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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

De Volta para o Futuro II

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

De Volta Para o Futuro II (Back to the Future Part II, 1989)

Estreia oficial: 22 de novembro de 1989
Estreia no Brasil: 14 de dezembro de 1989
IMDb



"De Volta Para o Futuro II" deu um nó na minha cabeça quando o assisti ainda criança. Mas a trama, que na época, me parecia tão complicada, nem é tanto assim, basta um pouco de atenção para conseguir acompanhar as aventuras de Marty McFly e 'Doc' Brown.

Vou resumir: o filme retoma exatamente onde o primeiro parou, com 'Doc' Brown (Christopher Lloyd) voltando do futuro para levar Marty (Michael J. Fox), e Jennifer - agora interpretada por Elisabeth Shue - afim de não deixarem o filho destes se meter em confusão. Porém, quando estão no futuro, o velho Biff (Thomas F. Wilson) rouba o DeLorean para voltar para 1955 e entregar à sua versão jovem uma revista que contém todos os resultados de jogos de 1950 a 2000, para que este se torne milionário. Quando Marty e 'Doc' voltam para 1985, se deparam com um presente alternativo, onde Biff (agora milionário) é o dono de Hill Valley e casado com a mãe de Marty, Lorraine (Lea Thompson), e onde o pai de Marty, George, fôra assassinado. Para resolver esse problemão, 'Doc' e Marty têm que voltar justamente para a noite do baile de formatura de seus pais - aquela do primeiro filme - que foi justamente quando o Biff velho entregou a revista para o jovem Biff. Assim, Marty tem que reaver a revista e, ao mesmo tempo, evitar encontrar-se com sua outra versão (a do primeiro filme) que também está em 1955. Ah, nem é tão complicado assim, não é mesmo?

O roteiro, novamente de autoria de Robert Zemeckis e Bob Gale, aposta em situações que remetem à algumas do longa original, como Marty acordando com sua mãe ao lado (agora em um 1985 alternativo) e falando que teve um sonho estranho; ou na cena onde ele foge de Biff - ou melhor, Griff - e seus capangas pelo centro de Hill Valley (agora em 2015), utilizando desta vez um skate voador, tanto que o velho Biff (que presencia a cena) comenta: "isso me parece familiar". São associações que fazem uma releitura do primeiro filme, fazendo graça e atualizando piadas que já funcionaram, de maneira criativa. Assim, já que não teriam mais o ineditismo da ideia de viajar pelo tempo, os roteiristas abusaram das auto-referências e de uma dose ainda maior de ação.

Os efeitos visuais deste segunda longa voltam a ser excepcionais, assim como a maquiagem dos atores; e assim, a cena em que Michael J. Fox interpreta três personagens (o Marty envelhecido, seu filho e sua filha) em um mesmo plano é extremamente convincente. Aliás, Zemeckis e Gale abusaram do recurso de colocar o mesmo ator em um mesmo plano, assim vemos Michael J. Fox como a sua família de 2015; o Biff de 2015 contracenar com seu neto, Griff (também interpretado por Thomas F. Wilson); o Biff de 2015 e o Biff de 1955; o Doutor Brown de 1985 e o de 1955; assim como as duas versões de Marty de 1985 que estão em 1955.

Novamente como no longa original, as mudanças sofridas na cidadezinha de Hill Valley são um charme à parte. E, mais uma vez, tomando-a como um personagem do filme, vemos que o ar sombrio que adquire no 1985 alternativo muda toda a estética do filme. Assim como seu deisgn futurista em 2015.

Mais uma vez o elenco aparece inspirado, sendo que Michael J. Fox é o 'dono' absoluto do longa. Christopher Lloyd também se destaca com suas caras e bocas.

Enfim, Robert Zemeckis dirige uma continuação à altura do primeiro longa, e já dando pistas para sua continuação seguinte (na época, os filmes foram gravados simultaneamente). Imperdível!

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


domingo, 25 de setembro de 2011

Indiana Jones e a Última Cruzada

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, 1989)

Estreia oficial: 24 de maio de 1989
IMDb



"A Última Cruzada" é o meu "Indiana Jones" favorito. Talvez porque Harrison Ford esteja mais à vontade do que nunca como o protagonista que imortalizou, talvez pela sua química perfeita com Sean Connery, talvez pelos diálogos espirituosos, talvez pelas sequências de ação eletrizantes… Talvez por tudo isso junto.

O início do longa já o diferencia dos anteriores. Sim, ele traz um prelúdio (como os demais), que conta uma mini-história já repleta de ação vivida por Indy. Sim, novamente traz o logo da Paramount (a montanha) fundindo-se com uma imagem real (agora uma pedra no mesmo formato). Porém, neste terceiro filme da saga, essa 'pré-história' é vivida por um Indiana Jones jovem (River Phoenix) e mostra o início da vida repleta de aventuras que o protagonista viria a ter, e também como o chapéu de feltro e o chicote (seus parceiros inseparáveis) surgiram em sua vida, assim como o seu medo por cobras.

Mas, para mim, o melhor do roteiro escrito por Jeffrey Boam é o desenvolvimento da relação entre o filho, Indiana Jones, e seu pai, Henry Jones (Sean Connery). Se no prólogo da história já nos é apresentada essa difícil relação, assim como o fato de o professor Henry Jones dar mais atenção às suas pesquisas do que ao filho, durante todo o restante do filme vemos como esses conflitos se colocam entre os dois e a maneira como isso os afeta, não escancaradamente, mas nos pequenos detalhes e olhares entre esses dois personagens.

Como o roteiro não precisa apresentar mais o personagem-título, parte direto para os fatos, o que faz com que este filme tenha bem mais ação do que seus anteriores. A recorrência em colocar os nazistas como vilões absolutos da trama também auxilia na identificação do público (já que eles são os 'vilões-mor' da história da humanidade), não precisando explicar muito a respeito, afinal ninguém gostaria de imaginar como seria se Hitler e companhia tivessem em suas mãos um poder que os tornassem imortais. É uma situação que todos temeriam (seja na realidade ou na ficção).

Mas não é somente aí que o roteiro acerta, mas também ao colocar mais humor e mais cinismo na história. O conflito entre pai e filho gera situações divertidas, assim como a maior participação de Marcos Brody (Denholm Elliott). Mas talvez o ponto máximo de humor esteja na cena onde os Jones vão parar no meio de uma manifestação nazista e dão de cara com ninguém menos que o próprio Adolf Hitler. As caras e bocas de Harrison Ford nesta sequência são impagáveis!

Ford, como disse no início, está bem à vontade com esse personagem que já conhecia tão bem, e pode desenvolver mais as suas nuances. Já Sean Connery (escolhido por Spielberg por ser "o" 007, já que o diretor anteriormente queria dirigir um filme do agente britânico) está melhor do que nunca e, embora apenas 12 anos mais velho que Harrison Ford, realmente aparenta ser seu pai e, deixa claro de onde Indiana puxou sua jovialidade e seu charme (principalmente com as mulheres).

A trilha musical deste terceiro "Indiana Jones" volta a ter a música-tema composta por John Williams como destaque absoluto, ainda que com arranjos mais sofisticados (e Williams recebeu sua terceira indicação ao Oscar pela série).

A fotografia, novamente feita por Douglas Slocombe, volta a ter as sombras demarcadas de semblantes como sua marca, ainda que em menor escalas do que nos dois filmes anteriores. Os efeitos visuais também são muito bem feitos (aliás, a única categoria do Oscar que foi premiada nos três filmes do herói), e não aparecem de forma gratuita, mas sim para auxiliar o desenvolvimento da história.

Mas é novamente Steven Spielberg quem sai soberano. Depois de um hiato de 5 anos e dois longas mais 'dramáticos' ("A Cor Púrpura" e "Império do Sol"), o diretor volta a dirigir as sequências de ação de forma magistral, construindo-as de maneira a deixar o espectador 'pregado' em sua cadeira, roendo as unhas ou arrancando cabelos. Brincadeirinhas à parte, Spielberg sagra-se definitivamente, com este filme, como um dos melhores diretores (senão o melhor) de filmes de ação e aventura. Ele sabe, como ninguém, manter a tensão de uma sequência, intercalando planos em montagem paralela, com duração cada vez menor, até atingir o ápice da ação, sua resolução, quando retoma o uso de planos mais longos para que o público possa voltar a respirar.

Enfim, "A Última Cruzada" é a consagração definitiva do melhor herói cinematográfico, com excelentes atores, um roteiro que equilibra humor, cinismo e aventura, e um diretor brilhante. Não é apenas a aventura máxima de Indy; é uma das melhores aventuras do Cinema.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski
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Este definitivamente é o melhor filme da saga. Drama, aventura, comédia, de época, tudo junto.

O roteiro. Começa nos mostrando um pouco da motivação e dos medos do jovem Indiana Jones. Nesta história é incrível que mesmo não conhecendo muito dos pormenores do Santo Graal, nós entendemos o que se passa no filme. Os diálogos são muito bem escritos e as situações são construídas formidavelmente.

Arte e Fotografia. A Direção de Arte sempre competente recriando os ambientes. Neste terceiro filme teve o apoio daquela locação que fica em Petra (Jordânia). Este cenário é incrível. Incrível mesmo. A Direção de Fotografia também está muito bem e, pessoalmente, adoro a ilusão de ótica de uma das provações para se chegar ao Santo Graal.

Quanto ao elenco e personagens. Aqui Indiana Jones finalmente tem um personagem para disputar a atenção. O personagem de seu pai, Henry Jones (Sean Connery), é muito bem construído e interpretado. Os momentos cômicos do filme vêm da interação entre pai e filho na trama.

Por fim, na minha opinião, o melhor dos "Indiana Jones". Feito para se ver e rever mais de uma vez, sem nunca se cansar.


por Oscar R. Júnior


sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Harry & Sally - Feitos Um Para o Outro

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Harry & Sally - Feitos Um para o Outro (When Harry Met Sally…, 1989)

Estreia oficial: 21 de julho de 1989
IMDb



Harry é sarcástico. Sally é decidida. Harry é encantador. Sally é uma graça. Não há como não se apaixonar por esses dois!

Escrito há mais de 20 anos atrás por Nora Ephron, o roteiro de "Harry & Sally" continua atual em suas questões sobre o relacionamento entre homens e mulheres. Será que pode existir amizade verdadeira entre os sexos opostos? Ou haverá sempre a questão do sexo para atrapalhar? Harry acha que isso não é possível. Bom, pelo menos em parte do filme. Sally acredita que isso é uma bobagem. Mas será mesmo?

Mas a única resposta que o longa dirigido por Rob Reiner dá ao seu público é que vale a pena se deixar apaixonar, ainda mais se for por Harry e Sally.

Com diálogos rápidos e sacadas inteligentes, as trocas de palavras entre os protagonistas é algo difícil de encontrar no cinema hollywoodiano (quem dirá então em comédias românticas!). Tanto suas conversas provocadoras quanto aquelas mais íntimas e reveladoras, são apimentadas por comentários maldosos, críticos e cínicos. Não há como não se idenficar com os personagens. E suas conversas mais banais são também as mais interessantes, e que nos fazem conhecer melhor os personagens, seja quando falam sobre sonhos, desilusões amorosas ou discutindo o final de "Casablanca".

Billy Cristal e Meg Ryan interpretam Harry e Sally, e não é exagero dizer que ambos estão nos papéis de suas vidas. A química entre os dois é inegável, e se Billy Cristal é responsável por boa parte das cenas ou tiradas cômicas do longa, é de Meg Ryan a cena que se tornou a mais conhecida do filme: quando ela finge um orgasmo em meio a um restaurante. É hilário! Os personagens não são meras caricaturas (coisa mais do que usual nos filmes do gênero), são bem construídos, e vão se revelando aos poucos ao espectador. Como Harry e Sally encontram-se (e desencontram-se) ao longo dos anos, vamos vendo a evolução e o amadurecimento dos dois.

E Rob Reiner dirige tudo de forma a não deixar o ritmo cair. A opção do diretor em entrecortar os períodos temporais vistos na história com depoimentos de casais que narram como se conheceram e se apaixonaram (realmente não sei se são histórias reais, eu acredito que não, mas isso não importa), é uma ótima forma de aumentar a ansiedade do espectador em ver quando é que Harry e Sally também vão passar pela sua própria experiência.

Além disso, o filme possui planos belíssimos, que mostram todo o charme de Nova York, seja qual for a estação do ano, como na cena em que os protagonistas passeiam por um parque, coroados com árvores em tons laranjas que fazem o fundo do enquadramento. É belíssimo! E a ótima trilha sonora embala tudo isso com ótimas canções e jazz.

Enfim, "Harry e Sally" é apaixonante. Harry e Sally são apaixonantes! Não há como não deixar uma lágrima brotar ao ouvir Harry dizer: "Adoro quando você sente frio, mesmo que faça 22º. Adoro quando você demora uma hora pra pedir um sanduíche. Adoro sua ruga na testa quando olha pra mim como se eu fosse doido. Gosto de sentir seu perfume em mim depois de passar o dia todo com você. Adoro que seja a última pessoa com quem quero falar antes de dormir. E não é porque estou solitário, nem porque é noite de Ano Novo. Vim aqui hoje porque quando você percebe que quer passar o resto da vida com alguém, quer que o resto da vida comece o mais cedo possível. Eu te amo". Podem me chamar de romântica, mas quem não gostaria de ouvir uma declaração dessas?

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


   

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Cozinheiro, o Ladrão, Sua Mulher e o Amante, O (The Cook the Thief His Wife & Her Lover, 1989)

Estreia oficial: 13 de outubro de 1989
IMDb



A história narrada no filme “O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante”, parece tão simples quanto o seu título: Albert Spica (Michael Gambon), um criminoso rude e violento, visita diariamente o seu restaurante, Le Hollandais, sempre acompanhado de seus capangas e de sua mulher Georgina (Helen Mirren). Cansada das grosserias e bizarrices de seu marido, Georgina flerta com um solitário frequentador do local, Michael (Alan Howard), que é dono de uma livraria. Apaixonados, os amantes encontram-se às escondidas no restaurante, com a cumplicidade do chef de cozinha francês Richard (Richard Bohringer). Quando Albert descobre a traição da esposa, ela e seu amante fogem e se escondem no depósito de livros de Michael; porém, ao encontrá-los, Albert desfecha uma cruel vingança contra Michael, que por sua vez, será vingado por Georgina.

Pode-se dizer que a história é a menor das preocupações de Peter Greenaway (isso não quer dizer que ela seja menosprezada), que sempre foi um cineasta das sensações, priorizando a forma ao conteúdo. Para o diretor, um filme é feito sobretudo de imagens em movimento, portanto, a ele interessa mais a composição do plano cinematográfico do que a composição do roteiro em si. Seu olhar tem a mesma sensibilidade da visão de um pintor (e muito disso deve-se à sua carreira simultânea como artista plástico): ocupa-se em representar meticulosamente as cores na tela, a disposição dos objetos em cena, o movimento dos atores diante da câmera. Tanto que Greenaway chegou a dizer (logo antes da estreia de “O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante”, em 1989): “A única arte que me ensinou algo foi a pintura, eu penso que ela é arte suprema. Se você quiser contar histórias, seja um escritor e não um cineasta”. E a sua preocupação com os detalhes da imagem é o que dá ao filme tantas possibilidades de interpretação.

O filme apresenta uma combinação de sete banquetes, distribuídos entre nove dias, os quais são identificados por menus do restaurante, que auxiliam na separação da narrativa em atos, aproximando a estrutura do filme a do teatro. O prólogo começa com a abertura das cortinas, o que já remete a uma certa teatralidade na representação. As cortinas voltam a aparecer no final, dando a entender que toda aquela história foi apenas uma ficção, uma dramatização. O filme também é montado com um ar teatral, como se o observador estivesse ali, olhando o deslocar dos personagens de um cenário para outro. A câmera, paralela à ação, acompanha os personagens como se fosse o olhar (subjetivo) do público presente.

Também o modo como cada ambiente está caracterizado com um código cromático auxilia que o espectador siga o movimento horizontal da ação. Nesse cenário teatral, a continuidade se rompe: do azul do estacionamento ao verde da cozinha, do vermelho do salão principal do restaurante ao branco do banheiro, assim como o amarelo-dourado da livraria e do hospital.

Sobre o verde, presente na cozinha, o próprio Greenaway diz que "representa a floresta de onde vem todo o alimento, pois se relaciona com a natureza em seu momento de maior vitalidade e exuberância". No entanto, a cor é colocada num ambiente que aparenta estar sempre imundo e fétido. Porém, verde também é a cor que popularmente significa a esperança, e pode ser assim interpretado, já que é na cozinha onde os amantes costumam se encontrar e onde o amor se consuma - como uma esperança de uma nova vida para Georgina, longe da violência e escatologias de seu marido. Também é na cozinha onde está Pup, o menino-anjo, com seu canto castrato, pedindo redenção; e onde está o cozinheiro, sensato e criativo. Será na cozinha a concretização dos principais fatos do filme, tanto para cenas extremamente violentas e degradantes, como para cenas belamente poéticas. Portanto, o verde tanto pode se referir à decadência, à matéria decomposta e à imundície; como também à esperança, vida e discernimento.

O estacionamento é azul, mas, em alguns momentos, o chão parece esverdeado, pois a luz verde da cozinha incide sobre ele, dando a impressão que, de certa forma, os dois ambientes confundem-se. Este é o ambiente mais sujo, onde ficam os caminhões com carnes em putrefação, muitos cachorros e é onde a história tem início - em uma cena que já traz indícios da violência presente em toda a narrativa, quando Albert humilha um homem ao colocá-lo em uma condição subhumana. Mas esse é só o início das cenas violentas que têm como cenário o estacionamento, onde Albert e seus capangas chegam a parecer animais ferozes, como na sequência em que Albert força Pup a testemunhá-lo abusando sexualmente de Georgina; ou ainda quando Albert e seus capangas torturam Pup, cortando-lhe fora o umbigo.

O restaurante é vermelho, "tom de sangue" segundo o diretor, e pode ser visto como a representação da animalidade do ato selvagem da comilança. É uma cor quente, associada aqui, às provocações da gula, da exuberância das atitudes grotescas de Albert; e também pode indicar o perigo que ronda o seu personagem. Por outro lado, pode significar glamour e sofisticação, que contrastam com os hábitos grosseiros do ladrão, o qual, ao mesmo tempo em que é rude e violento, parece se preocupar com a etiqueta, pois insistentemente cobra de seus capangas boas maneiras à mesa, mesmo que ele próprio não as possua.

Antagonicamente, o banheiro, local de expelir excrementos, as fezes, a urina, apresenta-se com uma ligação direta com a limpeza, como uma região purificada. O que pode ser interpretado como uma inversão de conceitos realizada por Greenaway. Para o diretor, o banheiro, local onde os amantes fazem amor pela primeira vez, "é como o paraíso", e assim como ele, tinha que ser branco.

O amarelo-dourado representado no depósito da livraria e no hospital, pode ser visto como o valor dos livros em relação à cultura do homem, bem como a sanidade estabelecida a partir das relações do ser humano sendo tratado. É o poder do conhecimento e da saúde físico-mental, que parece estar exprimido pela cor reluzente do ouro.

Mas as diferenças dos cenários vão além das cores na iluminação e nos objetos de cena. Enquanto o salão do restaurante e o banheiro são impecavelmente decorados e limpos; a cozinha e o estacionamento parecem guardar tudo o que é imundo - a sujeira e a podridão.

Os figurinos, principalmente os de Albert e de Georgina, também sofrem as alterações cromáticas, adequando-se ao ambiente onde os personagens se encontram. Assim, o vestido de Georgina, por exemplo, que era azul no estacionamento, torna-se verde na cozinha, passando a vermelho quando ela está no salão principal, e branco, quando no banheiro.

Mas não é apenas este fato que chama a atenção nos figurinos do filme. Pode-se observar um ar um tanto rebuscado nas vestimentas, que parecem tiradas diretamente de um desfile de alta costura. Também não era para menos, já que o figurinista é o aclamado estilista Jean-Paul Gautier.Há um certo excesso nos detalhes dos figurinos de Albert e seus companheiros, com faixas que cruzam o peito e a barriga, remetendo às roupas do século XVI ou XVII, mantendo uma certa semelhança com os trajes presentes no quadro disposto na parede de fundo do restaurante - “Banquete dos Oficiais da Companhia da Guarda de São Jorge” (1616), de Frans Hals. De fato, o que diferencia os personagens desse quadro são os babados no pescoço que não são utilizados por Albert e seus companheiros. Há aí uma certa paródia e crítica à burguesia britânica, que mantêm seus valores e costumes há décadas.

De maneira oposta, as roupas criadas para Michael, o amante, são ternos discretos, com corte clássico e cores pastéis; e que, normalmente, não alteram muito sua tonalidade nos diferentes ambientes. Michael é um intelectual e não representa, contrariamente a Albert, as classes sociais com maior poder econômico.

Já os vestidos de Georgina são apontados pela discrição e, ao mesmo tempo, pela excentricidade. São roupas de corte simples mas que não dispensam a composição feita pelos detalhes que chamam a atenção - penas, plumas, franjas, luvas, chapéus e bolsas - formando um conjunto sempre vistoso. Seu vestido da cena final, é um espetáculo à parte: possui um ar sado-masoquista, parecendo uma teia - uma alusão, pode-se dizer, da armadilha final que ela monta: ao servir o seu amante assado para que Albert o coma. A teia também pode remeter à ideia de aranha ou, no caso de Georgina, de uma viúva-negra, já que os dois homens que lhe proporcionavam prazer - Michael sexualmente, e Albert com o prazer da comida (já que é o dono do restaurante) - acabam mortos em uma relação direta com ela.


A temática do filme enuncia violência, sexo e comida como fazendo parte de uma vingança que acaba em canibalismo, o que pode ser interpretado como uma reflexão do homem moderno e sua natureza animal. Para isso, Greenaway usa e abusa do grotesco, como na cena na qual os dois amantes fogem para a livraria. Para isso utilizam um caminhão de carnes que fora deixado às portas do restaurante logo na primeira cena. Porém, quando o veículo é aberto, a sua carga apresenta-se podre, em estado de decomposição, com a presença de vários vermes.

É como se a fuga de Georgina e Michael estivesse fadada ao insucesso, como se fosse um prelúdio do que estaria por vir. E, realmente, o que se segue são sucessivas cenas de crescente violência. A começar pela tortura do pequeno Pup, para que ele revele o esconderijo dos dois amantes. Mas este é apenas o começo. Logo na seqüência, na cena em que Albert acha a livraria, presenciamos o seu ato máximo de crueldade: quando ele asfixia Michael fazendo-o engolir o seu livro favorito.

O auge do filme é, sem sombra de dúvidas, a sua cena final: a vingança de Georgina - quando ela convence o chef Richard a assar o seu amante para que este seja servido a Albert. Mas a plasticidade não está presente apenas neste 'banquete' final, e sim em todas as comidas presentes ao longo da narrativa. É o aspecto refinado, a imagem visualmente performatizada, dos pratos servidos por Richard (principalmente os direcionados a Georgina) que instigam os sentidos do espectador. A gastronomia apresentada no restaurante, como arte da composição, entra em oposição com os alimentos da cozinha, que parecem estar sempre sujos, como peixes crus e patos sendo depenados; e com as carnes dos caminhões, que já se encontram no estado de decomposição.

Talvez hoje o filme de Peter Greenaway não cause mais um choque tão grande. Mas a beleza e a plasticidade de sua composição, assim como os vários níveis de relações e leituras que se podem fazer da sua obra, essas são eternas.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski


P.S.: Parte do trabalho realizado para a Disciplina de Semiótica do curso de Especialização em Cinema da Universidade Tuiuti do Paraná, em junho de 2011.


quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ladrões de Sabonete

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Ladrões de Sabonete (Ladri di Saponette, 1989)

Estreia oficial: 16 de fevereiro de 1989
IMDb



"Ladrões de Sabonete" é uma homenagem a um dos mais famosos filmes da época do Neorrealismo italiano - corrente cinematográfica que marcou a produção desse país nas décadas de 1940 e 1950 - o clássico de Vittorio de Sica, "Ladrões de Bicicleta" (1948).

Além disso, o filme escrito, dirigido e protagonizado por Maurizio Nichetti é um protesto às redes de televisão, que acabam "mutilando" os filmes que exibem com as interrupções para os intervalos comerciais e assim, acabam até mesmo modificando essas produções cinematográficas.

No filme, Nichetti interpreta ele mesmo, um diretor de cinema cujo filme, "Ladrões de Sabonete" será exibido em uma emissora de televisão, logo após uma entrevista que ele concederá. O filme (dentro do filme) é protagonizado pelo próprio Nichetti, passa-se nos anos 50 e conta a história de uma pai de família, Antônio, que, devido à crise, não consegue arranjar emprego. Sua esposa, Maria (Caterina Sylos Labini), sonha em ser cantora e, por vezes, deixa de lado os dois filhos pequenos para tentar uma ponta em um pequeno cabaré da cidade. Antônio acaba conseguindo emprego numa fábrica de lustres e, para satisfazer ao desejo da esposa, certo dia acaba roubando um dos lustres.

E é aí que toda a confusão - e a genialidade do filme - tem início.

Há três núcleos (digamos assim) no filme: (1) o programa de televisão que está entrevistando Nichetti e transmitindo o filme "Ladrões de Sabonete", com seus intervalos comerciais; (2) o próprio filme (preto-e-branco) que está sendo transmitido; e (3) uma família que está assisitindo a toda essa programação pela TV em sua casa.

A história é contada intercalando esses três núcleos. Vemos Nichetti chegando e se preparando para a entrevista, o programa televisivo começa a transmitir seu filme, e a família assiste ao programa. Entretanto, à medida em que a história avança, um núcleo passa a interferir no outro, primeiro de forma bem sutil, e depois, com tanta força que personagens de um núcleo passam para outro. Explico. Uma moça de um dos comerciais de TV "passa" para o filme. A personagem de Maria acaba indo parar em um dos comerciais da TV. O próprio diretor, Nichetti, sai da televisão e vai interferir na história do seu próprio filme, inclusive, encontrando com o personagem que ele mesmo interpreta, Antônio. Nichetti também, a certa altura, de dentro do filme, consegue enxergar a sala da família que o assiste pela TV.

Ou seja, uma palavra consegue definir bem essa produção: intertextualidade. E assim, o filme de Nichetti (o real, não o filme dentro do filme) acaba sendo mais atual do que nunca, nessa vida de internet e "hyperlinks". É um meio de comunicação alterando a nossa maneira de ver outro, e assim, sucessivamente.

Muitos podem dizer que "Ladrões de Sabonete" referencia "A Rosa Púrpura do Cairo" (1985), de Woody Allen. E, embora haja essa interação entre ficção e realidade, são duas obras totalmente distintas, pois Nichetti consegue inovar os conceitos e trabalhar numa esfera de intertextualidade bem maior que o filme de Allen (de forma alguma estou tirando o mérito, o valor artístico e a qualidade deste).

"Ladrões de Sabonete" também consegue ser engraçado, com gags físicas eficientes. Mas não somente, já que o filme dentro do filme, com sua história triste, consegue também comover.

As atuações são ótimas. Os efeitos visuais são eficientes. E a fotografia, que intercala preto e branco e colorido, muito bonita.

Enfim, "Ladrões de Sabonete" não é apenas uma linda homenagem ao clássico de De Sica. Torna-se, ele próprio, um novo clássico do cinema italiano e mundial.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski