campeões". Substitua Sylvester Stallone por Hugh Jackman, a queda de braço por boxe entre robôs e o garotinho enjoado do filme de 1987 por outro carismático e divertido e, voilà! Ou até poderia ser uma mistura de "Falcão" com "Rocky", sendo que o boxe dá-se entre robôs… Enfim, comparações à parte, o longa dirigido por Shawn Levy é previsível ao extremo e maniqueísta, porém surpreendentemente, conta com a dose certa de carisma de seus protagonistas e cenas de lutas impressionantes, o que tornam um passatempo bastante divertido e agradável.

A história? Bom… Em 2020, graças à sede dos espectadores por violência, o boxe deixou de ser protagonizado por humanos e passou a ser feito por robôs. E cada luta  termina com a destruição de um dos oponentes. Charlie Kenton (Jackman) é um ex-lutador que não largou o esporte, e se transformou em um controlador desses robôs. Porém, sem tino algum para os negócios, Kenton endividou-se até o último fio de cabelo e sua reputação não é lá das melhores. Nem mesmo sua fã e namorada da adolescência, Bailey (Evangeline Lilly), filha de seu ex-treinador, parece não botar mais fé no sujeito. Para piorar a situação, Charlie descobre que uma ex-namorada acaba de morrer, fazendo com que tenha que conviver com seu filho de 11 anos, Max (Dakota Goyo), com quem, até então, não mantinha contato. A partir daí, os dois vão descobrir um antigo robô em um ferro velho, Atom, e, contrariando todas as expectativas, transformá-lo em um verdadeiro lutador, contando, para isso, com a indefectível esperança de Max, e os talentos como lutador de boxe de Charlie.

O roteiro escrito por John Gatins (a partir de um conto de Richard Matheson), como falei, é repleto de clichês e, em 10 minutos de filme, já sabemos como tudo terminará. Porém, graças à dinâmica edição de Dean Zimmerman, e as mais que inspiradas lutas entre os robôs, Levy consegue imprimir um ótimo ritmo à sua narrativa, intercalando de forma balanceada cenas de maior ação, com outras mais engraçadinhas ou com um maior apelo dramático.

E são as lutas dos robôs que realmente chamam a atenção. Desde o layout de seus protagonistas, que impressionam pela verossimilhança e por seus movimentos e golpes: assim, se Atom pode sugerir emoções com seus olhos que sempre parecem tristes (chega a lembrar "O Gigante de Ferro", de 1999); o campeão mundial Zeus, em contrapartida, tem uma aparência fria e golpes mortais, que, desde sua primeira aparição não deixa dúvidas quanto à sua superioridade (tanto tecnológica quanto 'muscular', digamos assim). Até as lutas em si, que surpreendem não apenas pela violência (constantemente há braços e cabeças arrancados; com poças de óleo que se espalham como se fossem sangue), mas principalmente pelo dinamismo de sua montagem e pela qualidade de sua edição de som.

Mas grande parte do acerto de "Gigantes de Aço" também reside em seu elenco. Hugh Jackman, sempre carismático, confere o tom certo a Charlie: meio pilantra, meio boa pinta; ao mesmo tempo insuportável e irresistível. Já o garoto Dakota Goyo transforma seu Max em uma criança diferente daquelas que comumente se vê em filmes onde 'o pai ausente tem que conquistar o respeito e amor do filho'. Inteligente e decidido, ele foge do estereótipo do menino mimado e cheio de vontades. O luxo com que o menino viveu até sua mãe morrer, não serviu para transformá-lo em um desses 'pentelhos' que se vê nos filmes do gênero, mas para colocá-lo em contato com a mais alta tecnologia, fazendo-o ser o 'autor' ou 'co-autor' das ações em que se envolvem, e não apenas um 'espectador'. Mas não se enganem! A construção dos personagens não é nenhuma maravilha, e os clichês estão presentes; porém são bem administrados e 'mascarados' com uma boa dose de carisma de seus protagonistas.

Enfim, Shawn Levy conseguiu dar uma nova roupagem a fórmulas mais do que conhecidas, transformando-as em um passatempo descompromissado e divertido e que - e isso é o mais importante - não desrespeitam a inteligência do espectador.


por Melissa Lipinski


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Artista

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Artista, O (The Artist, 2011)

Estreia oficial: 12 de outubro de 2011
Estreia no Brasil: 10 de fevereiro de 2012
IMDb



Quando vemos George Valentin (Jean Dujardin), o protagonista de "O Artista", pela primeira vez, logo no início do longa, as primeiras palavras que saem da sua boca são: "Não vou falar! Não direi uma palavra". Palavras essas que, logo após serem pronunciadas sem emissão alguma de som, aparecem escritas em uma cartela. E não demora muito para descobrirmos que na verdade, esta cena faz parte de um filme protagonizado por Valentin, um renomado ator do cinema mudo em Hollywood. E assim, logo em sua primeira cena, o diretor Michel Hazanavicius dita o tom de seu filme: sim, estamos assistindo a uma versão moderna do cinema mudo, que vai falar exatamente sobre a transição deste para o falado (ou os 'talkies', como diziam na época nos Estados Unidos), e ainda repleto de metalinguagem - afinal não apenas o personagem de Geroge Valentin nega-se a dizer uma palavra, como ele próprio (personagem de Dujardin), negar-se-á a 'abraçar' o cinema falado, acreditando (assim como vários grandes atores realmente acreditavam à época) que o som apenas destruiria a magia do Cinema.

Mas estou me adiantando… O roteiro, escrito pelo próprio Hazanavicius, é como uma mistura de "Cantando na Chuva" com "Nasce uma Estrela". George Valentin, como falei, é um grande astro de Hollywood e, em uma estreia, acaba esbarrando com a carismática Peppy Miller (Bérénice Bejo), que dá um beijo no rosto do grande ator. Claro que o fato vira manchete dos principais jornais e, agarrando-se à oportunidade, Peppy vai para Hollywoodland (como então se chamava) tentar a carreira de atriz. E consegue, ainda mais com o advento do som. E acaba se tornando uma das principais estrelas desta fase. Já George Valentin, negando-se a se atualizar, acaba sendo esquecido pelos 'holofotes', e entra em uma grande crise, tanto econômica quanto pessoal.

A história não traz nada de novo, e é até um tanto quanto previsível, mas é a forma como é contada aqui, o grande diferencial de "O Artista". Colocando-se desde o princípio não como uma crítica à Hollywood (como "Crepúsculo dos Deuses", ao qual muitos poderão achar várias similaridades), mas sim como uma grande homenagem à indústria cinematográfica estadunidense, "O Artista" recria em (quase) tudo a estrutura narrativa dos filmes mudos do final da década de 1920. Desde o formato 'square' ou standard (4x3) dos antigos filmes, como muitas transições e efeitos (a sobreposição de imagens, por exemplo) que eram comuns nestes filmes, e também a constante trilha musical (de Ludovic Bource) presente em praticamente todas as cenas e que dita o ritmo e o tom da narrativa, como realmente acontecia, sem apelar para o óbvio.

Porém, o longa de Hazanavicius também é bastante contemporâneo, com sua qualidade de imagem límpida e sua montagem dinâmica e inteligente, e que conta com transições e 'trucagens' bastante inspiradas, como no plano em que vemos Peppy maquiar-se na frente do espelho, sendo que sua própria mão é, rapidamente, substituída pelas mãos de maquiadoras profissionais, marcando assim, a sua ascenção na carreira.

Mas embora toda a homenagem a Hollywood seja belamente retratada e garanta um grande charme à producão, são mesmo as atuações que elevam o valor de "O Artista". E é engraçado (pra não dizer irônico) que os grandes protagonistas deste filme não sejam estadunidenses: Jean Dujardin é francês (lembrando que o longa é uma co-produção entre França e Bélgica) e Bérénice Bejo é nascida na Argentina mas cresceu em Paris.

Dujardin cria seu George Valentin como uma mistura de Rodolfo Valentino (a homenagem está até no seu nome) e Douglas Fairbanks (principalmente no bigode), onde sua simpatia equivale-se em tamanho ao seu orgulho. E quanto a Bérénice Bejo, não há como não se apaixonar por sua Peppy, com seu olhos marcantes e sorriso gigantesco, tamanho seu carisma, simpatia e expressividade. Há ainda o ótimo trabalho de John Goodman como um produtor de um grande estúdio, e James Cromwell como o motorista de Valentin. Assim como a pequena participação de Malcolm McDowell. Como não há falas, os atores podem brincar com sua expressão facial e corporal, fazendo isso de maneira extremamente hábil e conseguindo fugir das armadilhas fáceis dos estereótipos.

Mas quem rouba mesmo a cena é o engraçadíssimo cachorrinho de George Valentin. Um verdadeiro ator, extremamente treinado e ensinado, encanta a todos com seus truques e sua lealdade. A ótima cena do café da manhã já bastaria por ser uma homenagem a "Cidadão Kane", mas ganha um tom mais engraçado devido à atuação do carismático animal.

Contando ainda com uma bela fotografia que, em alguns momentos, lembra o expressionismo alemão; uma direção de arte e figurinos impecáveis; e uma edição de som (de uma cena em particular) que chama a atenção pelo seu apuro e originalidade, "O Artista" não é apenas uma homenagem ao cinema mudo, mas a Hollywood como um todo. Afinal, de uma forma engraçada e comovente, leva-nos a um passeio por dentro de parte da história do Cinema, que vai culminar com o advento do gênero que determinou de maneira definitiva a soberania de Hollywood mundialmente: os musicais.

E, se não bastasse a coragem e ousadia de Michel Hazanavicius em produzir um filme mudo em plena era do 3D, ele ainda o faz com extrema segurança e talento, colocando "O Artista" no rol daqueles grandes filmes metalinguísticos e que reverenciam a própria história do Cinema.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski
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Surpreendente. Em pleno 2012 assistir a um filme mudo no cinema. Um lançamento.

"O Artista" consegue ter uma boa história que pode ser contada com pouquíssimas falas. E obviamente as falas vêm escritas em tela preta.

O elenco está muito bem. Destaque para a bela atuação de John Goodman. E um super destaque para o cachorro, toda vez que aparece ele rouba a cena.

A mixagem de áudio é muito boa nas duas cenas em que há sons. Bem como a trilha sonora que apesar da necessidade de estar presente o tempo todo, não nos cansamos dela.

Vale a pena!


por Oscar R. Júnior


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Um Gato em Paris

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Gato em Paris, Um (Une Vie de Chat, 2010)

Estreia oficial: 15 de dezembro de 2010
Estreia no Brasil: 21 de outubro de 2011
IMDb



"Um Gato em Paris" é uma animação mais voltada para o público adulto. Claro que há um apelo infantil (afinal trata-se de um desenho - o que, naturalmente, 'chama' os espectadores mais novos) que se dá por algumas gags visuais (como o hilário cachorrinho que não pára de latir) e, principalmente, por causa do personagem central da narrativa: o gato Dino.

Dino tem uma vida dupla. Durante o dia, é o inofensivo e carinhoso bichinho de estimação da menina Zoé, que vê nele seu principal companheiro já que todos os dias é deixada somente com a babá quando sua mãe, Jeanne - delegada de polícia, vai trabalhar. Zoé sofreu um trauma quando seu pai (que também era policial) foi assassinado, e desde então não diz uma palavra; e sua mãe, apesar de bastante carinhosa, não cansa de perseguir o mafioso Victor Costa, responsável pela morte de seu marido. Porém, durante a noite, o gato Dino transforma-se no parceiro de crime do ladrão Nico, que escala prédios e casas, esgueira-se pelas fachadas, entra por janelas e chaminés para roubar dos mais abastados. E, quando os dois donos de Dino por acaso se encontram, perseguidos pelo perigoso Victor Costa é que toda a ação realmente começa.

Com um roteiro extremamente enxuto, Alain Gagnol (que co-dirige o longa com Jean-Loup Felicioli) consegue contar sua história sem enrolações, indo direto ao ponto. Essa brevidade, no entanto, acaba dando pouco tempo para que seus personagens consigam se desenvolver melhor. O que é realmente uma pena, pois se o que já ficamos conhecendo deles nos encanta, imaginem se realmente fossem melhor desenvolvidos?

Porém, se tanto cuidado não é dado aos personagens, o mesmo não se pode dizer do visual do filme, e engana-se quem pensa que a animação tradicional 2D traz menos detalhes que uma animação totalmente digital oou em 3D, por exemplo. Com cenários estilizados e bastante coloridos, não são poucas vezes que paredes, tetos e chão confundem-se devido à perspectiva - e não devido a uma 'falha' ou 'incompetência', mas para criar o tom certo para a narrativa, dando um quê de confusão e até apressão.

Já os personagens são desenhados com rostos longos e angulosos, cujos perfis muito lembram os rostos pintados pelo italiano, Modigliani. E se Dino e Zoé são retratados de forma mais infantil, por motivos óbvios; chamam a atenção os movimentos de Nico, que age como um verdadeiro gato pela noite parisiense, sendo a personificação perfeita da palavra 'gatuno'.

Mas não apenas os traços da animação são louváveis, as composições de quadro também chamam a atenção, como a cena que se passa totalmente no escuro, e que aproxima o espectador de Nico, colocando-os como os únicos capazes de ver o que está acontecendo. Ou aquela em que mostra Zoé e sua mãe tomando café da manhã, com um ladrilho com um coração solitário atrás de cada uma delas, representando tanto o carinho que as une, como a distância que se formou entre elas.

Contando também com referências a alguns filmes de gângster, como "Os Bons Companheiros" - Victor Costa zomba de um de seus capangas por causa de um quiche - e "Cães de Aluguel" - há uma discussão que envolve apelidos; o longa trás ainda vários elementos deste gênero cinematográfico, que dão uma certa atmosfera noir para a narrativa; além de uma eficiente cena de ação final, que se passa nos telhados da Catedral de Notre-Dame.

Enfim, "Um Gato em Paris" é um bem-vindo resgate da antiga técnica de animação em 2D, provando que bons filmes não são fruto apenas dos mais requintados e elaborados recursos tecnológicos. Com um bom roteiro se vai longe…

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Amor na Tarde

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Amor na Tarde (Love in the Afternoon, 1957)

Estreia oficial: 29 de maio de 1957

"Amor na Tarde" foi o primeiro filme que Billy Wilder escreveu com I. A. L. Diamond, seu companheiro no roteiro de 12 filmes, numa parceria que rendeu 12 longas-metragem, até o fim de suas carreiras.

A trama fala a respeito de Ariane (Audrey Hepburn), a filha de um detetive particular, Claude Chavasse (Maurice Chevalier), e que acaba se apaixonando por um dos 'casos' de seu pai. Contratado para investigar uma suspeita de adultério, Chavasse, considerado o melhor detetive da França, descobre que a tal esposa encontra-se, todas as tardes na suíte 14 do Hotel Ritz, com um estadunidense, verdadeiro 'casanova', que coleciona casos amorosos ao redor do mundo. Frank Flannagan (Gary Cooper), o tal sujeito, possui uma rotina nas suas conquistas: leva as mulheres para o hotel, pede um farto jantar e chama uma trupe de músicos, The Gypsies, que tocam sempre as mesmas músicas, terminando a rotina com "Fascinação"; quando então, deixam o casal sozinho. Ciente disso, o marido traído vai ao Ritz disposto a matar Flannagan. Como Ariane havia escutado toda a conversa de seu pai com o cliente dele, vai até lá e impede o crime passional. Acontece que a moça inocente, mas cheia de imaginação, acaba se apaixonando pelo sedutor 'Don Juan'. Porém, Ariane não revela quem é para Flannagan, o que faz com que ele se sinta ainda mais atraído por ela, apesar de não se envolver amorosamente com mulher alguma. E mais: a moça acaba inventando uma série de casos, baseados em suas leituras dos relatórios de seu pai, e fazendo o experiente amante pensar que ela leve uma vida similar a dele, repleta de experiências amorosas.

Situando a trama na capital francesa, Wilder e Diamond, de forma discreta e narrando os hábitos amorosos dos parisienses, conseguem criticar os costumes puritanos dos estadunidenses. Já no início do longa, Chavasse diz em uma narração em off: "Esta é a cidade - Paris, França - que é igual a qualquer outra grande cidade - Londres, Nova York, Tóquio… Exceto por duas pequenas coisas: em Paris as pessoas comem melhor; e em Paris as pessoas fazem amor… Bem, talvez não melhor, mas certamente, mais vezes". Não que haja cenas de sexo ou mais ousadas (pelo menos atualmente) no filme, afinal era 1957 e o Código Hays ainda estava em vigor em Hollywood. Mas o cineasta cria passagens de total intimidade entre Frank e Ariane, além de várias insinuações sobre o ato sexual em si, como a moça arrumando os cabelos depois de acabado todo o ritual de Flannagan e ainda passar horas na suíte do Hotel Ritz; ou num outro encontro, quando deixa um casaco cair a seus pés, numa menção a estar se despindo.

Mas o que encanta na história é como Wilder consegue fazer com que nos interessemos por aqueles personagens. E claro que a composição dos atores é parte fundamental nisso. Audrey Hepburn (no auge de sua beleza), cria uma moça inexperiente, mas cheia de criatividade e carisma. A forma como ela inventa suas história para Frank é divertidíssima, e quando a vemos falar, é como se ela realmente estivesse criando tudo aquilo na hora, tamanha é a sua espontaneidade. Já Gary Cooper interpreta uma versão de si mesmo (afinal o ator era conhecido por seus diversos - diversos mesmo - casos amorosos com colegas de profissão, mesmo sendo casado - numa união que durou até o fim da sua vida), e aparenta muito à vontade com seu irresistível sedutor. Completando o competente elenco, está Maurice Chevalier, na perfeita personificação do ditado "casa de ferreiro, espeto de pau", já que, tão astuto e observador em seus casos, não é capaz de notar por quem sua filha está se apaixonando (mesmo que essa não pare de cantarolar "Fascinação").

Contando ainda com ótimos diálogos - o que é praxe nos filmes do diretor - "Amor na Tarde" não é só romance, tem também uma boa cota de humor, com gags divertidíssimas - a maioria incluindo o grupo musical The Gypsies.

Enfim, seguindo os passos de seu mestre, Ernst Lubitsch, Billy Wilder consegue criar uma comédia romântica despretensiosa, com ótimos e cínicos diálogos, personagens carismáticos e principalmente, que revela-se ser muito mais crítica aos costumes e hipocrisias (dos Estados Unidos) do que aparenta numa olhada superficial.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Os Descendentes

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.
 
Descendentes, Os (The Descendants, 2011)

Estreia oficial: 9 de dezembro de 2011
Estreia no Brasil: 27 de janeiro de 2011

"Os Descendentes" é o sexto longa de Alexander Payne. Dos quatro filmes aos quais assisti (além do seu segmento em "Paris, Te Amo"), posso dizer que todos têm em comum protagonistas de alguma forma inseguros e aflitos, personagens construídos com tamanha naturalidade que não nos espantaríamos se os encontrássemos andando pelas ruas, como um cidadão qualquer. Pois são exatamente isso: pessoas normais, repletas de problemas, com qualidade e defeitos como todos nós, e por isso nós, espectadores, identificamo-nos tanto com eles.

Aqui não é diferente, e o roteiro escrito por Payne, Nat Faxon e Jim Rash (baseado no romance homônimo da escritora Kaui Hart Hemmings) apresenta-nos a Matt King (George Clooney), um bem-sucedido advogado que mora no Havaí. Surpreendido por um acidente que deixou sua mulher em coma, Matt terá que encarar a difícil tarefa de cuidar de suas duas filhas - a adolescente Alexandra (Shailene Woodley) e a pequena Scottie (Amara Miller) - e, principalmente, reaproximar-se delas, já que fora um pai ausente, dedicando-se muito mais ao trabalho do que à família. Além de toda essa difícil situação, ainda terá que encarar o fato de ter sido traído pela esposa.

A história é centrada em seus personagens e em seus envolvimentos, e como acontecia nos seus filmes anteriores, Payne consegue transitar entre o drama e a comédia com imensa naturalidade, evitando cair em clichês fáceis, e transformando a capacidade dos personagens em encontrar felicidade, descontração e humor mesmo diante das piores adversidades no seu elo com o público.

Tal proximidade com o espectador vai sendo criada aos poucos, através de atos aparentemente desnecessários, como o pedido de desculpas que Matt faz a filha caçula pedir para uma colega de escola; ou quando Matt e Scottie vão buscar Alex no colégio interno e encontram-na embriagada; ou ainda a visita dele e suas filhas aos sogros, para avisar da condição da esposa. São momentos que vão ajudando a construir a personalidade não só de Matt e suas filhas, mas também dos personagens mais coadjuvantes, como o sogro do protagonista, Scott (Robert Forster), que, em um primeiro momento parece insensível e cego para a verdadeira personalidade da filha, mas que esconde-se atrás desta 'máscara' para conseguir aguentar as adversidades que a vida lhe impôs: não só sua filha está em coma, mas sua esposa está num estágio avançado do Mal de Alzheimer. E também Sid (Nick Krause), amigo de Alex, e que pode até parecer apenas um alívio cômico para a narrativa, com suas tiradas 'sem noção', mas que, em momentos específicos, revela-se um adolescente como qualquer outro, e mais ciente de suas ações do que pode aparentar.

Mas é mesmo nas atuações dos membros da família King que está a força de "Os Descendentes". A pequena Amara Miller encanta pela subversão e maturidade para uma menina de dez anos e, ainda que sua insubordinação possa garantir algumas risadas, serve também para uma discreta análise a respeito de uma geração que não mais enxerga hierarquia dentro do núcleo familiar. Além da excelente Shailene Woodley, que foge do estereótipo fácil da adolescente problema e acaba se mostrando bastante madura para uma garota de 17 anos - apesar de sempre revelar uma curiosa e paradoxal imaturidade, principalmente durante a busca na qual auxilia seu pai. Mas é mesmo George Clooney quem rouba a cena e transforma seu Matt King em mais um dos 'homens comuns' da galeria de filmes de Alexander Payne. Matt apesar de toda segurança profissional (demonstrada através da subtrama envolvendo um terreno de família, e pelo respeito que seus primos nutrem por ele), demonstra exatamente o oposto quando se trata de sua família, porém sempre mantendo uma incrível honestidade, inclusive ao tratar de assuntos sérios com suas filhas, chegando até a dividir responsabilidades demais com Alex, colocando-a em situações difíceis e delicadas para uma adolescente.

Apostando em uma iluminação 'natural', Payne e seu diretor de fotografia, Phedon Papamichael, fazem bom uso das deslumbrantes paisagens havaianas, filmando-as constantemente sob um céu nublado, o que traduz de forma espetacular os sentimentos de seus protagonistas: apesar de morarem em um paraíso natural, suas vidas não estão nem perto de ser o 'arco-íris' que muitos poderiam imaginar, como o próprio protagonista relata no início do filme; e o tom acinzentado de algumas cenas externas evidenciam essa melancolia.

Com uma narração em off que se mostra às vezes interessante e em outras totalmente desnecessária, e uma trilha musical 'óbvia', com sons nitidamente havaianos, "Os Descendentes" foge do melodrama fácil, e emociona tanto nos momentos mais descontraídos quanto naqueles de maior comoção de seus protagonistas, como o choro subaquático de Alex, a revelação que esta faz ao pai, a 'briga' de Matt com sua esposa, ou a sua despedida final.

E o faz justamente porque conseguiu que nos importássemos com aqueles personagens, e o seu maravilhoso plano final (ao 'som' de Morgan Freeman) é uma prova disso: não estamos ali apenas testemunhando a união de um pai com suas filhas, mas também nos sentimos parte daquela família.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski
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Um filme de atuação. George Clooney numa situação bem delicada: quase viúvo, com duas filhas que não o respeitam, e ainda descobre que era traído. Ele consegue nos mostrar que não é uma pessoa que gosta confrontar as pessoas, não é explosivo e nem age por instinto.

Um dos grandes méritos do filme é tratar de um tema muito delicado que é a morte evidente da esposa e como tratar disso com os filhos, família e amigos.

Outro grande mérito é a grande atuação de Clooney. Ele nos apresenta um personagem meio apático, mas que, com o passar do filme, vamos nos compadecendo da causa dele.

A atuação das meninas também é muito boa (Shailene Woodley e Amara Miller).

Uma coisa que gostei é mostrar o Havaí como cidade, tirando essa de só ter praias e cenários. Cidade, prédios, trânsito... isto foi bem legal.

Recomendo.


por Oscar R. Júnior



sábado, 28 de janeiro de 2012

O Pecado Mora ao Lado

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Pecado Mora ao Lado, O (The Seven Year Itch, 1955)

Estreia oficial: 3 de junho de 1955
IMDb



A grande maioria das pessoas conhece a famosa cena na qual Marilyn Monroe tem seu vestido branco levantado pelo vento que vem dos túneis do metrô. O que muita gente não sabe, no entanto, é que o tal filme sofreu vários cortes da 20th Century Fox para poder ser lançado.

Assim, "O Pecado Mora ao Lado" acabou se transformando em uma comédia de costumes que, à primeira vista, pode parecer tola e inocente, fora do padrão dos filmes de Billy Wilder; mas que demonstra tal cinismo e críticas social e moral contidas em suas entrelinhas, que não poderia ter sido realizada por outro cineasta.

O roteiro de George Axelrod e de Wilder já demonstra sua origem teatral (baseado na peça homônima do próprio Axelrod) na manutenção de pouquíssimos cenários - a trama se passa quase que exclusivamente dentro do apartamento do protagonista, Richard Sherman (Tom Ewell) que, ao mandar sua esposa Helen (Evelyn Keyes) e seu filho para passarem as férias de verão no interior, vê-se tentado 'às fraquezas da carne' ao conhecer uma sedutora vizinha (Marilyn Monroe) que locou o apartamento de cima do seu.

Muitas são as histórias que cercam essa produção: as várias modificacões que Wilder teve que fazer para não explicitar que a traição de Richard realmente se concretizava; o casamento de Marilyn com o jogador de beisebol Joe DiMaggio que teria acabado depois da cena imortalizada que citei ali no primeiro parágrafo; a dificuldade que a atriz tinha para chegar no horário e em decorar suas falas (Wilder chegou a gravar 40 takes de um só plano até que ela acertasse seus diálogos!); o contrato de Marilyn com a 20th Century Fox que garantia que ela seria a estrela dessa adaptação, e que o filme seria produzido em cores (Wilder queria tê-lo feito em preto e branco)… Enfim, a lista vai longe. Mas os boatos não interferem em nada na qualidade do longa. Claro que o final pode até ser considerado um tradicional 'happy ending', mas não se pode esquecer que o ano era 1955, e o código Hays, que impunha regras morais e de conduta aos filmes hollywoodianos, por mais que já estivesse em descenso, ainda influenciava na censura.

Mas Billy Wilder era Billy Wilder e, por mais que mudasse diversas vezes sua história, continuava deixando um diálogo escancarado ou de duplo sentido, uma pausa, um olhar ou apenas um mero suspiro que transparecesse todo o tom cínico e de crítica a uma sociedade hipócrita e machista.

Se no início do filme o cineasta já deixa bem claro a sua intenção quando o protagonista, em uma narração em off, revela o 'costume' dos cidadãos nova iorquinos ao mandarem suas esposas para longe no verão e se comportarem como solteiros; outras 'alfinetadas' do diretor soam mais discretas ou subentendidas, e assim, mesmo com toda a censura, Wilder conseguia falar sobre racismo, homossexualismo (há dois decoradores que moram juntos no último andar do prédio), e a 'objetificação' da mulher - não é à toa que a personagem de Marilyn não tem nome e, além do mais, ela tem plena consciência do efeito que causa em qualquer homem.

E por falar nisso, o filme é mesmo de Marilyn Monroe. Ela, sem dúvida alguma, possuía um magnetismo, e 'devorava' as câmeras. Além de esbanjar sensualidade (o que os seus figurinos insistiam em evidenciar) de forma inocente (o que pode parecer um contrassenso, mas é a melhor forma de defini-la), Marilyn ainda tinha carisma de sobra e um ótimo timing para a comédia. E sua química com o comediante Tom Ewell é incontestável. Aliás, Ewell também está muito bem, principalmente quando seu personagem põe-se a delirar; mas o filme ganha mesmo quando ele e Monroe dividem a cena.

Enfim, "O Pecado Mora ao Lado" é uma deliciosa comédia de costumes que pode até parecer ingênua para os mais desatentos; mas para aqueles que a olharem com mais atenção, verão toda a malícia e esperteza de Wilder presentes, mesmo que em uma 'siimples' meia-calça esquecida sobre a cama…

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Sabrina

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Sabrina (1954)

Estreia oficial: 22 de setembro de 1954
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"Sabrina" foi o décimo longa dirigido por Billy Wilder em sua fase estadunidense. E, se o cineasta já havia flertado com a comédia romântica em alguns de seus longas anteriores como "A Incrível Suzana", "A Valsa do Imperador" e "A Mundana"; foi com o filme protagonizado por Audrey Hepburn, Humphrey Bogart e William Holden que Wilder chegou ao seu melhor exemplar do gênero.

Sabrina Fairchild (Hepburn) é filha do motorista de uma rica família, os Larrabee. Ela sempre nutriu uma paixão não correspondida por um dos irmãos Larrrabee, o mais novo, David (Holden). Depois de passar dois anos estudando culinária em Paris, Sabrina retorna diferente: sofisticada e elegante. Então, imediatamente chama a atenção do mulherengo David, que já está noivo - num casamento que favorecerá os negócios de sua família. É então que o seu irmão mais velho, Linus (Bogart) entra em campo: para evitar que o tal negócio não seja colocado em risco, ele finge interessar-se por Sabrina, fazendo com que ela mesma fique em dúvida sobre qual dos irmãos ama de verdade.

Baseado numa peça teatral, Wilder chamou o seu próprio autor, Samuel A. Taylor, além de Ernest Lehman para ajudarem-no a escrever o roteiro. E a história não passa do velho conto da Cinderela transposto para a alta sociedade estadunidense.

Porém aqui, não é o roteiro quem faz a diferença, já que sabemos de antemão exatamente o que acontecerá àqueles personagens - claro que os bons diálogos colaboram (ainda mais as ácidas falas ditas pelo pai de Sabrina; ou as cínicas tiradas de Linus); mas o 'toque de Midas' desta comédia romântica é o seu afiado elenco e a química estabelecida entre os três protagonistas.

Este foi o segundo longa da atriz belga como protagonista e ela recém havia ganho um Oscar por "A Princesa e o Plebeu" (de 1953). E Audrey Hepburn empresta doçura, fragilidade e insegurança na medida certa à personagem-título. Humphrey Bogart confere a virilidade que lhe era habitual a Linus, em um personagem bastante diferente do que estava acostumado a fazer - até há um ar cínico nos primeiros momentos em que aparece, mas logo notamos que a sua frieza serve de proteção para um homem que se utilizou dessa característica para tomar conta dos negócios da família, abrindo mão de qualquer outro sentimento ou interesse particular. Porém, quando passa a conviver com Sabrina e se descobre apaixonado pela moça, a confusão pela qual ele passa é nítida, ainda que ele relute para tentar escondê-la. Já William Holden (em sua terceira colaboração com Wilder, depois de "Crepúsculo dos Deuses" e "Inferno Nº 17"), é o oposto de Linus: encantador e sedutor desde sua primeira aparição, o carisma do ator é inquestionável, e fica impossível ao espectador não sucumbir aos seus encantos (e entendemos perfeitamente Sabrina), por mais que, tanto ela como nós, saibamos de seus 'deslizes' de personalidade.

Assim, Billy Wilder transforma uma comédia romântica previsível, em um delicioso, fluido e divertido passatempo, coroado com seu estilo único e inconfundível de humor. Destaque também para a bela trilha sonora, cuja principal música "La Vie en Rose" (a canção composta e imortalizada por Édith Piaf) ganha uma versão cantada 'in loco' por Audrey Hepburn. Adorável!

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Inferno Nº 17

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Inferno Nº 17 (Stalag 17, 1953)

Estreia oficial: 29 de maio de 1953
Estreia no Brasil: 10 de agosto de 1953
IMDb



"Inferno Nº 17" é um filme de guerra cuja trama se passa inteiramente dentro de um campo de prisioneiros durande a Segunda Guerra Mundial. Porém, o grande diferencial aqui é a sua pitada de humor. Não um humor hilário, mas sim, seco, cínico, ou seja, daquele inerente a Billy Wilder.

O roteiro escrito por Wilder e Edwin Blum (baseado em uma peça de teatro), começa justamente com seu narrador, Cookie (Gil Stratton), apresentando o próprio filme: "não sei quanto a vocês, mas eu sempre fico mal quando assisto a filmes de guerra. (…) O problema é que nunca fazem filmes sobre PDG (prisioneiros de guerra)". A partir daí, conhecemos os protagonistas dessa história, que gira principalmente em torno de descobrir quem seria o espião alemão dentro do galpão onde todos eles ficam presos. E, dentre as principais figuras ali confinadas estão Sefton (William Holden), o negociante do local; Hoffy (Richard Erdman), o chefe do galpão; seu segurança, Price (Peter Graves); e os engraçadinhos Animal (Robert Strauss) e Harry Shapiro (Harvey Lembeck).

Claro que o principal suspeito de traição será Sefton, já que, através de suas habilidades de negociação, consegue regalias que seus companheiros de prisão não compreendem. O clima de traição aumenta quando um novo prisioneiro do campo, o tenente Dunbar (Don Taylor), é ameaçado ser condenado por sabotagem a um trem nazista. Assim, para provar sua inocência, o próprio Sefton começa a investigar quem seria o tal espião que delata todo e qualquer movimento dos prisioneiros aos oficiais alemães.

O clima que Wilder emprega ao longa é o da camaradagem: todos ali, prisioneiros de guerra, confraternizam e bolam seus estratagemas em conjunto. Quando um elemento entra em dissonância com o grupo - Sefton - ele logo é acusado, e o clima passa a ser de tensão. Claro que há a tensão própria pela presença dos oficiais nazistas, mas a principal é dada pelo clima de traição que impera dentro do galpão.

Mas há sempre espaço para o humor. Um humor triste, é verdade, forçado - mas como esperar algo diferente de homens que presenciaram o horror da guerra e encontram-se confinados em condições terríveis? E as piadas e os momentos de descontração não têm o propósito de fazer o espectador gargalhar, mas sim chamar a atenção para a dureza e o absurdo da realidade daqueles homens.

Mas todas essas emoções só são bem sucedidas graças ao ótimo elenco que Wilder tinha nas mãos. William Holden (que já havia trabalhado com o diretor em "Crepúsculo dos Deuses") é a força-motriz do longa, com um personagem que não faz questão de ser simpático, já que seu cinismo é o principal motivo por manter seus companheiros afastados; porém, como o público sabe de antemão de sua inocência, a identificação com ele, injustiçado, torna-se imediata. Já Robert Strauss e Harvey Lembeck saem-se bem como a dupla de 'palhaços' do campo, cujas tiradas, como falei, têm uma função bem mais importante no roteiro do que apenas a risada pura e simplesmente. Há que se destacar a presença do excelente diretor Otto Preminger como o oficial nazista chefe do Stalag 17, Oberst von Scherbach; suas rápidas aparições roubam a cena devido a seu enorme carisma, além de sua composição caricata que, propositalmente, beira o ridículo - vale lembrar que, assim como Wilder, Preminger também era austríaco e judeu, e fora para os Estados Unidos fugindo da sombra nazista que já 'rondava' seu país antes mesmo da eclosão da guerra; os cineastas também brincam aqui com a fama de Preminger, conhecido por ser rude e desagradável com seus atores - é como se o seu oficial nazista fosse uma paródia dele mesmo.

Assim, Wilder criava mais um clássico do cinema. Um retrato cínico e realista sobre uma guerra que causou a ele mesmo perdas familiares, desespero e dor. Um drama de guerra que não mostra bombardeios, explosões ou conflitos grandiosos, mas que tem em seus personagens e nas relações entre estes o seu grande trunfo. Poderoso.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


   

   

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Espião que Sabia Demais

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Espião que Sabia Demais, O (Tinker Tailor Soldier Spy, 2011)

Estreia oficial: 16 de setembro de 2011
Estreia no Brasil: 13 de janeiro de 2012
IMDb



"O Espião que Sabia Demais" passa-se em plena Guerra Fria, tendo como foco o MI6, serviço de inteligência britânico. Posicionando-se entre o conflito entre Estados Unidos (CIA) e a União Soviética (KGB), o MI6 tenta, a todo custo, conseguir informações privilegiadas que o coloquem em uma posição de destaque. E, se não bastasse toda essa tensão, o serviço secreto de sua majestade ainda tem que lidar com a traição dentro da sua própria equipe.

O roteiro escrito por Peter Straughan e Bridget O' Connor (baseado no romance homônimo de John le Carré) aborda justamente essas duas frentes. Logo no início vemos o agente Jim Prideaux (Mark Strong) em uma missão em Budapeste, tentando descobrir informações sobre quem seria o agente duplo dentro do MI6. Como a operação fracassa, seu chefe, Control (John Hurt), e seu braço direito, Smiley (Gary Oldman) são afastados do comando do MI6, que passa a ser dirigido por  Percy Alleline (Toby Jones), Toby Esterhase (David Dencik), Roy Bland (Ciarán Hinds) e Bill Haydon (Colin Firth). Porém, logo Smiley é chamado pelo governo britânico para que, secretamente, investigue a identidade do tal agente duplo; enquanto os atuais mandantes do serviço secreto tentam convencer o primeiro-ministro a apoiá-los em uma grande missão onde, supostamente, conseguirão informações valiosas sobre os planos da KGB.

O tom da narrativa imposto pelo diretor sueco Tomas Alfredson é sempre melancólico. Não só pela constante atmosfera de traição que cria, como também corroborado pela ótima paleta de cores, em tons de marrom, criada pelo diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema; que também mantém a maioria das cenas envolta em névoas, intensificando o clima frio que ronda os personagens.

Tal clima é intensificado pela excelente direção de arte, que cria ambientes que dizem muito a respeito dos personagens. Os detalhes nas composições vão desde a ambientação das salas do MI6 até a escolha dos figurinos dos personagens. A sala de reuniões do comando do serviço secreto é um espetáculo à parte, com suas paredes revestidas com material à prova de som, e que criam um ambiente tão opressivo quanto minimalista, sem deixar de ambientar a época em que o filme se passa.

Conseguindo conduzir a intrincada trama com segurança, Alfredson e seu montador Dino Jonsäter. optam por uma narrativa não linear, que vai e volta no tempo com fluidez, sem nunca soar confusa. Porém, a espionagem que se vê neste "O Espião que Sabia Demais", em nada remete àqueles filmes de ação à la James Bond. Aqui, o jogo todo é psicológico, realizado por indivíduos mais velhos, que aparentam constante cansaço, treinados durante uma vida inteira, e que há muito desistiram de qualquer tentativa em manter uma vida pessoal (até o envolvimento 'romântico' de determinados personagens revela-se parte do jogo político).

E dentre todos estes agentes o foco, é claro, recai sobre Smiley, e o longa de Alfredson mostra-se um excelente estudo de personagem. E a atuação magistral de Gary Oldman é peça fundamental para isso. Sempre comedido e tendo absoluto controle de suas emoções, Smiley sempre aparece de forma oposta ao que seu nome sugere ('sorridente'). Ator acostumado a arroubos de interpretação, tal discrição de seu personagem chama ainda mais a atenção e comprova o enorme talento de Oldman. É admirável, por exemplo, a contenção de qualquer emoção na cena em que Smiley recebe a notícia de que será afastado do MI6; ou naquela em que flagra a traição de sua esposa; ou ainda, quando demonstra todo seu preparo e eficiência como agente, na sequência em que, dentro de um carro, uma mosca voando atrapalha a todos que insistem em espantá-la - porém, esperando o momento certo, Smiley simplesmente abre a janela para que ela saia dali. Uma belíssima síntese da personalidade do agente.

Contando ainda com subtramas que resumem com excelência o espírito do filme: sacrifícios de vidas pessoais em prol de um bem maior, "O Espião que Sabia Demais" pode até não agradar ao grande público pelo seu ritmo lento, que traduz a atmosfera fria e altamente bem calculada da trama. Porém mostra que espionagem não era (e nem o é atualmente) feita apenas com perseguições e tiroteios, mas principalmente por aqueles que detêm a técnica e a paciência em um jogo de inteligência.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski



A Montanha dos Sete Abutres

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Montanha dos Sete Abutres, A (Ace in the Hole, 1951)

Estreia oficial: 29 de junho de 1951
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"A Montanha dos Sete Abutres" é um filme que continua atual até hoje, pois fala do caráter sensacionalista e extremamente comercial, anti-ético e inescrupuloso com que a mídia trata os acontecimentos em geral. E é incrível como um filme com mais de 60 anos consegue dialogar com o presente de forma tão crítica.

O roteiro de Billy Wilder, Lesser Samuels e Walter Newman conta como Chuck Tatum (Kirk Douglas), jornalista com uma má reputacão pelas grandes cidades por onde passou e em seus jornais de grande circulação, acaba parando em uma pequena cidadezinha do Novo México e conseguindo emprego em uma discreta redação. 'Empacado' por lá há um ano, Tatum vê num minerador (Richard Benedict) que ficou soterrado em uma montanha a chance de voltar aos grandes veículos de comunicação. Para isso, manipula o xerife local (Ray Teal), a esposa do rapaz preso, Lorraine (Jan Sterling), e os engenheiros locais para atrasar ao máximo o resgate do sujeito e assim, fazer um verdadeiro 'carnaval' a respeito do assunto, pois como ele mesmo diz em certo momento: "um homem preso numa mina é melhor do que 84. Você lê sobre 84 pessoas, ou sobre um milhão, como na fome da China, e esquece. Mas um homem é diferente: você quer saber tudo sobre ele". E Tatum utiliza dessa máxima para se tornar o único que tem acesso ao rapaz preso, Leo, e portanto, concentra (e manipula) as informações. Aos poucos, um incidente local que poderia ser resolvido em dois dias, transforma-se em um espetáculo nacional, arrastando-se por mais de uma semana.

Como não poderia deixar de ser em um filme 'wilderiano', os diálogos são inteligentes, ágeis e repletos de cinismo e duplo sentido. Tatum fala para seu novo chefe quando está sendo contratado: "eu já menti para homens que usam cintos e também para homens que usam suspensórios, mas não seria estúpido a ponto de mentir para um homem que usa cinto e suspensórios". E, se a frase pode não representar muito a princípio, aliada à excelente composicão do figurino do protagonista, torna-se quase que um marco do longa. A princípio inescrupuloso e sem qualquer traço aparente de caráter, não se nota em Tatum nem um dos acessórios que ele cita ao patrão (pelo menos não de forma saliente); porém, à medida em que os acontecimentos que ele provocara começam a fugir do seu controle, ele passa a usar tanto cinto como suspensório, numa clara alusão de que está mudando sua maneira de ver as coisas, com um certo senso de moral.

Mas engana-se quem acha que o longa de Wilder é um filme de redenção. Por mais que Tatum, de certa forma, arrependa-se do que fez; suas ações deixam marcas que jamais poderão ser apagadas. Já Lorraine parece não sentir remorso algum: para ela que "não reza para não desfiar suas meias", o fato do marido ter ficado preso na montanha representa apenas uma forma de melhorar os negócios, já que o alarde feito pelo jornalista começa a atrair curiosos de todas as partes do país - inclusive um circo é montado aos pés da tal montanha, para entreter quem ali espera ver Leo ser resgatado.

É Wilder criticando não só a mídia, mas a vontade que o povo sente pelas notícias fantasiosas e sensacionalistas. E o cineasta toca fundo na ferida e não poupa ninguém: nem o xerife que vê a chance de alavancar mais uma candidatura; nem os oportunistas de plantão, que surgem cobrando por doces, brinquedos e até músicas compostas para o resgate; nem a família humilde e 'inocente', que está ali apenas para 'observar'. E ver uma multidão saltando histérica de um trem apenas para ficar olhando uma montanha sendo escavada deixa de ser engraçado e passa a ser assombroso.

Fazendo um minucioso estudo sobre a natureza humana, "A Montanha dos Sete Abutres" ainda traz excelentes atuações. Kirk Douglas e Jan Sterling conseguem o mais difícil: provocar a antipatia imediata no espectador, o que torna-se essencial para que o filme 'funcione'.

"O circo acabou", grita Tatum ao final, frustrando a turba de observadores. Infelizmente, e como Billy Wilder bem o sabia, o tal circo jamais acabará…

Fica a dica!


por Melissa Lipinski