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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl with the Dragon Tattoo, 2011)

Estreia oficial: 20 de dezembro de 2011
Estreia no Brasil: 27 de janeiro de 2012
IMDb



Quando soube que "Os Homens que Não Amavam as Mulheres" iria ganhar uma versão estadunidense fiquei apreensiva. A versão sueca dos livros de Stieg Larsson era correta e, ainda que não mantivesse uma grande fidelidade narrativa à obra literária, o cerne de sua protagonista e, consequentemente, do livro, havia sido preservado. No entanto, ao saber que a versão yankee seria comandada por David Fincher, a apreensão deu lugar à ansiedade. Admiradora do trabalho do cineasta, confesso que a esperança de ver um filme ainda melhor que o original sueco superava o receio da 'americanização' da história.

E meus anseios, felizmente, confirmaram-se. Muito mais fiel à obra de Larsson, o longa comandado por Fincher evita a tal 'americanização' (apesar de ser falado em inglês), principalmente por preservar a localização da sua trama na fria Suécia, o que colabora não apenas para o desenvolvimento da história (já que os cenários são realmente importantes para que ela aconteça), mas também contribui para a sua estética; além de ser um respeito e uma homenagem ao seu autor e à obra original.

Como falei, o roteiro de Steven Zaillian mantém-se fiel ao livro, não só no que tange ao comportamento de seus personagens, mas também (e o que a versão sueca não fazia) à sua estrutura narrativa. Logo no início vemos o jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig) sendo condenado por ter escrito e publicado uma matéria na qual acusava um poderoso empresário sem provas materiais e contundentes. Para não afundar ainda mais a sua revista, Millennium, Blomkvist decide aceitar uma proposta um tanto quanto inusitada do milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer): investigar o desaparecimento de sua sobrinha favorita, Harriet, ocorrido há 40 anos, e cujo possível assassino só poderia pertencer à própria família Vanger, que aliás, é repleta de tipos, no mínimo 'curiosos', como ex-nazistas e pessoas nem um pouco amigáveis ou simpáticas. Para essa investigação Mikael acaba solicitando a ajuda da hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara), que havia levantado a sua ficha pessoal e profissional para que o próprio Henrik Vanger descobrisse um pouco mais a respeito do jornalista. Acontece que Salander tem seus próprios problemas: considerada incapaz, desde os 12 anos foi colocada sob tutela do Estado, e 'coleciona' uma sucessão de episódios violentos em sua vida. Assim, Salander e Blomkvist passam a investigar o suposto assassinato, revelando segredos há tempos escondidos pela família Vanger.

Bom, se considerássemos apenas os aspectos técnicos, o longa de Fincher já mereceria todos os aplausos possíveis. A começar pela sua excelente e criativa abertura que, através de suas formas, revela toda a confusão que cerca a vida e a personalidade da protagonista, Lisbeth. Já a fotografia de Jeff Cronenweth acerta na maneira como transforma as paisagens brancas (de neve) da Suécia em ambientes sufocantes e frios, que refletem, talvez, a natureza dos próprios personagens, e que só é amenizada nos raros momentos em que vemos Mikael Blomkist com sua filha. Assim como a inteligente escolha em manter enquadramentos que, posteriormente na história, entenderemos seu real significado, como manter Lisbeth ao fundo e desfocada, quando vemos, em primeiro plano, a foto da família de seu tutor, Nils Bjurman; ou quando ele mesmo levanta-se de sua mesa e a câmera mantém-se baixa, na altura de sua barriga - o que, aliado a eventos futuros, transformam-lo em uma figura repulsiva; ou ainda, no apartamento de Bjurman, como a câmera afasta-se (num travelling out) de uma porta fechada, como que não querendo revelar o que está prestes a acontecer lá dentro.

Igualmente competente é a sua direção de arte, que transforma cada residência numa espécie de prolongamento do seu dono, e revela muito de sua personalidade pelas suas cores, objetos e arrumação, por exemplo (o que acaba tornando-se essencial para o bom andamento da trama, já que tal fato ajuda no desenvolvimento e na diferenciação do grande número de personagens que aparecem).

Mas, de todos os aspectos técnicos, certamente é a montagem de Kirk Baxter e Angus Wall que merece maior destaque. Levando de forma paralela as histórias de Salander e Blomkvist até quase a metade do longa, a narrativa jamais perde a fluidez; isso sem contar que ainda possui um terceiro aspecto: os inúmeros flashbacks que contam a história passada de Harriet. Sem nunca perder o ritmo, os 158 minutos de filme jamais parecem se fazer notar, tamanha a agilidade e habilidade com que os montadores 'orquestram' as várias linhas narrativas.

Aliado a isso, David Fincher consegue criar um clima de apreensão que percorre a sua história do início ao fim, sem com isso, descuidar do desenvolvimento de seus personagens centrais. E é notável que o diretor confie tanto em seus personagens que mantenha a estrutura narrativa do livro de Larsson, onde continua a história mesmo depois do seu conflito principal ter sido solucionado - e se isso pode funcionar bem na literatura, é um artifício bastante arriscado no cinema. Mas o diretor consegue manter o espectador atento não só à solução da ação, digamos assim, mas também ao desfecho particular de seus protagonista, numa espécie de epílogo que dura mais de 10 minutos.

Mas o longa é mesmo de seus dois protagonistas. Daniel Craig consegue tornar o seu Mikael Blomkvist milhões de vezes mais interessante do que o protagonizado pelo sueco Michael Nyqvist. Seu jornalista é inteligente e 'durão', porém não da mesma forma impassiva com que Craig interpretava James Bond ou seu personagem em "Cowboys & Aliens", por exemplo. Aqui, o ator demonstra muito mais sensibilidade e empresta detalhes a Mikael Blomkvist que o tornam mais 'real', como seu semblante atemorizado quando se vê em situações de perigo, ou sua insegurança quando está em um avião, apenas para citar duas características.

Mas é mesmo Rooney Mara a 'alma' do filme. Se Noomi Rapace já conseguira transformar Lisbeth Salander em uma criatura extremamente complexa e paradoxal num visual bastante peculiar, Mara vai além, numa composição ainda mais audaz. Se seu 'look punk', com suas roupas pretas, seu penteado ousado e seus piercings são intimidadores, a postura da garota diz exatamente o contrário: andando levemente 'encolhida', com os ombros contraídos, Lisbeth evita encarar as pessoas com quem fala (a não ser em momentos de maior tensão ou intimidade) - como se quisesse se enconder do mundo e, ao mesmo tempo, chamar sua atenção; e se consegue ser fria e mal educada com a grande maioria dos seres humanos, recusando-se a um mero cumprimento, mostra um carinho filial com seu antigo tutor, Holger Palmgren. Mara ainda consegue sutilezas na sua interpretação que revelam muito de sua personalidade, como no momento em que Blomkvist vai mostrar-lhe algo no computador e ela, nitidamente (ainda que discretamente) mostra-se irritada pela sua lerdeza (lembrem-se que ela é uma hacker, e das melhores!); ou no momento em que, depois de um ato covarde de violência, decide realizar mais uma tatuagem exatamente sobre um local machucado da sua perna e, ao ouvir o tatuador alertá-lo sobre a dor que sentirá, apenas dá de ombros, como se aquilo não fosse nada comparado às várias 'porradas' que já levou da vida - e notem o paradoxo: apesar de suas maneiras e suas roupas serem hostis e agressivas (em uma determinada cena, sua camiseta traz escrito "fuck you, your fucking fuck"), sempre que é vista se alimentando, está comendo um Mc Lanche Feliz. Porém, Lisbeth não é indefesa, e se transforma em um verdadeiro 'animal' quando se sente ameaçada, capaz de cometer atos tão violentos quanto os que sofre - o que a transforma em uma pessoa extremamente imprevisível e realmente perigosa. E, assim como nos identificamos pela sua fragilidade e a admiramos pela sua inteligência muito acima da média, também sentimo-nos inseguros frente à sua instabilidade emocional e carência de traquejo social.

Enfim, "Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres" não é apenas um thriller investigativo extremamente eficiente, mas um excelente estudo de personagens. E, assim como Noomi Rapace já o fizera, Rooney Mara transforma Lisbeth Salander numa das (anti-)heroínas mais interessantes e complexas da história do Cinema.

Agora o grande problema: David Fincher conseguiu me deixar ainda mais angustiada do que estava antes de assistir ao filme, já que não vejo a hora de encontrar novamente Lisbeth e Blomkvist nas suas duas continuações…

Fica dica!


por Melissa Lipinski
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Regravação do excelente filme sueco. Confesso que quando soube que iam regravar fiquei com pé atrás. Mais uma regravação!! Daí vi que quem ia dirigir era, nada mais nada menos, que David Fincher ("Clube da Luta", "Seven", "A Rede Social"). Após ver o filme, porém, percebo que a decisão foi muito acertada. Não que a versão sueca seja ruim, mas esta nova versão é muito melhor.

Os personagens: Mikael Blomkvist (Daniel Craig) é muito melhor construído. Agora sim pudemos ver tudo o que esta personagem tinha a mostrar. Já a Lisbeth Salander (Rooney Mara) consegue superar a Lisbeth da versão sueca (e olha que Noomi Rapace estava excelente naquele filme). Lisbeth por um lado se veste de forma mais agressiva, no estilo punk, e anda sem encarar as pessoas, de cabeça baixa, tentando passar desapercebida. Ao se sentir acuada ela parte para o ataque como um bicho feroz. Muito boa a construção e a atuação de Rooney Mara.

Junte a tudo isso uma direção primorosa, cenários que fazem valer a pena o filme se passar na Suécia e uma montagem muito bem construída e executada.

Recomendo muito. (Também recomendo ver a trilogia original).


por Oscar R. Júnior


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Alien 3

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Alien 3 (‪Alien³‬, 1992)

Estreia oficial: 22 de maio de 1992
Estreia no Brasil: 31 de julho de 1992
IMDb



David Fincher é o diretor que assumiu o projeto desta terceira parte da série "Alien". Infelizmente, é o mais fraco dos episódios da saga. Dizem que houveram muitas discussões e opiniões de várias pessoas (o que nunca é um bom sinal) até que se conseguisse fechar o roteiro. O resultado é evidente na tela.

Com vários furos no roteiro, como o desaparecimento sem explicação de determinado personagem no fim do filme, ou o que é o pior pra mim: o fato do 'embrião' Alien (aquele que gruda no rosto das pessoas) não morrer depois que infecta a tenente Ripley (Sigourney Weaver), o que até então, nos filmes anteriores, era o padrão. Aliás, é este fato que dá origem à toda a narrativa. Portanto, a história toda foi feita em cima de uma 'forçada de barra'.

Para piorar, o tal embrião infecta um cachorro, dando origem a um Alien quadrúpede - na minha opinião, a pior ideia que poderiam ter tido! O tal Alien, obviamente é bem realizado, com ótimos efeitos especiais (terceira indicação ao Oscar de Efeitos Visuais dos filmes da saga), e seus movimentos realmente convencem. Ao mesmo tempo, dos filmes, é o mais sangrento, perdendo todo o ar de suspense psicológico que o primeiro tinha aos montes, e o segundo ainda manteve em menor grau.

Claro que Fincher confere dinamismo à narrativa, e o longa nunca torna-se aborrecido, já que seu bom ritmo faz com que o espectador fique atento ao que está prestes a acontecer. E o ar claustrofóbico que o diretor confere à narrativa também auxilia no tom de urgência presente em todo o filme.

Porém, furos no roteiro à parte, o ponto mais interessante aqui, é a composição da personagem Ripley. Agora, a tenente, mais amargurada, ganha uma maior complexidade em termos emocionais, tornando-se ainda melhor estruturada como personagem.

Enfim, "Alien 3" não se compara em qualidade aos seus antecessores, mas também possui suas qualidades, principalmente técnicas.


por Melissa Lipinski


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Rede Social

ATENÇÃO: O texto pode conter citações sobre o desenrolar do filme. Caso não tenha visto o filme ainda, tenha cuidado ou o leia após assisti-lo.

Rede Social, A (The Social Network, 2010)

Estreia Oficial: 01 de outubro de 2010
Estreia no Brasil: 03 de dezembro de 2010



Falar que esse "A Rede Social" é o filme 'do Facebook' chega a ser um desrespeito ao próprio filme. Ele é muito mais do que isso. Bom, o Facebook todo mundo sabe o que é, todo mundo usa, não precisa introduções. Como ele surgiu também não é o principal aqui. Mas sim o seu criador. É muito mais sobre a pessoa de Mark Zuckerberg e seus relacionamentos - ou incapacidade de mantê-los - que trata o longa.

Interessante notar que Zuckerberg, dono de uma inteligência racional e de um raciocínio matemático muito acima do normal, possui uma inteligência emocional inversamente proporcional, não conseguindo qualquer nível de amizade ou relacionamento com outro ser humano. Sua incapacidade de falar palavras polidas ou corteses é latente. O traquejo social que todos nós temos - ou que a grande maioria tem - de, às vezes, não ser totalmente sincero em sua opinião para não machucar os sentimentos alheios, é uma coisa inexistente no protagonista. E é esse paradoxo que torna o personagem tão interessante.

O raciocínio rápido, a inteligência superior e a incapacidade de se relacionar são arremessados na cara do espectador logo na primeira sequência do longa, quando, conversando em um pub com a namorada, Zuckerberg é capaz de falar sobre mais de um assunto ao mesmo tempo, em uma velocidade de deixar qualquer um tonto, ao mesmo tempo em que é incapaz de dar dois segundos de atenção à namorada que, justamente, sente-se magoada pela crueldade das palavras que o companheiro desfere (mesmo que este pareça incapaz de perceber o quão ferino está sendo).

Apesar da sua incapacidade de se relacionar, Zuckerberg possui uma perceptividade muito grande, e rapidamente consegue ver para que caminho os outros estão levando determinadas conversas, cortando-os com sarcasmo e grosseria, que vêm do seu aparente menosprezo pela inteligência e raciocínio da maioria das pessoas. Porque sim, ele possui um ego e uma necessidade de se auto-afirmar diretamente proporcional à sua inteligência - gigantescos!

Falando nisso, devo ressaltar que Jesse Eisenberg interpreta o protagonista de maneira magistral, evidenciando seu comportamento e elevado QI através de fala rápidas e uma chamativa inexpressividade. Em contraponto a ele, seu melhor amigo e co-fundador do Facebook, o brasileiro Eduardo Saverin é interpretado por Andrew Garfield de maneira carismática e acolhedora. Já Justin Timberlake, surge como o interesseiro e esbanjador Sean Parker, o criador do Napster e que, logo, torna-se sócio do Facebook, manipulando Zuckerberg. Timberlake oferece uma ótima atuação aqui. Fechando o elenco, Armie Hammer encarna os gêmeos Winklevoss, personagens tão cheios de nuances e tridimensionais que, mesmo estando na trama como antagonistas diretos de Zuckenberg, fica impossível vê-los como tais, tamanho o carisma dos irmãos.

Com personagens tão intrigantes, o roteirista Aaron Sorkin cria uma história pra lá de interessante (com diálogos rápidos, engraçados e repletos de referências), estruturada ao redor dos processos movidos por Saverin e pelos gêmeos contra Zuckerberg, ao mesmo tempo em que vai mostrando como a ideia da criação do Facebook foi tornando-se realidade. E é muito interessante ver coisas tão corriqueiras para nós atualmente, como certos termos da rede social, sendo desenvolvidas.

David Fincher (que já não mais precisa provar seu talento) mostra-se bem mais eficiente do que em seu último trabalho "O Curioso Caso de Benjamin Button", criando um bom ritmo da narrativa, já que o filme passa muito rápido, tamanha a eficiência da direção. Aliado à isso, a fotografia é acertadíssima, apostando em ambientes sempre frios e monocromáticos, com exceção à cena que se passa na Inglaterra, que, contrapondo-se ao universo de Zuckerberg, mostra-se cheia de cores mais vivas.

Interessante notar que o Mark Zuckerberg mostrado em "A Rede Social" tem um quê de Charles Foster Kane ("Cidadão Kane", 1941), além de criar um império da comunicação (guardadas as carcaterísticas inerentes a cada um e à cada época), são homens que não conseguiam se expressar da maneira convencional, mas que, ironicamente, ligavam um número gigantesco de pessoas.

O melhor do filme de Fincher é que ele nunca tenta tirar a culpa das ações de Zuckerberg, ou explicar o porquê de ele ter agido (ou roubado ideias, ou traído o amigo, como queiram) da maneira como o fez. E é aí que o filme ganha excessiva força.

Fica a dica!


por Melissa Lipinski
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O filme já começa numa cena de tirar o fôlego. Não por ser agitada, e sim pela rapidez e complexidade do diálogo entre Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) e Erica Albright (Rooney Mara).

O elenco está ótimo e rende personagens complexos e bem encenados. Destaco o Justin Timberlake que me surpreende cada vez mais quando atua. E o grande destaque do filme é Jesse Eisenberg que obviamente rouba a cena pra ele.

A trilha sonora do filme é muito bem construída assim como a montagem. Na verdade, a montagem é sensacional pois centra o filme no criador, e não na criação do Facebook, montando em paralelo a briga judicial e o crescimento da rede social.

Por fim, destaco também a forma de retratar esse universo de quem monta sites, com seus cálculos estranhos para todo o resto da população. O filme, mesmo tendo várias vezes esse linguajar técnico, consegue ser muito abrangente no entendimento.

Recomendo !


por Oscar R. Júnior